Tapete vermelho.





Chegas a insultar o meu discernimento fugaz; ludibrias o teu ser com a minha capacidade pragmática e racional de ver as coisas, afinal, para quê serem dois a pensar sobre o mesmo assunto? Sou capaz de esmíuçar o mais ínfimo pormenor e tu sabe-lo.

Que fujo quando os problemas me assombram porque melhor que viver longe deles, é viver sem saber que correm desenfreados atrás de mim, e tu só os ajudas a apanharem-me desprevenida, dizes que não. Tu só dizes que não, que o teu íman não os afecta de maneira alguma, ingenuamente falando, és criança inocente que imagina ter o doce na mão enquanto ele derrete no asfalto quente.
Serás tu cego, que não vês a desgraça em que te afogas? Que te consome as ideias e o juízo, me suga as energias e nos entrega ao monstro voraz que é o cansaço. Arrancas carne e alma por algo que sabes que, em válido segredo, não existe por mutualidade. E o que não existe, ainda, não se muda, não se transforma. Vive em inexistência por um período supérfluo e paralelamente utópico enquanto nos enganamos porque sim, porque é melhor e não dói tanto.
Reflito em silêncio sobre toda a sanidade mental que me falta e concluo que sou uma louca desvairada, daquelas que arranca cabelos e rasga as roupas. Sou capaz até de me colocar em frente a um comboio com a (in)feliz ideia no pensamento de que não morro, porque nem essa morte me falta. Mas se reflito sobre a tua doença vejo que és incapaz de ser como seu, que vives num mundo sem reacção, apático. Nem te atreves sequer a pensar em rasgar as roupas, porque são muito caras, ou então porque a nudez te deixa tímido, tão púdico que és.
Posso ser bastante demente no que toca a decisões e escolhas que acabo por tomar, mas se escolho é porque coragem não me falta, radicalismo muito menos. Segurávamos ambos algo que já estava caído no chão, junto com o teu doce, no asfalto quente, e mantinhas um sorriso amarelo e seco nos lábios enquanto eu gritava aos sete ventos. Que o deixaste cair. Que não te mexias. Que estavas a morar no mundo que pintaste sozinho e nos teus segredos mais profundos.

Esticaste a corda e ela partiu.
Quem serei eu para lhe dar o nó que lhe falta, se o que mais nos falta agora são os laços?

