blindness

“There are poisons that blind you, and poisons that open your eyes.”





São sete passos da minha cama à porta do quarto. Quarenta e dois até à sala. Mais nove e uma volta de 180º para me pôr a jeito de desfalecer no puff. Tudo de luz apagada e sem a batota de arrastar os dedos pela parede.

Minto às pessoas quando me dizem que tenho uma letra feia e desalinhada. Digo que sempre foi assim e que não tenho jeito nenhum para a escrita nem tampouco para o desenho. Sei desenhar uma casa com um tecto torto e um "sol" que nem Sol se parece. Se tivesse que dizer a verdade diriam que estaria a mentir, porque, na verdade, escrevo às escuras. Sempre escrevi. E dói-me os olhos e os ossos da mão direita quando o faço na claridade.
Acabei por decorar os trajectos que me são inerentes, inalei-os juntamente com o fumo de tabaco que me rodeia todos os dias e sinto-me mais humano a cada passo que dou nesta casa perdida. Sem retorno. Eu sei retornar se for preciso, é só voltar atrás, usar as técnicas que fui aprendendo e deitar-me novamente na cama. Mas eu preciso disto: preciso saber que ainda consigo percorrer o caminho de olhos fechados, preciso de agarrar na caneta já quase gasta e de rabiscar o que me alivia o intelecto. Sim, sempre fiquei um pouco embaraçado a cada vez que me criticaram a caligrafia, mas e o que sabem eles?
Sou um corpo de pele às escuras. Semi-vestido, semi-destapado, com a ventoinha a arrepiar-me a nuca. Sou corpo de faixas paralelas projectadas pela luz do Sol a queimar os estores. Vincadas nas minhas pernas, fazem jus às tantas calças que visto amarrotadas. O que eles não sabem é que sou corpo algum. Que nenhum corvo ronda um corpo digno de o ser. Serei eu? Sabem lá eles... Viciados em luz, corpos claros.
Perdem o que existe de mais enigmático por teimarem em encontrar a claridade a cada passo dado. Gosto de saber que no escuro só me sabem ver as falácias e as lacunas, que nunca me encontram sem fecharem os olhos. Eu fecho os meus e é aí que me encontro. Talvez seja essa a minha diferença, conheço-me melhor no silêncio da noite, quando agarro num pedaço de papel e rabisco o que há de mais vazio em mim. Se eu fingir por um momento que abro os olhos sou igual a tantos outros que critico. Como podem dizer que é na escuridão que reside o mal se é tão bom viver sem luz?
Onde preencho cada poro, descubro cada aresta do meu corpo utópico. Quem lhes dera ter um pouco da sabedoria que a minha caneta noctívaga me transmite.
A essência de ser não reside em saber ser. Eu sei-lo desta forma porque os lençóis que contornam o meu corpo sonolento assim o permitem. Esta cama nua, vestida de mim e este corpo nu, nu de saber como saber ser. Aqui, encontro-me quando não quero e quando quero, não me encontro. Cansam-se de me encontrar quando não quero ser encontrado e quando quero, estão a borrifar-se. Soubessem eles o quão bem me sinto nu, numa cama nua. Na minha cama, nua de tudo. De mim, de ti, deles, delas e de todas as coisas. Soubessem eles o quão nu me sinto aqui... Soubesse eu despir-me deste bloco de notas como me dispo a mim.
Mas eu não sei. E por isso todos os dias acabo por me afogar mais um bocadinho em cada gota de suor nervoso que me escorre pela testa enquanto tento descobrir o porquê de não me teres encontrado ainda. Seria fácil, penso eu. Ou então não. Porque se só me encontram quando eu não quero ser encontrado, o que farei eu a este desejo desenfreado de que me encontres? Se me dispo de mim, porque não me consegues ver? Fechasses tu os olhos por um segundo e eu encontraria a luz de que tantos falam...
Se conheço todas as paredes que me rodeiam sem a batota de deslizar os meus dedos nelas, poderei eu trocar todos os toques renunciados e percorrer as curvas do teu corpo para te conhecer de olhos fechados?
Escrever pensamentos lascivos no contorno dos teus lábios suaves. Despir-me de mim para me vestir com a tua pele sedosa. Encontrar-me em ti.
Diz-me, o que te falta para fechares os olhos de uma vez por todas?


com a co-autoria de André Santos - http://afmsantos.blogspot.pt/

dá corda

~ even a broken clock is right twice a day ~



Eu jamais teria chegado onde cheguei se só andasse em linha reta. Tive que voltar atrás, andar em círculos, perder dias, perder o rumo, perder a paciência e desaparecer em tentativas aparentemente inúteis para encontrar um quase endereço, uma provável ponte: a entrada do encontro. Acertei o caminho não porque segui as setas, mas porque desrespeitei todas as placas de aviso. Se tivesse seguido o suposto, se caminhasse sempre com as mesmas pessoas a meu lado, se agarrasse sempre na mesma mão eu não conheceria nada para além do que já conhecia quando estava na linha de partida. Não tinha cortado a meta a tempo e teria desistido a meio do caminho porque sim, porque é aborrecido correr atrás de algo que já se tem. Eu costumo voltar atrás porque não tenho compromisso com o erro. Porque ele não me deve nada e eu consigo mandá-lo embora se assim o quiser. Nós só aceitamos aquilo que nos é permitido. E temos que, veementemente, ignorar tudo aquilo que nos atrasa a vida. Mas nunca - nunca mesmo - ter medo de dar um passo atrás. Porque voltar atrás é melhor do que perder-se no caminho.

É impossível mudar aquilo que foi feito, seguir em frente é arriscado mas deixar tudo como está, é uma enorme covardia para quem quer alcançar os louros da própria honra. Às vezes é preciso arriscar-se em algo que seja verdadeiramente importante na nossa vida. Ganhar ou não, é do jogo. Sendo assim, se eu tiver que perder algo por que(m) tenha muito apreço, só por acreditar nos meus sonhos e nas minhas convicções, que eu perca tudo, então. Ainda que eu me sinta intimidada pelo medo de mudar tudo na minha vida, quero vestir-me de coragem e armar-me de ousadia para enfrentar todos os obstáculos perfilados à minha frente. Se eu insistir em exigir mais de mim mesma, é para que um dia eu não me lamente por não ter tido coragem de romper os meus limites e me aventurar por onde eu ainda não estive.

E se tivesses a oportunidade de voltar atrás? Consertar o erro, mudar o destino. O que fazias? Repetias tudo? Deixavas as coisas como estão? Não fazias nada?
E se pudesses parar no tempo, pararias em qual momento?
Eu repetia tudo. Mesmo tendo cometido erros, acertos, sofrimentos, apegos. Mesmo que naquele exato momento eu desejasse não voltar a lembrar-me disso. Digo mais, se eu pudesse voltar no tempo, não só faria tudo de novo, como aproveitaria mais cada momento que tive. Independente de ter sido certo ou não. Tentaria não cometer os mesmos erros que cometi, e tentaria não deixar que cometessem erros comigo. Mas já que não podemos voltar no tempo, resolvi deixar o tempo e o destino dizerem-me o que vai acontecer. Prefiro não me importar.

Armadura ;

À medida que crescemos, somos forçados a experienciar aquilo que nos faz crescer; torna-se uma bola de neve irremediavelmente pesada para nós próprios. Uma situação de reação-ação que acaba por ser uma capicua literal. Vai sempre dar tudo ao mesmo: quer erremos ou acertemos, acabamos por crescer. O problema reside exatamente quando descobrimos que não nos é possível crescer mais. Nem mais um bocadinho. É quando parte de nós quer voltar atrás e a outra parte pede incessantemente que não nos percamos mais no passado. É quando temos que mostrar ao mundo o quão crescidos estamos, que tudo correu como planeado ou então que somos um protótipo falhado, um gasto de energia. Uma perda de tempo. É só nisso que nos fixamos quando não nos pedem nada mais que isso: provas. Testes. São-nos apresentadas situações-limite, casos de vida ou de morte, em que o mais acertado seria morrer; mas queremos tanto ter um bocadinho mais de vida. Nem que seja para provar isso a nós mesmos. Nem que seja para calar alguém. Acabamos tão apagados que uma mínima luz acaba por nos encandear. Tira-nos a visão. Acaba com o futuro perfeitamente planeado porque nem sempre conseguimos controlar tudo o que existe à nossa volta. Tornamo-nos uma espécie de robot automatizado, mais que programado para corresponder às expectativas alheias, porque se os outros nos virem felizes, nós estamos felizes (?). Afinal, crescer é isso. É aprender até que ponto podemos tornar-nos impenetráveis. É saber exatamente quando desmoronar. Com quem desmoronar. Não é qualquer pessoa que terá esse privilégio: ver-nos crescidos. 
Todos os dias vejo adultos que ainda não cresceram. Vejo pessoas chorarem com alma e rancor.. Assisto a separações, admiro beijos. Invejo abraços. Reparo em olhares, pressinto toques. Contemplo sorrisos. Acabo por constatar que afinal, é tão mais vantajoso crescer do que ser crescido... E no meio dessa constatação, vou rezando aos céus para que, quando chegar a minha hora, quando for o momento de me assumir como uma pessoa crescida, que tenha um porto seguro. Onde possa deixar de ser quem sou. Porque ninguém sabe viver consigo mesmo por muito tempo. Eventualmente acabamos por enlouquecer de tanta sobriedade, e é tão difícil mantermo-nos sãos neste mundo de loucos. Porque sei que precisarei de um lugar onde possa ser louca. Preciso de um sítio onde me tirem a roupa e me toquem na alma. Que me cubram de esperança e me envolvam em compreensão. Um cantinho onde eu possa voltar a crescer só mais um bocadinho, que me acrescente, que me evolua. Um quartinho em que eu possa pensar que só preciso de ser crescida da porta para fora, que só os outros precisam de ver que sou impenetrável. Que não choro. Que não sofro. Que não sinto. Amor. Dor. Raiva. Angústia. Eu preciso da minha bolha. 

Eu preciso de uma pessoa que seja esse lugar. 

"Most people don't grow up. Most people age. They find parking spaces, honor their credit cards, get married, have children, and call that maturity. What that is, is aging."


love no less worthy



“...as long as nothing happens between them, the memory is cursed with what hasn't happened.”



Às vezes deito a cabeça na almofada e esboço um sorriso seco e melancólico. Sabe-me bem saber que ainda me lembro de ti quando o mundo está a pesar-me nas costas e que ainda consegues ser o meu porto de abrigo. Mesmo que não o saibas. Não é que seja impossível; convenhamos, nem toda a gente que sai das nossas vidas nos deixa um gosto doce na boca. Aliás, uma grande porção desses seres é bem capaz de nos pesar ainda mais do que o mundo nas costas, e não há cama nem almofada que nos salve. É por isso que a maioria das vezes nos forçamos a sair de casa e deixamos as chaves num poço sem fundo, porque voltar para o sítio que conhecemos nos dói mais do que sair em busca do desconhecido e de um conforto alheio. É exatamente o que se sente quando as pessoas já não nos acrescentam nada, que apenas nos passam os dias e, na sua incompetente consciência, nos sufocam tanto que o ar parece que só lhes pertence: que só elas sabem, que só elas querem, que só elas desejam, que só elas amam. E acabam por ser tão elas que não nos deixam sermos nós. E dói tanto deixarmos de ser nós próprios para deixarmos os outros serem eles mesmos... Mesmo que seja com as melhores intenções do mundo. No entanto, é realmente inevitável deixarmo-nos entrelaçar nesses nós, como se de uma música inebriante se tratasse e não conseguíssemos impedir o nosso pé de trautear a canção.
Felizmente não és um caso desses. A tua saída foi subtil e concedida pelo futuro que nos chegou depressa demais. Ninguém apressou a sua vinda, mas o facto é que com a chegada dele, foi ditada a tua partida. Deixaste um sabor doce na minha boca quando partiste e, às vezes, quando parece que tudo o que me rodeia é negro e triste, ainda te ouço mandar risadas na minha cabeça e parece que sinto as tuas mãos alcançarem as minhas. Sabes-me tão bem.
É quando me lembro de ti que os meus olhos se iluminam, que sinto um alívio no peso da minha consciência, que os meus dias se moldam às horas e que as horas se moldam exactamente ao tempo em que passas a dormir que nem um anjo inocente no meu pensamento. Eu só te acordo quando preciso. Forço-me todos os dias para me lembrar de todos os teus mil sorrisos, de todas as maneiras que me soubeste olhar. De todas as vezes em que soubeste dedicar-me cada estrela no céu e principalmente, de todos os beijos que me ofereceste. No fundo não é difícil; a nossa mente possui um filtro de memórias e, conscientemente, sabemos e conseguimos guardar o que nos faz bem e o que nos acrescenta. Tu, que já me deste tanto e eu só te retribuo cada vez que preciso que me dês um pouco mais. Mesmo que não o saibas. Mesmo que adormecido. Eu acordo-te sempre que preciso dormir e embalas o meu sono como nunca ninguém o soube fazer. Funcionas como uma anestesia, ou melhor ainda, és o meu sedativo pessoal. Tu foste embora da minha vida mas deixaste aquilo que há de mais bonito: as memórias.
Por agora, isso chega-me para aguentar só mais um dia.