Told you so


Quem me conhecesse saberia exactamente que a minha imagem não passaria de meros e escassos traços alegres repentinos, e que o esboço do teu olhar ainda me percorria os traços vincados das minhas raízes negras. Os lábios carnudos que tu tanto gabavas sentiam ainda o aconchego dos teus, num beijo leve e casto, aquele que me deixaste antes de mudares de sítio. Eu de ti queria um colo, um berço, um braço quente em torno do meu pescoço, uma voz que cantasse baixo e parecesse querer fazer-me chorar. Eu queria só um pequeno calor no inverno, um extravio morno da minha consciência e depois sem som, um sonho calmo, um espaço enorme, como a lua rodando entre as estrelas. Não achei que pedisse muito, seria erróneo da minha parte até dizer que simplesmente pedi. Agora esfrego as mãos porque está frio e espreito por cima do ombro para ver quem me segue. Não está ninguém. Quem me conhecesse saberia que não iria percorrer as ruas sozinhas simplesmente porque acabaria por perder as forças a meio caminho e que iria fraquejar assim que me sentisse desamparada. Quem me conhecesse não diria que me conhece agora. Tu mudaste de sítio e por isso já não me conheces e pregas aos sete ventos o facto de não saberes quem sou. Já soubeste quem fui, porque mentes afinal se quem decidiu mudar de sítio foste tu? Que trocaste os papéis e inverteste as decisões? Que escolheste fugir do futuro com medo do passado assombroso que me envolvia? Se eu te tivesse avisado... Tinhas ido embora na mesma. 
Acendo um cigarro que me morre nos lábios e o fumo incomoda alguém que se encontra a meu lado, forçando-a a seguir outro caminho. Que ironia do destino se o que me alivia a dor acaba por ser aquilo que me faz afundar mais ainda. Solto uma risada sem medo de críticas porque ninguém me vê. Olham. Não me vêem. 
A vida não passa disto, os momentos perfeitos servem para nos dar força para todos os outros e ensinam-nos que a eternidade às vezes só dura alguns momentos, algumas risadas e lutas de almofada, mas entre caixotes, pó, memórias perdidas no tempo e a certeza que nunca mais entrarei na casa onde vivemos, guardo-te com o sabor dos chocolates que já viveram na mesma caixa onde agora repousas, sereno e pacificado, na doçura triste que sucede a desordem do amor. Ali porque já fugiste de todas as maneiras e dizes que não me conheces porque já não estou igual. Sabes uma coisa? 
Por vezes, acomodamo-nos naquele lugar seguro. Conhecemos cada canto da casa e sabemos que janelas abrir ou manter fechadas. Conseguimos caminhar às escuras sem tropeçar num tapete ou bater nalguma parede. Estamos confortáveis, nada nos perturba. Ali sabemos quem somos e o que nos espera. Sabemos que temos uma porta que nos separa do que queremos deixar lá fora.
Sair desse lugar seguro deixa-nos frágeis. Faz-nos ter de pensar nos perigos que corremos. Deixamos de ter portas que nos protegem. Deixamos de poder caminhar à escuras porque não conhecemos o chão que pisamos. Nem sequer existe o vidro da janela por onde podemos espreitar sem termos de nos expor ao frio e à chuva. Sabemos que a nossa resistência será posta à prova. E não sabemos se, um dia, esse lugar assustador poderá ser um lugar tão confortável e seguro quanto aquele onde nos fechámos. E então ficamos ali, no hall de entrada, de chaves na mão, a tentar perceber se é melhor continuarmos no conforto do nosso canto ou se devemos reaprender a caminhar à chuva. 

Não me refugiei e o cigarro apagou-se com a água que caiu repentinamente do céu cinzento que me cobre os pensamentos e abro finalmente o guarda-chuva. Sei com todas as certezas de que irei ficar doente sem ninguém para me preparar as torradas e infelizmente não suporto o chá que sei que tenho de beber. Mas lembro-me do quão infeliz será a tua vida no sítio para onde decidiste fugir e esboço um sorriso enviesado, sei o que pensas. 
E mais do que tu, também eu temo aquilo em que me transformei. E nunca me surpreendi tanto com a minha monstruosa frieza e alheia ao que me dizem. 
Se eu quisesse entrar em generalizações e dizer que as pessoas não mudam, nem com o tempo, nem com a idade ou nem com as experiências que vão vivendo, se eu dissesse que apenas se moldam e adaptam às circunstâncias, mantendo sempre a sua essência, personalidade e princípios, teria de ignorar a mão cheia de coisas que, há meia dúzia de anos, seria capaz de fazer com a maior das convicções e que, hoje em dia, me parecem completamente inconcebíveis, ou vice-versa. Teria também de ignorar todas as coisas a que dava um enorme valor e que hoje não me parecem fazer qualquer sentido. E todas as opiniões, gostos, vontades, acções e reacções que faziam parte da minha forma de ser ou estar, forma essa que hoje nem sempre reconheço. Ou então, teria de ter a pretensão de achar que sou diferente de todos os outros. E não tenho. Não sou. Por isso digo que as pessoas mudam, sim. Algumas mudam até de uma forma brutal. 

Só não acontece é com todas.




There's no place like...