E tu?

Ainda te lembras de mim?

the unforgiven

Durante muito tempo tentei que as coisas mudassem. Fiz mil discursos, queixei-me, incentivei, sem nunca ver mudança alguma. Tinha os meus momentos de desesperança, mas depois levantava a cabeça e estava novamente pronta para tentar. Mais uma vez ouvia as desculpas e promessas que eu já conhecia, mas acreditava sempre. Só assim eu teria forças para continuar a sonhar e a suportar o facto de não estar a ser como eu sempre sonhara. Mas as palavras gastaram-se, a espera excedeu-se e eu em vez de olhar para fora, como sempre tinha feito, olhei para dentro. Exigi de mim, dominei a parte mais indominável de mim mesma, controlei a maneira de ser intempestiva, impulsiva, deixei de parte as exigências e as palavras que eram tantas vezes fonte de problemas. Senti-me bem, senti que tinha cumprido a minha missão, e mais uma vez pensei que a partir dali seria sempre a melhorar. Não foi. Como se costuma dizer "quando um não quer, dois não dançam", e só eu estava a querer dançar. Na verdade, também querias, mas querias dançar sem música. Mas onde é que já se viu dançar sem música? Mais uma vez ouvi promessas, mas descobri que tinha perdido a capacidade de acreditar, e por isso também tinha deixado de sonhar. No lugar dos sonhos ficou a angustia de não saber mais o que fazer, de querer mas não puder. Falta-me a coragem, sabedoria e paciência para enfrentar tudo de cabeça levantada. Falta-me coragem para ser feliz.

still inside you ~

Nunca me avisaram sobre o que vinha aí.  Acabaram todos por se alhear e corresponder ao esperado; esqueceram-se de que também preciso que esperem por mim. Ninguém me disse o que era querer voltar atrás, porque é que ninguém me explicou que a dor é efémera e duplamente vingativa? Eu não me culpo, nem sei se deveria sequer pensar nisso. Acabei de desligar as luzes e de acender um cigarro que me deixa morrer um pouco mais. Eu não escolhi isto, ninguém pediu a minha opinião, ninguém quis saber se eu aceitava este marasmo em que me encontro todos os dias. E quando se quebra o silêncio, sei que sou eu que estou a ficar surda de tanto gritar comigo mesma. Arranquem-me deste fardo invisível que carrego. Eu juro que voltava atrás só para poder agarrar-me um pouco mais. Porque eu deixo-me cair de propósito na esperança que doa menos. Troco os pés, invento tonturas, finjo desmaios. Eu só quero que doa menos. Estiquei os braços para que me agarrasses mas recolhi-os quando tentaste fazê-lo. Que pessoa cobarde é esta em que me tornei? Que vive de arrependimentos angustiantes e de alívios momentâneos? À força de não querer sofrer acabo por despedaçar um pouco mais de mim. Porque quando se abre uma ferida não há nada que possa ser feito. Todos os curativos são em vão: a dor é experienciada e, eventualmente, as cicatrizes acabam por durar uma vida inteira. E há ainda quem se encarregue de lhe por o dedo, de carregar na dor, de dizer: eu bem te avisei. E dói sempre um pouco mais. O mal das pessoas frias é pensar que o calor não as aquece. Que a mínima chama é inconcebível aos nossos olhos. Que, por mais que se queira, não conseguimos aceitar o quão acolhedor é sentir que nos querem oferecer um pouco mais de conforto. Porque não merecemos. O que fizemos nós por isso? Jogámo-nos ao chão de cabeça e acabámos por partir. O coração. Ou o que existe no seu lugar. Habituamo-nos a olhar duas vezes para alguém só para termos a certeza de que não vale a pena confiar e acabamos por ser nós a tornarmo-nos seres merecedores de desconfiança. De deixar para trás. Porque não queremos ser ajudados. E no entanto, desejamos tanto ter uma mão amiga para agarrar... 
Para nos levantar do chão. 
Eu sou tão nociva para mim mesma que acabo por destruir tudo à minha volta. Há pessoas que nascem com certos dons. Há quem saiba perdoar. Há quem saiba dar a mão a quem mais precisa. Há quem tenha jeito para cantar, dançar e até escrever. Eu, com o passar do tempo, descobri que ser vazia é o meu talento. Porque quanto menos temos para oferecer, menos nos cobram... E eu já não tenho nada para dar a ninguém. 

amo-te, e daí?




Eventualmente com o passar do tempo, aprendemos que as palavras não passam de apenas letras solitárias e melancólicas que se agruparam apenas para nos favorecer. É tão mais fácil conseguir comunicar com alguém que não entende o que o silêncio lhes diz. A meu ver, e pouco crente que me tornei, avaliamos demasiado aquilo que dizem em detrimento daquilo que nos tentam demonstrar. Mesmo que seja o contrário. Mesmo que no nosso íntimo, saibamos que não era bem aquilo que queríamos ouvir. Ou que queriam dizer. Ou que queríamos dizer. Vejo tanta gente colocar pontos finais no meio de frases sem sentido que me faz questionar se realmente as palavras valem aquilo que as fazemos valer. Especificamente, não entendo realmente o porquê de valorizarem tanto um "amo-te". Porquê? Porque não acreditam na veracidade do momento? Só se ama para sempre? Quem disse? Quem demonstrou? Quem fez decreto-lei para além do que nos passa no coração e principalmente na cabeça? Só podemos amar se soubermos que é para sempre. E por julgarmos que é sempre e para sempre é que amamos sem que nos avisem que o prazo de validade expira. Todos os prazos expiram. Não seria demasiado utópico acharmos que tudo o que amamos dura para sempre e que amarmos é para sempre? Quem diz que o amor não morre? Há amores pequenos, aqueles amores intensos que nos fazem acreditar que o momento é perpétuo, incrivelmente perfeito. Não seríamos demasiado hipócritas se não achássemos que a pessoa que amamos não muda e, consequentemente, o amor que existe? Quantas pessoas amamos na vida? Melhor ainda, quantas pessoas já amámos na vida? Pessoas que na altura, não nos veríamos sem. Porque era inconcebível imaginar um único segundo sem a presença dessa pessoa na nossa vida. E, no entanto, continuamos a amar, à distância, em silencio, em esquecimento. Porque ela realmente saiu da nossa vida. Ou fomos nós que a mandámos embora. Mas nas memórias que existem ainda há os tais momentos em que amámos tanto e tão bem que sabe amar só uns momentos a mais. Se me disserem que agora já não amam alguém eu acredito. Ou então não. Porque no fundo eu confio no que sinto, e acredito piamente que afinal, os amores não morrem. Transformam-se e ganham outra palavra. Era tão mais fácil se olhássemos para alguém e pensássemos "és tu. escolho amar-te porque amar é para sempre e parece-me que é contigo que quero passar o resto da minha vida". Seria demasiado alheia a tudo se julgasse que os amores de adolescência não existem uma vez que uma pequena minoria prevalece ao longo do tempo. Mas não é por isso que deixa de ser amor. Existem tantos amores para viver. Porque não é amor. É um sentimento pleno, sincero, sem termos nem nomes, e quem for capaz de o mencionar está erroneamente certo. Porque é isso que é suposto. Dizer que amamos alguém. Porque é o que essa pessoa quer ouvir. Porque gostamos dela, porque gosta de nós. E principalmente porque no momento em que amamos o futuro é previamente delineado de tal maneira a que não exista mais ninguém. A que ninguém mude. A que não existam caminhos diferentes e escolhas difíceis. Com objetivos semelhantes. Mas nunca é assim.
O futuro é tão escuro quanto o céu noturno que nos sobrevoa durante os sonhos. Existe sempre mais alguém. Não estamos sozinhos no mundo. E todos nós mudamos também, crescemos, amadurecemos. Vivemos, experienciamos. Há mil e um caminhos diferentes a percorrer e o quão bom é saber que podemos dar um passo atrás para sermos um bocadinho mais felizes. E cada caminho é traçado pelo objetivo que temos. Quem são vocês para dizer que têm apenas um objetivo na vida e que esse objetivo é imutável? Teríamos que ignorar o que queríamos ser ou ter enquanto crianças. Quantos de nós mudaram de ideias sobre a pessoa que queríamos ser quando fôssemos adultos? Não temos também o direito de mudar de ideias em relação ao que sentimos? Não confundamos; contra mim falo se disser que não importa os sofrimentos e a dor sentida no momento da escolha, do erro, das decisões precipitadas e das palavras proferidas momentaneamente e sobrevalorizadas. Existem mais 7 biliões de pessoas no mundo. Como sabemos nós que o amor que sentimos agora não pode ser ultrapassado em plenitude e perpetuidade? Mas nós nunca sabemos. E acabamos por amar só o que conhecemos. Uma e outra vez. Com desilusões amorosas, com corações partidos. Magoamos e somos magoados porque sim, porque amamos e deixamos de amar. Porque amámos e não fomos amados. Só acho que não devia haver juramentos de veracidade nem sinceridade. Porque eu não critico quem diz que ama. Nem gosto que me critiquem quando digo que amo. Muito menos que o refutem. Nunca fui de meias palavras nem de enganos propositados. 
Acredito sim que podemos amar. Que devemos amar e mais importante ainda, que devemos dizê-lo. Como? Da maneira que melhor entenderem. Com um amo-te precipitado e espontâneo ou com um gosto muito de ti acanhado. Um abraço sincero ou um beijo de cortar a respiração. Afinal, é para sempre até deixar de ser. E não precisamos de palavras para descrever isso.  