Se eu me sentar numa rocha enquanto ouço a banda sonora do momento sou capaz de me desmanchar em prantos porque não sei para onde voltar. Tenho os caminhos cruzados, mal amparados, com tantas casas vazias e portas entreabertas. Imagino-me a agarrar na minha mochila desbotada cujo fecho está frouxo e a enchê-la com tão pouco quanto existe em mim, contrastando com a minha mente assoberbada.Vejo-me a procurar um caminho invisível, tateando o percurso porque me é desconhecido e tão bem que me sabe. Deixo os cigarros morrerem-me no canto da boca enquanto me encontro deitada no cimo do monte e sinto a brisa deliciar-se com os meus cabelos pretos. Se fechar os olhos consigo continuar a imaginar-me a ir embora. Tanto sítio para onde ir e nenhum é o meu. Como tantas outras pessoas eu só quero voltar para a minha casa. Lar, por assim dizer, cuja definição é esmiuçada em tantas teorias filosóficas alheias e eu nem lhe sei o caminho. Porque a casa é mais do que abrir as portas e sentir o cheiro a bolo de de chocolate acabado de fazer, pegar numa manta e fundir-me com o sofá enquanto afago os pêlos do gato. Voltar a casa não é apenas abrir as persianas ao acordar e deixar a porta trancada quando saímos para não ter surpresas inesperadas quando voltamos. 
Basicamente é sentir que não existe outro lugar no mundo onde nos poderíamos sentir mais feliz, onde sabemos que o colo não nos falta e as palavras não compensam o afeto que sentimos quando nos encontramos connosco na nossa cabeça e coração.  Há mil e uma casas a rodear-me. Casas grandes e que ostentam luxo em qualquer aresta. Casas humildes com paredes em tijolo, casas vazias de amor e casas cheias de barulho. 
Continuo a preferir a minha mochila rota e desbotada, correr para lado nenhum sem sair do mesmo sítio porque sei que acabo sempre por voltar aqui: ao nada. Não sei que casa é a minha. O meu cigarro sussurra-me que não pertenço a lado nenhum, que nasci para ser uma sem-abrigo com cama para dormir e mesa para jantar e pessoas para ouvir.
Nós somos o sítio que nos faz falta, aquele que ainda não conhecemos e que permanece incógnito apesar da incessante necessidade de assentar a cabeça na almofada e ter a certeza de que amanhã, quando acordar, ainda estamos ali. E por comodismo ou propriamente incapacidade acabamos mesmo por acordar no mesmo sítio. Apesar de não ser a nossa casa. Porque não conhecemos outra. Porque o sorteio não nos mostrou mais caminhos e não queremos agarrar na mochila e partir à busca do desconhecido. Porque somos todos demasiado cobardes e assustadiços para termos a coragem de nos encontrarmos. Eu sou demasiado cobarde. Então apago o meu cigarro na terra húmida, respiro fundo e arranco forças do fundo de mim para me levantar e caminhar outra vez de volta. Só que desta vez, sem saber bem para onde, sei que vou parar ao mesmo sitio. Abro a porta e arrasto um sorriso enviesado e amarelo e digo num som melancólico e gasto: voltei.


Presságio


 
Sentei-me junto à janela. Sinto a brisa leve e arejada e sou repentinamente invadida por desejos mirabolantes e uma insónia desgraçada. Tenho que dormir. Preciso mesmo de dormir. Só não sei como, realmente. Se me deito, penso em ti. Se vagueio, em ti penso. Sai de mim. Sai por favor. Não saias. 
Acabo por me sentar na cama e acendo um cigarro, não consigo deixar de pensar no que aconteceu. No que vai acontecer. Tenho a minha barriga a viver com as borboletas.