É que o amor é cego e por vezes também é mudo


warmness of the soul



Hoje tento ficar aqueles 5 minutos preciosos a mais na cama. Só hoje, quero aquecer o resto que me acompanha. A quem devo eu explicações do quanto me definho entre os lençóis castos e virgens, cheios de desejos e vazios? Peguei numa chávena de chá cheia de leite gelado, na tentativa de assassinar o meu cérebro com hipotermia, e deixei-me arrastar nos chinelos gastos que me ofereceste, há 4 anos atrás, até ao meu caixão. Antes de ti. Deixei a janela aberta para que não estranhassem o meu silêncio, no intuito de me destruir o casulo, e acabo por me dobrar em posição fetal, porque, como a minha imaginação é tão poderosa quanto a ua ausência, sei que agarro o que resta do meu peito, para que não se desfaça em pedaços, para que não se percam as peças do meu puzzle. Se não tocares agora à campainha eu juro que não saio daqui até ao fim. Basta apenas isso, não quero desculpas nem arrependimentos, muito menos compaixão. Deixa as flores e os chocolates no lixo ou então dá a quem dá valor. Esquece-te da serenata, não tragas carro e não avises ninguém. Eu sei que se te pedisse, não virias, já te conheço tão bem quanto a palma da minha mão, sei que só fazes o que eu não quero e foi por isso que partiste tão cedo.
Desta vez, promete que vens. E eu prometo que vai ser tudo diferente. Prometo que não te vou sorrir novamente, nem vou achar piada ao teu constrangimento e olhar doce e meigo. Não me vais levar a ver o pôr-do-sol na praia enquanto me tocas a tua música preferida na guitarra. Ela está aqui mas eu cortei-lhe as cordas, só por precaução. Não quero que me ofereças as rosas brancas que tanto te pedi nem quero um cachorro, porque já me deste um. E ele sofre tanto quanto eu. Deste-lhe um nome e aposto que a ti, ele ainda chama de herói no seu latir triste e melancólico, porque conhecia as nossas rotinas e tem medo que eu vá embora também, cada vez que me vê 5 minutos a mais, quieta. Mais quieta. Promete-me que não vens com pressa, que não planeias o futuro e promete-me que não vais começar a olhar para os bebés alheios com olhos de futuro-pai
embevecido. É só o que mais te peço, porque te pedi o contrário antes e não mo conseguiste dar. Diz só que não vais insistir para trazer a tua mota, nem carro, diz-me só que vens em segurança, que não te perdes na estrada, que não aceitas boleia de estranhos, que, desta vez, por favor, chegas inteiro até mim.
Toca à campainha ou então agarra na chave que, por hábito, me ensinaste a esconder debaixo do tapete da entrada, porque pensavas que os ladrões achariam demasiado óbvio e tu acharias a chave facilmente, quando eu te faltasse para abrir a porta. Promete-me que fazes isso, que acabas com este intervalo de espaço no meu coração, que vais entrar e, em silêncio total, me trazes uma chávena de leite frio até à cama, enquanto o cão te lambe os pés e chora de alegria, porque sabe que vais passar estes 5 minutos comigo.
Aprendi que, na vida, não importa as circunstâncias muito menos os motivos, só o acaso acontece, o relativo, o aleatório. Calhou-me a mim ficar sem ti, cedo demais. E que mais poderei eu fazer senão tentar descobrir maneiras de te manter presente no meu dia, viver o presente que me é dado, enquanto sei que, no fundo, tu estás aqui. Nas paredes da casa. No cão. Nos meus lençóis. No silêncio da noite e na agitação da manhã. Em mim.
Cativaste um lugar na cronologia do meu tempo e no meu tempo permaneceste até eu descobrir que o leite gelado me deixa anestesiada e que os 5 minutos de descanso acrescido me concedem um alívio por apenas... 5 minutos. E era só isso que precisava, hoje.

Beauty and beast

Vamos directos ao assunto: Ando, vai para cima de uma vida, para mandar uma babe  ir cagar à mata.

 

Darling, eu estou em todo o lado onde cospes frases de amor ao meu rapaz, por isso não finjas que não sabes que te estou a ver e, pior ainda, não faças cenas tristes à espera que eu veja, só com o objectivo de me irritar. Eu já estou irritada.

No entanto, ando aqui a aguentar-me. Vê bem como sou boazinha. Nem vou fingir e dizer que não é por ti que estou armada em senhora polida, e que é por ele. E que ele merece que eu seja uma senhora e não ligue a constantes bombardeamentos teus. Sou-te sincera: Ando a aguentar-me por ti, mesmo! Para não te dar força nem esse prazer de me veres incomodada, que eu também sou mulher e sei como as coisas funcionam. Era a tua alegria veres-me encavada.


Eu sei que, se te for foder a cabeça, tu vais ter o que queres: vais ter toda a atenção e a toda a certeza de que eu ando a ver o esfreganço pélvico virtual que andas a fazer no meu rapaz e a ficar minada com isso.

Como és porcalhona mas não deves ser totalmente parva, deves saber que eu, efectivamente, vejo a masturbação psicológica que lhe andas a fazer. Sim, eu vejo e tu sabes. E eu sei que tu sabes que eu vejo. Só não tens a certeza, nem como o provar, e eu também não te vou dar essa vitória.

Não te vou dar o prazer de te descompor em público, de te mandar mensagens ressabiadas, nem de ir armar peixeirada aí para essa aldeia de fim de mundo onde tu achas que és gente.

Vou-me manter aqui na minha.

Fingir-me de invisível. Como os ninjas, 'tás a ver?

E depois faço toda uma série de exercícios de concentração.

Rezo umas caralhadas em voz alta antes de me deitar.


Evito ir ao mural do rapaz durante o dia para não estragar o monitor com mais golpes de x-acto nos teus olhinhos.


Imagino-te dez vezes ao dia leprosa, com a vagina ressequida como uma rolha de cortiça, míope, com cáries nos dentes e o cabelo a cair.


Mas também tenho pensamentos bons e desejo que arranjes uma pila amiga só para ti.


E peço aos anjinhos todos para não fazeres a mínima ideia que escrevo por aqui, para não ficares com o pito aos saltos por eu estar a fazer uma cena e por estar, claramente, fora de mim com a merda que andas a fazer.

 

Minha querida amiga, até podes continuar a querer ter o meu rapaz como troféu (eu sei como é: quando eles arranjam outra é quando mais os queremos. Por exercício. Por provocação) mas não tentes é fazer-me desaparecer quando eu estou aqui bem vivinha, a ver o espectáculo a acontecer, o acidente a dar-se e a pouca-vergonha a crescer.

Lembra-te: Ninja!

Sou como um ninja. Apareço e desapareço sem dares por isso mas estou mais perto de ti do que tu pensas. Pronta a ninjar.


Sim, minha querida, eu estou aqui e estou-te a ver. Estou com um olho nos acontecimentos e com dois olhos em ti... e faz bem as contas e vê que outro olho pode estar vigilante, que eu gosto pouco de marmeladas feitas pelas costas.

Lost shoe





Ultimamente tem sido difícil desapegar-me do marasmo que me esconde os sentidos. Demasiado rodeada de pessoas vazias, num tempo só meu. Estou tão na merda que nem eu me quero encontrar. Eu sei que conseguiria deixar estes empecilhos para trás, só preciso de uma força, maior que eu, sem mim a pensar. Tive as minhas equimoses, não me falharam as dores, os entorses. Muito menos os cabelos arrancados naquelas brincadeiras em que tínhamos que apanhar alguém. Apanhei-me foi a mim, aproveitei e joguei no lixo porque pensei que não precisava de mais. Nem mais.

Não sei mais nem porquê, porque não me contaram, porque não quis saber sequer, e agora dei conta que afinal, enquanto visto umas meias para me proteger do frio, talvez precise de alguém que me acolha nas noites geladas. Mas eu não consigo admitir, não sei agarrar-me com firmeza, bloqueio a minha mente e recolho as minhas intenções, talvez eu esteja acabada, talvez só me falte assumir, que ela me leve, só me falta que aquela puta me beije os lábios num beijo casto e me entregue de vez. A quem não sei. Eu gostava de trocar, virar as tuas pupilas ao contrário e arrancá-las de uma só vez, para que vejas com os meus olhos, para que eu coma os teus enquanto me transformo em ti. Era simples, vamos trocar os sapatos, eu faço o teu caminho e tu recusas o meu. Nós precisamos ver a merda de mundo que o outro vê, é sempre mais fácil guiar os outros do que aprender a seguir um rumo próprio. Só que entretanto não podemos deixar que nos digam que estamos fodidos, porque não é verdade, estamos só a ver que afinal, existe um umbigo triste para além do nosso e muitas vezes é preciso mais do que uma palmadinha nas costas para aprendermos a levantar a cabeça outra vez. Depois acordo e vejo que para além do quarto em que vivo, todos me olham de alto a baixo, como se já não fosse eu, como se tivesse perdido o senso de humor, vão todos para o caralho, que a graça eu não perdi. Antes fosse, eu ainda me sei rir da desgraça alheia. Dizem que pareço um bocado louca, descompensada, eu não procuro atenção, eu evito olhar nos olhos para não dizerem que me encontro possuída, doente até, só queria ser como tu, fundir-me com a mobília da sala e pedir só e apenas um lugar de repouso quando as pernas me cansarem.
No fundo, nós nem precisamos de trocar os sapatos, a minha doença cura-se com ouvidos, sem olhares, só um pouco de tempo, ninguém precisa de caminhar para lugar nenhum à busca de uma cura que se encontra na cabeça de qualquer um. Não pediste à vida para tratar essas merdas que nem se tratam? Cala-te. Temos que pegar nas cartas que estão em cima da mesa e sermos nós a dá-las, não esperem ajuda. Eu tenho duas hipóteses. Sento-me na varanda com um cigarro a morrer-me nos lábios enquanto me lamento pelo quão a vida me foi madrasta e no desejo de a matar, enquanto rezo e peço a Deus por um pai que nunca veio, por uma mãe que se lembre que ainda estou aqui. Eu podia aceitar a situação em que me encontro, esperar que as coisas se resolvem por milagre divino dum Deus que nunca viu a merda em que estou, eu nunca fui pessoa de correr atrás, de ficar de malas na mão em frente a uma porta que sei que nunca será aberta. Sempre quis ser o ser mais fantástico, gozar com a cara dessas putas que gozavam com as calças rasgadas que eu usava, em 3ª mão, porque não havia dinheiro para mais e eu nunca fui de manias. Eu só queria rebentar a cara a essas pessoas que me olhavam de lado porque a minha mãe era uma drogada e o meu pai me rejeitou antes de eu nascer, tal era a merda que aí vinha.
Eu contive-me, mordi a língua mil vezes e mil vezes engoli o meu próprio veneno, porque me diziam que menina bonita não dizia asneiras nem se portava mal, era pecado. Pecado é ser algo que não consigo.
É, eu realmente estou doente e estragada, tu estás sem olhos porque tos comi, acho que no fundo o que nós precisamos é mudar de rumo. Escolher um novo caminho. Trocar os sapatos para percorrer mil quilómetros e fugir desta merda. Eu já tenho a sola gasta e perdi os cordões.

Calço o 38 e tu?

Walking Disaster

Ando a agarrar-me à réstia dos meus neurónios só para não virar uma demente ébria. Não sei o que farei quando perder os sentidos novamente, se os perder, que os encontres dentro de ti, não os deixes fugir. Sentidos sentido a tempo inteiro, sentes que me deixas? Sinto muito. Só pedia mais um bocado de demência insana, profundamente tortuosa, sabe-me tão bem ficar louca. Só por mais uns momentos. Se voltares, prometo que te deixo novamente. Deixo-te aqui, dentro de mim, a torceres-me veias e artérias, se morrer que me leves contigo. Pouco me importa. Não me revolto de arrependimento da inocência perdida, alguma vez a tive? Rio-me ingenuinamente, eu nem sei o que te dizer. Não te cruzes comigo, roubaram-me a língua e a eloquência, deixei de saber as palavras de cor, mecanizadas num processo contínuo de respostas feitas previamente. Elevei-me tanto que me deixei cair em tentações e que bem que sabe. Tentadoramente perspicaz, insano, tão doente quanto eu, quem és tu afinal? Que me tens e não sabes, que me olhas e não vês. Que me falas sem dizer nada. Só pedia mais um bocadinho. Uma réstia de toques, de sabores. Deixa-me saborear os teus nervos e entranhas, viver dentro de ti porque só essa morte me falta. 
Ainda não esqueci que te quero, apenas não me lembro mais.

misunderstood





Nunca me conheci por ser impetuosa, quiçá, decidida.