Abro os olhos porque ouvi um choro repentino. Agudo. Forte e insistente. Vem de longe mas não muito, o suficiente para eu não me preocupar em verificar porque senti passos próximos. Fecho os olhos. Acabo por inalar um cheiro característico a canela e maçã, com um pequeno travo a menta. Sinto um beijo percorrer-me o pescoço, que acaba por me morrer nos lábios. Tens o hálito fresco e eu morro de vergonha por teres que olhar para mim. Que acordo tão horrivelmente mal. Alargas um sorriso enquanto me embrulhas no teu abraço matinal e dizes: bom dia amor. Amor, eu? Onde andei este tempo todo? Descobri agora que te vivo. 
E uns pés de lã invadem o quarto.
Um ser totalmente estranho invade a cama e rouba-me o cobertor. E tu, embevecido, deixas. Como é possível eu observar-te tão apaixonado!? Ternurento até, admirado, orgulhoso. Sinto um puxão nos cabelos desgrenhados e um "bom dia mamã" presenteia-me a vida. Tem os teus olhos, que escondem segredos e artimanhas. Olhar maroto de quem acabou de fazer asneiras mas santo o suficiente para saber que não foi com maldade. Um nariz perfeitinho esculpido numa cara redonda e emoldurada nuns caracóis castanhos. Brilhantes. Uns lábios cheios e tão rosados quanto as maçãs do rosto. Dois dentinhos enfeitam-lhe a boca e eu não consigo evitar agarrá-lo. 
Mergulho no abraço do meu pequeno amor, enquanto sou protegida pelo teu. No silêncio. Porque não preciso de mais nada. Porque me encontro tão afogada em amor que não exijo salvação. Porque a vida é perfeita e se melhorar estraga. Porque me envolves com o teu toque doce e atrevido. Porque me proteges como um super-herói mas eu sei que és feito de carne e osso. Conheço a tua fraqueza e sei que se te faltar, andas com as camisas amarrotadas e acabas por te alimentar mal. Descubro que te esqueces de mudar as fraldas ao menino e que por vezes te atrasas na hora do jantar. Que andas sempre a perguntar que dia é, porque te perdes no calendário e em mim. E só por isso fecho os olhos. Nos braços dos amores da minha vida.

Só não sei porque acordei. Ligo-te e vou ter contigo. Os sonhos só se concretizam se fizermos por isso. 
Ama-me para sempre


•••

Só no fim destes dias.

No fim destes dias encontrar-te a ti, que me sorris, que me abres os teus braços e me enrolas no teu amor, que me abençoas e passas a mão na minha cara marcada, na minha cabeça confusa, que me olhas nos olhos e me permites mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, no toque que não sei descrever. Tu que me embalas dentro dos teus braços e tu que me beijas e tu que me apertas e tu que me sossegas repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem.
Que te lembras de mim quando eu finjo que não estou cá, que me acalmas quando me enfureço por coisa nenhuma e que te sentes completo quando estou no teu redor.
No fim destes dias, sabendo que te encontrarei no dia seguinte, que estarás aí para mim sempre que precisar. Espera-me, tu que esperas por tantos momentos e me agarras nos teus prantos e que sossegas o teu choro em mim. Como poderia eu ser inteira, se não te consigo apenas amar pela metade? 

«mg.»

Lacunas





Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insano, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias inteiros, noites acordada, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparada atravessando madrugadas na tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele. Disfarçarás melancolia ao ouvires o seu nome, suspirarás cada vez que lembrares o seu beijo e chorarás quando finalmente descobrires que ele já não te quer mais.


(...)

Dear God...






Sempre tive a mania de que sabia tudo. De cor, salteado, para a frente e quiçá, para trás. Relancei milhares de vezes o meu corpo para o que julgava ser etéreo, julguei-me sóbria. É, sempre soube tudo, mas esqueci-me de que podias existir. O sol brilha lá fora, cheio de frio, e sinto-me tão quente...Esqueci-me. De que passarias por mim, em algum lado, num dia qualquer, como quem não quer nada, mas queres.
Esqueci-me de que és homem. E quando realmente gostas, vais até ao inferno por mim. Vais e enfrentas mil tormentas, porque gostas. Porque és simples e previsível. Porque tu não és como eu, raça errónea da Humanidade, que analiso, penso e ainda atribuo mil problemas quando eles não existem. Balanço o meu ser entre o ir e o ficar, com medo do destino que me espera, talvez mais do que do caminho. Volto para trás quando está escuro, quando és instável, quando me assustas. E só desisto quando me deixas.
Sempre tive a mania que sabia tudo. Que era independente e só eu escolheria o que quero. Que rumo tomar, que experiências viver. Trocaste-me o saber e as voltas, viraste o mundo do avesso e agora encontro-me de pernas para o ar, com o sangue a subir-me à cabeça, entre gritos e agonias.
Mas sei que sempre chegas, quente e saboroso, apetecível e ternurento. Pronto para me pôr no lugar, para me voltares a jogar ao ar novamente. Apetece-me voltar para trás, só porque me assustas. Porque me cativas. Porque eu já gosto de ti.
Porque me apareces afinal?



Água do bongo


Cara de sono. De facto, com um sorriso de quem acabou de entornar a água do bongo na placa de som. Um dia, torno irremediável a escolha da data em que vou. Entretanto, arrasto o meu corpo, até ao doutor, porque o meu frasco acabou. Frios suores, poros disparam vapor. Horas depois, para aliviar o ardor no peito, eu escrevo. Mas mãos tremem sem parar, ao compor imagens extraídas da parte de trás do meu topo. À frente, uma cara de poucos amigos que não percebem que não estou para conversas sem termos de conversar antes sobre isso. Uma cara de poucos amigos, independentemente do número. Funcionam todos à base de avisos, eu não me resumo num. Eu sumo-me. Façam rolar esse tapete de alcatrão na minha frente, como se fosse a passar o carro da Google. Eu nunca espreitei o mapa. Fedelhos pedem conselhos, numa de partilha e comunhão com as massas. Desamparem-me a loja. Esta é para a corja que prega os meus momentos medíocres, como se tudo em que toco se tornasse magnífico – É esse o espírito. Hei-de morrer pobre pela minha obra. Assim por alto, até agora, devo ter ganho, sei lá, um cêntimo por hora. Eu preferia acabar num lar. Não, eu preferia doar um rim. Não, a sério, eu preferia afogar o meu primogénito num alguidar do que vê-lo a crescer até se tornar um básico – Pela morte, serás exemplo. Eles que façam de ti um mártir.

No que toca à quantidade de dígitos, estou convencido que o meu saldo negativo ultrapassa o teu positivo. Além disso, acredito que, só com vinho, já me embebedei mais sozinho que tu com os teus amigos. Quando escrevo, escorre quente o veneno que me corre dentro. Este é o meu adeus precoce. A minha laia morre cedo. Nervoso? Só sempre. Corto rente laços. Falo “Fêmea, um dia volto, mas hoje ainda não pode ser”. Pé na tábua. Eu não preciso de nada. Escrevo estas letras com a mesma caneta com que desenho a capa. Trancado no quarto, quando calço luvas de borracha, recorto letras de revistas e envio anónimas cartas de ódio às ex-namoradas. Elas sabem o que aqui se gasta. Não tenho jeito com nomes, sou péssimo com datas, porque adoro fumar bêbado. Há cinco anos em casa mas moral altíssima, numa de “eu nunca voltei da estrada”. A vida não presta. Só ira resta. Temo não alcançar os quarenta. Não há tempo para dormir a sesta. Desculpem-me se não ando de corno preso à testa com um com elástico, a peidar borboletas. Eu vejo além das tretas.

Holocene






Ajeitas o cabelo com ar manhoso de quem não se importa com os olhares fugazes de quem desdenha. Sei que sabes que estou aqui a decorar-te os traços, permaneço inquietamente quieto, para ver o que vais fazer a seguir. Não me prestas atenção, nunca prestaste. E quem seria eu se desistisse de te despir de pudores e preconceitos e fazer-te conhecer o mundo nú e cru que se nos apresenta. E tens tanto para conhecer...

Reparo na maneira como mordiscas os lábios quando pensas no vazio que te enrola os dias... És tão ingenuamente tentadora que seria mais pecado ainda não te desejar. Cruzas os braços como quem espera pelo dia amanhacer, sem dores incessantes, apenas apatia espelhada em todas as atitudes e movimentos. Pára com isso, deixa-te de merdas. Que eu desistir não sou capaz, mas perder a paciência é certeza mais que certa. Não me faças ir aí, pára de pedi-lo subtilmente, eu sei que não vais gostar. Porque sei que preferes a acalmia dos dias apáticos, a previsão antecipada de atitudes, a terapia do "já sei o que vou fazer hoje" ao invés do tormento do desconhecido, da imprevisibilidade momentânea de atitudes alheias, de quedas aéreas sem saber em que chão pisas. Eu não desisto. De te olhar, apenas. Porque conheço cada traço teu apenas com o fogo da minha imaginação, e, em pensamentos, tu já te mostraste em toda a tua plenitude.