Raramente me deixo controlar pelas minhas escolhas; escolhem-me elas a mim.
Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Eu acho sempre que é melhor interromper o processo a meio: quando se conhece o fim, quando começamos a achar que o desfecho é inevitável, quando se sabe que doerá muito mais -para quê ir em frente? Não há sentido: é muito melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, um lenço esquecido numa gaveta, uma camisola jogada na cadeira, uma fotografia, um beijo – qualquer coisa que depois de muito tempo nós possamos olhar e sorrir, mesmo sem saber o porquê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero, cruel, doloroso e saudosista como um tempo perdido. Prefiro viver a ilusão do quase, quando estou "quase" certa que se desistir naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu "quase" tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não correr da melhor maneira, que pode não ser da maneira que eu queria que fosse, eu acabo sempre por jogar tudo para o ar, sem medo que caia em cima de mim, porque sei que, no fundo, poderia sempre ser pior. Prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo e com o consolo que realmente deu certo enquanto resultou, do que com a certeza de ter acabado em dor. Diria ser covardia, medo, insegurança. Talvez, não nego tais acusações próprias.
Sei perfeitamente que algumas vezes -quase sempre- fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia muito menos mentira. É verdade. Acabo por ser tão neuroticamente individualista que, quando me aparece um resquício de alguém que possa parecer uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheia de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes demasiada até.
Porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras tão certas como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Continuamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como "não resistirei" por algo muito mais realista, como "sei que vai passar". É sempre desta maneira que seguimos em frente, e é inegável o facto de que, além de ser o mais eficiente, é também o mais cómodo, porque não implica decisões, apenas paciência.
 E no fundo eu sei que não sou para todos. Gosto muito do meu mundo e ele de mim, à sua maneira. Cheio de surpresas, palavras soltas e cores misturadas. Às vezes tem um céu azul, outras tempestade. Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos. Mas não cabe muita gente. Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso. São necessárias.
Todavia, preciso acabar com este medo de ser tocada lá no fundo.

Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.

Prevaricação mental ;





Olhas para as roupas espalhadas pelo chão, têm ar de estar tão usadas quanto o prato em que comes todos os dias. Não sabes se deves arrumar a casa, visitas nem vê-las e sinceramente, sabes que não terás nenhumas enquanto te mantiveres enclausurada nessa bolha em que teimas conjugar o verbo viver. Viver não é assim, deixa-me que te diga, rapariga. 
Entre um cigarro e outro, acabas por alegrar um pouco as quatro paredes que te rodeiam com um jazz comercial demais, tentando trautear a canção em forma de abstinência pensativa só porque sim, porque fazer o vulgar às vezes é bom e sabe bem. 
Vejo-te cerrar os olhos enquanto te debruças à janela para ver as pessoas passar, tão cheias de si, com ar intocável e impenetrante, como se cada uma delas se achasse a única pessoa do mundo, acima de todas as outras. Acabas por soltar uma gargalhada - ah como é bom sentir que finalmente encontraste um resquício de alegria embriagada, tão espontânea que te assustas e páras por momentos, sem saber se foste tu ou eu, que não me vês mas imaginas. Soubessem elas que afinal és tu maior que todo o mundo na tua pequena altivez, consequentemente mundo que te chamas a ti própria. Deixaste as roupas no chão, cheias de cheiros e toques, ainda não estás preparada para deitar fora tudo o que resta, pensas tu. Não agora, na solidão dos teus encantos e receios, em que te sentes aprisionadamente confortável e sei que, no fundo, gritas em silêncio todos os dias, estando surda de te ouvir queixar. Reclamar. Seja lá o que for. 
O pior já passou, ambos sabemos disso. A melancolia do adeus, a desgraça que ceifou o brilho dos teus olhos cor de avelã que outrora tanto encantaram, o desespero que tomou conta dos teus dias, ansiando só por saber que afinal estava tudo bem, não passara de um sonho. E a cada vez que acordavas, pedias para acordar realmente, porque o cansaço de pedir a Deus não te deixava forças para mais. Tu, que de religiosa nada tens, viste-te forçada a pedir mesmo a quem sabes que nada tem para te oferecer, mas um pouco de motivação e embalo, mais que não seja fictício, é sempre necessário para nos mantermos sóbrios e inoculamente sãos. 
Sei que te ris sobretudo por isso. Porque no final só te resta rir, ir lavar a loiça que já se acumula há semanas porque sabes que vais acabar por não ter sítio onde colocar a comida plastificada que teimas em comer, mesmo sabendo que a cada dia te tornas mais desgraçadamente estragada. Coitadas dessas pessoas. Que se entreolham como se não se conhecessem e no fundo, todas elas sabem que não há merda nenhuma no mundo que não nos aconteça a todos. 
A dor de perder alguém que nos é imprescindível é tão comum que te surpreende que ninguém tenha inventado uma cura que se venda em frasquinhos, na mercearia ao virar da esquina. Era só rezar para que o sr. Julio te fizesse um preço de amigo, e pronto. Estava tudo resolvido. 
Mas não, temos que andar a martelar nas merdas dias a fio, choros inconsoláveis, gritos mudos, pancadaria mental. 
Que se lixe, pensas. Que se lixem todos os que pensam que não se consegue. Que não existe o dia de amanhã. Que apesar de tudo, morremos um pouco a cada pouco que passa. 
Tu sabes, descobriste que os dias afinal acontecem estejas morta ou viva, ou morta-viva, que os instantes que podem não contar nada para ti, que passaste em angústia, foram os melhores da vida de alguém. Que a cada minuto que sonhavas pôr termo ao teu destino, um destino novo era traçado a um novo ser que nascia. Sabes que morreu muito de ti, mas o resto que não sofreu a morte, tornou-se mais forte. Ou pelo menos, indiferente. Apático. Será assim tão grave? Pelo menos conseguiste. Correste mil mundos para chegar ao teu, a ti, que alienamente sofres de engenhos peculiares, as doenças que ainda não têm nome ainda te corroem mas que se foda, dizes tu. Pelo menos estás aqui e aprendeste. Que na vida, seja ela qual e de quem for, seja rico ou pobre; com um grande círculo de amizades ou apenas um gato para fazer companhia, a maior dor que existe é a saudade de ainda poder dizer "adeus, até amanhã". É saber que, chega sempre um dia em que o amanhã não existe. E quando esse amanhã não vem, sabemos sempre que o amanhã de alguém é melhor que o teu. Que se arrasta nos minutos, nas horas. Nos dias. Um atrás do outro, tic-tac. Não perdes tempo porque estás perdida nele, sem ambições nem anseios brutais. Quando deixamos de poder dizer "até amanhã" é quando o que nos espera deixa de estar lá. Acabamos por perceber que o que deveria estar certo, por habituação ou mesmo por gosto e vontade, nos deixa. Ou deixamos nós.
Que há amores que se vão embora, há uma mãe que nos abandona, há um gato que foge de casa. E que tal fugirmos nós também?
Fechas a janela, já chega de ver a hipocrisia desfilar pelas ruas como se fosse dona e senhora do teu bairro, da tua cidade, do teu país, do teu mundo sujo. 
Olhas duas vezes para a roupa que tinhas voltado a colocar no chão e sabes o que tens a fazer. Tiras um saco da gaveta empanada e esmurrada de tantos pontapés e resolves deitar fora os cheiros e os toques intensos sobre os quais elas estão impregnadas. No fundo, nunca é tarde, nunca é impossível até conseguirmos ter a capacidade de ultrapassar tudo. Não há maior força no mundo do que a vontade de viver. 