Mas não me faças perder a paciência. Deixa-me olhar incessantemente, enquanto posso. Vestir-te com o meu toque, dormir nos teus lábios. Se eu me perder, que seja em melancolia. Não em perda. Porque se perco o que ainda não é meu, é a queda aérea sem chão que tu me dás. E eu ainda não sei voar...

Hoje vou dormir a pensar em ti. Vou perder a paciência contigo, vou aí. Vou agarrar-te. Fazer-te minha. E o resto... fica apenas para depois.

Só um adeus não chega.

Fechei a janela com medo que entre mais frio esta noite. A casa está silenciosa e sinto-me surda de tanto gritar comigo mesma. A solidão tolda-me os olhos e não consigo evitar uma lágrima que escorre incessantemente por todo o meu rosto. Toca-me nos lábios e não resisto a lambê-la. Recostei-me no sofá e olho para o sítio em que costumavas estar todos os dias, ali, sentada. Sempre sentada. 
Não sei se estou a sentir as saudades multiplicadas por dias perdidos sem ti ou se é porque, nestes dias natalícios, não tenho ouvido a tua voz. Dobro as pernas contra o peito com receio que ele se parta em mil pedaços e me destrua o resto que falta. Em mim, e em ti. Anda fraco e a precisar de um abraço. Estou a sentir a tua pele enrugada e vivida, lisa como a de um bebé mas com tantas histórias marcadas, vincadas. Ouço os teus soluços, acompanham os meus. Sinto a tua falta. Só mais um dia, penso eu, este é um dia qualquer. Nunca fui de demonstrar sentimentos, nunca abraço a minha família e os meus beijos são castos e secos. Dava todos os dias que vivi sem ti em troca de um último toque. De uma única forma de te encontrar novamente. 
De uma maneira qualquer de dizer que te amo. Sempre. Porque como inocente pecadora, deixei-te ir embora sem dizer o que sinto. E tu nunca mais voltaste.  E todas as noites eu peço que voltes. Foi só mais um dia, volto eu a convencer-me. Levanto-me e encontro o teu lenço preferido, sinto o teu cheiro, ou penso, apenas. Enxugo as lágrimas e esqueço que afinal, de tantos dias que passaram, ainda ontem te ouvia a ralhar comigo por deixar a sala cheia de migalhas. Sinto a tua falta. É só mais um natal. Um entre tantos que não passei contigo. Entre os que irei passar sem ti. Arrasto-me até à cama, enrolo-me nas mantas e sinto uma pequena brisa no rosto, um toque suave, como a pele de um bebé. Amo-te, sussurro em surdina, na esperança de que me possas ouvir só mais uma vez. 

Até amanhã. Feliz Natal avó, olha por mim aí de cima e não hesites em me mostrar o caminho quando teimar em me perder.

Delírios




Dedilhas os meus anseios enquanto fechas os olhos e tentas menosprezar aquilo que sentes. Sei que te afogo os prantos em águas quentes, de maneira a que não sintas o gelo que é ser tu. Descobri que foges de todas as tuas teorias manhosas de racionar tudo aquilo que é emocionante e que te privas de provar o quão bom é a vida. Tudo isso porque te escondes atrás de palavras feitas e de orgulhos hediondos. Porquê? Se no tanto que há para viver, tu escolhes não morrer de maneira deleitosa. Sei que me tocas porque me desejas mas não me desejas a teu lado para não te ver nessa mágoa fugaz. Eu não tenho medo das tuas dores. Desfaço-me nas curvas apertadas dos teus pensamentos e agradeces-me por ainda te sentires vivo. Não sei que pensar porque deixei os meus pensamentos a prazo, numa conta só tua, perdi-lhes o direito. Chega-te para cá, encosta a tua cabeça no meu peito e chora tudo aquilo que tens a chorar. Eu também tenho medo. Mas usa-me só mais um bocadinho, para te sentires vivo. Para eu me sentir útil. 
Para nos vivermos um ao outro. 

Hetero-avaliação

 'Ainda agora te conheci, mais parece que me despeço, despi-me de tamanha timidez nem sequer liguei ao resto, teu traço pintado parece uma simples tela, não sei se foi Picasso ou se és feita de canela, morena que me aquece a alma fria, só de te olhar sei que sabes fazer magia. Agarras-me e roubas-me a inspiração, não sou de desistir, não faças confusão. Dividimos o céu, o ar e a cama a meias, tu que me tornas teu sem ligar a merdas alheias. Que ao relento tudo é natural bem mais perfeito, beijo os teus lábios carnudos e sei que gostas desse jeito, sinto a tua pele arrepiada faz faísca no corpo, não sei se é o mais certo mas sei que de certeza não é torto, tou pronto para futuro. Uma vida a dois, três ou quatro quem sabe, quero filhos contigo. Uma vida feliz. 
Por favor, dá-me.'

: ft, o mais pequeno.

Discórdia




Puxo-te mais para dentro de mim, mesmo estando tu a dormir que nem um anjo sem passado, a meu lado. Deixo os meus dedos tocarem todos os milímetros incandescentes do teu corpo e sinto o tremor subir-me pelas entranhas. Hmm.
Peco tanto em pensamentos que chamar-me-iam de puta, se mos lessem.
Ligo o candeeiro preto que comprei na feira quando fomos passar o fim-de-semana ao norte, preciso ver as horas. 

Já passam das 5 da madrugada, está um vento devastador na rua e eu não consigo desviar o meu olhar de ti. Tão quente. Espinhas de sol entranhadas na minha mente. Ardes-me e nem te apercebes.
Não te dei parte fraca até hoje e, contendo uma ou outra lágrima teimosa e invulgar que me nada nos olhos, levanto-me e vou à janela ver o tempo passar. Os cães estão a ladrar e sinto a brisa noturna penetrar-me de tal maneira nos pulmões que me sinto cheia. Há tanto tempo que não me sentia cheia.
Reparo na tristeza de um homem que por ali vagueia, na incerteza do seu trajeto e propósito. Vi-me ali. Tocas-me. Vim-me ali. Passeias as tuas mãos pelos meus seios redondos e prendes-me em ti, cheio de fome e tesão. Se não te chego ao coração pelo menos que te chegue o meu corpo. Deixo-me levar até à cama mas deixei o pensamento naquele homem sem propósito, que chutara uma lata em frente à minha janela, enquanto a agonia lhe colhia as expressões. 

Chama-me, egoísta e narcisista até, mas chama-me. E continua-me a chamar.
Quem me garante que daqui a dez anos ainda me elogias?

Diagnosticado.

Levantei-me à pouco, calcei os chinelos desbotados e fiquei sentada na sala a olhar para as paredes vazias. A casa está sem cor e sem calor, de lar não tem nada e doce muito menos. Pego na caneca cheia de corações que me ofereceste no natal passado, e apetece-me multiplicá-la para que te sinta neste natal. Novamente. Tento abstrair-me um bocado da melancolia avassaladora e fria que me arrebata ultimamente. Só reparo que estou sozinha porque estou sozinha. Passo os dias rodeada de pessoas vazias e sei que o que me preenchia eras tu. O ser humano é exímio em conseguir distrações nas situações adversas mas eu já cansei o coração e mais importante ainda, a minha cabeça. Esgotaram-se as opções e por isso resta-me apenas contemplar o vácuo. O café está quente e por segundos fecho os olhos. Como é possível uma pessoa aguentar tamanhas perdas? Não que se morra de amor e muito menos pela falta dele, mas o que fica quando já não fica mais nada? Nada. É isso que faz toda a diferença. Já nada me aquece, já nada me move. Acordo apática dia após dia, sem sentir emoções relativamente a nada. Não ligo a tv porque não aguento ouvir pessoas a falarem, não ouço música com medo que alguma me recorde das tuas gargalhadas. Não tenho fotografias nas paredes porque não quero ir buscar o nosso álbum. Acendo cigarro atrás de cigarro. Um fantasma teria mais vida nesta casa do que eu, que consigo estar mais vazia do que ela. Não me apetece sequer chorar. Passou a fase da revolta desesperada, do sentimento de injustiça seguido da culpa. A tentativa falhada de reverter as coisas. O ir atrás. O dar para trás. O chorar compulsivamente e as promessas de que não verteria mais nenhuma lágrima. Isso tudo passou porque não há mais nada para se passar. Porque as portas fecharam-se e eu não as quero abrir. Vou à janela, espreito de fininho. Ainda te consigo ver passar por aqui, parece-me que olhas duas vezes para a porta e reparas que não tenho regado as plantas, sinto-me culpada. Dou um último bafo no cigarro, jogo a ponta pela janela e escorrego pela parede abaixo. Não sei pelo que espero. Não sei o que te quero. 
Vem-me buscar. 