E amanhã pode ser tarde demais


Casos notáveis





Falei-te em segredo e foi um segredo só nosso que ficou guardado em tudo o que pudéssemos ter dito em silêncio. Fiquei-me pelas meias palavras medidas em gestos castos, guardei os tesouros e entreguei-tos em mão, e nas tuas mãos eles ficaram até que te cansasses de os segurar. Rias na minha cara como criança que és, nunca soube se de mim ou para mim e na incógnita fiquei, esperançosa de que um dia me esclarecesses e mo desses de volta, nos teus lábios perfeitamente doces. Se pudesse agarrava-te e arrancava-te os dentes um por um, com um alicate feito de aço, como o coração que conseguiste destruir e de seguida cortava os teus dedos, um por um, representando quantas vezes eu chorei em silêncio só por um gesto teu, que me demonstrasses os tesouros que te pedi para guardar; nunca os vi. Ficaste com eles. 

Isto sou eu a sonhar, melancolicamente arrependida de sequer pensar que seria capaz de tamanha crueldade, eu, que de vil tenho o ar e nada mais que um pouco do coração que me resta.
Eu sei que se devolvesses o sorriso que te dei há tanto tempo atrás, guarda-lo-ia, inconscientemente, de volta no baú das memórias boas, que mantenho ainda hoje no móvel do quarto. Onde guardo todo o ódio que te tenho, a raiva dos dias perdidos e contados, das palavras mal-ditas (?) que me segredaste tantas vezes e eu não quis ouvir. Mas ouvi. Ouvi mil vezes e de mil vezes fiz o esquecimento rei, enquanto me embrenhava no calor do teu corpo sem querer saber o que pensavas de mim.

As mulheres têm o dom de não querer ver aquilo que não aceitam e pior ainda, não compreendem. De se deleitar com o que lhes agrada. E quem gostar, gosta na sua plenitude, ama os defeitos e ignora as qualidades para evitar ilusões travadas no olhar. E esse olhar doce;  se não fosse o teu jeito de menino ingénuo, eu diria que de jogador tens muito e de Homem nada. 
Aguardo o dia em que resolvas devolver os tesouros que ainda seguras em mãos, alheias quiçá, ou guardados em cima da tua secretária onde tantas vezes deixei a mala quando cheguei a casa e que agora já nem se deve lembrar do meu cheiro. Que os devolvas e que lhes acrescentes tudo aquilo que lhes roubaste. Que não foi pouco. Que não foi muito. Foi só algo que não se substitui nem é compensado.
Aguardo também o dia em que consiga alhear-me de todos os segredos que em segredo te contei e que deixe de contar todos os silêncios que passámos juntos enquanto dormias. Aguardo.

Porque do amor ao ódio é um passo. E eu estou pronta a seguir caminho.

Tapete vermelho.





Chegas a insultar o meu discernimento fugaz; ludibrias o teu ser com a minha capacidade pragmática e racional de ver as coisas, afinal, para quê serem dois a pensar sobre o mesmo assunto? Sou capaz de esmíuçar o mais ínfimo pormenor e tu sabe-lo.

Que fujo quando os problemas me assombram porque melhor que viver longe deles, é viver sem saber que correm desenfreados atrás de mim, e tu só os ajudas a apanharem-me desprevenida, dizes que não. Tu só dizes que não, que o teu íman não os afecta de maneira alguma, ingenuamente falando, és criança inocente que imagina ter o doce na mão enquanto ele derrete no asfalto quente.
Serás tu cego, que não vês a desgraça em que te afogas? Que te consome as ideias e o juízo, me suga as energias e nos entrega ao monstro voraz que é o cansaço. Arrancas carne e alma por algo que sabes que, em válido segredo, não existe por mutualidade. E o que não existe, ainda, não se muda, não se transforma. Vive em inexistência por um período supérfluo e paralelamente utópico enquanto nos enganamos porque sim, porque é melhor e não dói tanto.
Reflito em silêncio sobre toda a sanidade mental que me falta e concluo que sou uma louca desvairada, daquelas que arranca cabelos e rasga as roupas. Sou capaz até de me colocar em frente a um comboio com a (in)feliz ideia no pensamento de que não morro, porque nem essa morte me falta. Mas se reflito sobre a tua doença vejo que és incapaz de ser como seu, que vives num mundo sem reacção, apático. Nem te atreves sequer a pensar em rasgar as roupas, porque são muito caras, ou então porque a nudez te deixa tímido, tão púdico que és.
Posso ser bastante demente no que toca a decisões e escolhas que acabo por tomar, mas se escolho é porque coragem não me falta, radicalismo muito menos. Segurávamos ambos algo que já estava caído no chão, junto com o teu doce, no asfalto quente, e mantinhas um sorriso amarelo e seco nos lábios enquanto eu gritava aos sete ventos. Que o deixaste cair. Que não te mexias. Que estavas a morar no mundo que pintaste sozinho e nos teus segredos mais profundos.

Esticaste a corda e ela partiu.
Quem serei eu para lhe dar o nó que lhe falta, se o que mais nos falta agora são os laços?