Segunda estrela à direita, sempre em frente até ao próximo amanhecer. 

Folheei-te.

Tenho os pés frios. Chove torrencialmente e eu estou sentada à lareira enquanto fumo um último cigarro. Estes dias trazem-me mais necessidades e ultimamente são mais que muitas. Enquanto decido mentalmente se pego no livro ou não, reparo na equidade de valores. Só não me agarro mais a ele porque não quero acabar de o ler. É tão delicioso porque ainda não lhe conheço o final e é isso que me desperta o desejo. A chuva continua a bater na janela e eu nem preciso de uma música melancólica para começar a divagar. Que tédio. Não gostei muito das primeiras páginas mas forçei-me a ler, porque ele veio parar-me às mãos por acaso e na vida os acasos não existem. Nem reparei na capa, cheio de desenhos entalados em palavras, sem nexo titular, não lhe entendi os nomes e só passei à frente. Os prefácios deixam-me enjoada, a sério, enjoada. Uma enxurrada de palavras bonitas enfeitadas com metáforas e elogios escondidos para captar o leitor, pois a mim só me deixa a pensar em que tenho que acender mais um cigarro. Mas foda-se, como tenho gostado do livro. E a cada página a mais é uma página a menos. Vou saboreando cada eloquência frásica, cada detalhe esfarrapado e inconsequentemente mal-entendido. Sabes porque é que gosto tanto de livros? Porque no meio de tanto mundo que existe, eu posso criar o meu. As personagens são minhas, a historia é minha e eu sinto que a cada livro lido conheço o meu final. Mas nunca é o meu final, porque a cada livro acabado segue-se mais um dia. E cada dia a mais é um dia a menos. Foda-se, tenho os pés tão frios e não resisto a calar este barulho incessante da chuva, talvez escolha uma música clássica, porque não? O momento está mesmo a pedir e se me meto em merdas românticas sei que me desfaço em lágrimas e já me chega o céu em prantos. Hmm, que melodia catastrófica. Agora reparo. Dou mais um bafo, os cigarros são poucos e estão a morrer no cinzeiro. Estaria eu só a falar dos livros? Estaria também a falar de ti? E será por isso que não me entrego como deveria? Porque, inconscientemente ou talvez não, saiba que assim que te acabar de ler, vais para a prateleira e nunca mais te pego. O desejo de te folhear agora é enorme porque não te sei o futuro, não sei o fim. E se quando te acabar de ler, descobrir que não eras o meu fim que procuro e que afinal existe mais um livro? Mais um dia? E cada dia a mais, é um dia a menos. 

Desisto. Deito o cigarro pela janela e molho a minha mão. Que frio que está. Desligo a aparelhagem e vou dormir. O livro fica para amanhã, ou para depois. Não. Pego no livro e sem ver as palavras, arranco as últimas dez páginas e jogo para a lareira. Se não me encerram os dias pelo menos que me aqueçam os pés. Por enquanto fico satisfeita só por imaginar três mil fins diferentes. Sei que não me vou desiludir porque afinal, o fim vai ser o que eu escolher, sem perder dias a fio a imaginar o que poderia ter sido e não foi. Porque a cada dia a mais... É um dia a menos e eu quero saborear o que me resta pela frente.