Hetero-avaliação

 'Ainda agora te conheci, mais parece que me despeço, despi-me de tamanha timidez nem sequer liguei ao resto, teu traço pintado parece uma simples tela, não sei se foi Picasso ou se és feita de canela, morena que me aquece a alma fria, só de te olhar sei que sabes fazer magia. Agarras-me e roubas-me a inspiração, não sou de desistir, não faças confusão. Dividimos o céu, o ar e a cama a meias, tu que me tornas teu sem ligar a merdas alheias. Que ao relento tudo é natural bem mais perfeito, beijo os teus lábios carnudos e sei que gostas desse jeito, sinto a tua pele arrepiada faz faísca no corpo, não sei se é o mais certo mas sei que de certeza não é torto, tou pronto para futuro. Uma vida a dois, três ou quatro quem sabe, quero filhos contigo. Uma vida feliz. 
Por favor, dá-me.'

: ft, o mais pequeno.

Discórdia




Puxo-te mais para dentro de mim, mesmo estando tu a dormir que nem um anjo sem passado, a meu lado. Deixo os meus dedos tocarem todos os milímetros incandescentes do teu corpo e sinto o tremor subir-me pelas entranhas. Hmm.
Peco tanto em pensamentos que chamar-me-iam de puta, se mos lessem.
Ligo o candeeiro preto que comprei na feira quando fomos passar o fim-de-semana ao norte, preciso ver as horas. 

Já passam das 5 da madrugada, está um vento devastador na rua e eu não consigo desviar o meu olhar de ti. Tão quente. Espinhas de sol entranhadas na minha mente. Ardes-me e nem te apercebes.
Não te dei parte fraca até hoje e, contendo uma ou outra lágrima teimosa e invulgar que me nada nos olhos, levanto-me e vou à janela ver o tempo passar. Os cães estão a ladrar e sinto a brisa noturna penetrar-me de tal maneira nos pulmões que me sinto cheia. Há tanto tempo que não me sentia cheia.
Reparo na tristeza de um homem que por ali vagueia, na incerteza do seu trajeto e propósito. Vi-me ali. Tocas-me. Vim-me ali. Passeias as tuas mãos pelos meus seios redondos e prendes-me em ti, cheio de fome e tesão. Se não te chego ao coração pelo menos que te chegue o meu corpo. Deixo-me levar até à cama mas deixei o pensamento naquele homem sem propósito, que chutara uma lata em frente à minha janela, enquanto a agonia lhe colhia as expressões. 

Chama-me, egoísta e narcisista até, mas chama-me. E continua-me a chamar.
Quem me garante que daqui a dez anos ainda me elogias?

Diagnosticado.

Levantei-me à pouco, calcei os chinelos desbotados e fiquei sentada na sala a olhar para as paredes vazias. A casa está sem cor e sem calor, de lar não tem nada e doce muito menos. Pego na caneca cheia de corações que me ofereceste no natal passado, e apetece-me multiplicá-la para que te sinta neste natal. Novamente. Tento abstrair-me um bocado da melancolia avassaladora e fria que me arrebata ultimamente. Só reparo que estou sozinha porque estou sozinha. Passo os dias rodeada de pessoas vazias e sei que o que me preenchia eras tu. O ser humano é exímio em conseguir distrações nas situações adversas mas eu já cansei o coração e mais importante ainda, a minha cabeça. Esgotaram-se as opções e por isso resta-me apenas contemplar o vácuo. O café está quente e por segundos fecho os olhos. Como é possível uma pessoa aguentar tamanhas perdas? Não que se morra de amor e muito menos pela falta dele, mas o que fica quando já não fica mais nada? Nada. É isso que faz toda a diferença. Já nada me aquece, já nada me move. Acordo apática dia após dia, sem sentir emoções relativamente a nada. Não ligo a tv porque não aguento ouvir pessoas a falarem, não ouço música com medo que alguma me recorde das tuas gargalhadas. Não tenho fotografias nas paredes porque não quero ir buscar o nosso álbum. Acendo cigarro atrás de cigarro. Um fantasma teria mais vida nesta casa do que eu, que consigo estar mais vazia do que ela. Não me apetece sequer chorar. Passou a fase da revolta desesperada, do sentimento de injustiça seguido da culpa. A tentativa falhada de reverter as coisas. O ir atrás. O dar para trás. O chorar compulsivamente e as promessas de que não verteria mais nenhuma lágrima. Isso tudo passou porque não há mais nada para se passar. Porque as portas fecharam-se e eu não as quero abrir. Vou à janela, espreito de fininho. Ainda te consigo ver passar por aqui, parece-me que olhas duas vezes para a porta e reparas que não tenho regado as plantas, sinto-me culpada. Dou um último bafo no cigarro, jogo a ponta pela janela e escorrego pela parede abaixo. Não sei pelo que espero. Não sei o que te quero. 
Vem-me buscar. 

Segunda estrela à direita, sempre em frente até ao próximo amanhecer. 

Folheei-te.

Tenho os pés frios. Chove torrencialmente e eu estou sentada à lareira enquanto fumo um último cigarro. Estes dias trazem-me mais necessidades e ultimamente são mais que muitas. Enquanto decido mentalmente se pego no livro ou não, reparo na equidade de valores. Só não me agarro mais a ele porque não quero acabar de o ler. É tão delicioso porque ainda não lhe conheço o final e é isso que me desperta o desejo. A chuva continua a bater na janela e eu nem preciso de uma música melancólica para começar a divagar. Que tédio. Não gostei muito das primeiras páginas mas forçei-me a ler, porque ele veio parar-me às mãos por acaso e na vida os acasos não existem. Nem reparei na capa, cheio de desenhos entalados em palavras, sem nexo titular, não lhe entendi os nomes e só passei à frente. Os prefácios deixam-me enjoada, a sério, enjoada. Uma enxurrada de palavras bonitas enfeitadas com metáforas e elogios escondidos para captar o leitor, pois a mim só me deixa a pensar em que tenho que acender mais um cigarro. Mas foda-se, como tenho gostado do livro. E a cada página a mais é uma página a menos. Vou saboreando cada eloquência frásica, cada detalhe esfarrapado e inconsequentemente mal-entendido. Sabes porque é que gosto tanto de livros? Porque no meio de tanto mundo que existe, eu posso criar o meu. As personagens são minhas, a historia é minha e eu sinto que a cada livro lido conheço o meu final. Mas nunca é o meu final, porque a cada livro acabado segue-se mais um dia. E cada dia a mais é um dia a menos. Foda-se, tenho os pés tão frios e não resisto a calar este barulho incessante da chuva, talvez escolha uma música clássica, porque não? O momento está mesmo a pedir e se me meto em merdas românticas sei que me desfaço em lágrimas e já me chega o céu em prantos. Hmm, que melodia catastrófica. Agora reparo. Dou mais um bafo, os cigarros são poucos e estão a morrer no cinzeiro. Estaria eu só a falar dos livros? Estaria também a falar de ti? E será por isso que não me entrego como deveria? Porque, inconscientemente ou talvez não, saiba que assim que te acabar de ler, vais para a prateleira e nunca mais te pego. O desejo de te folhear agora é enorme porque não te sei o futuro, não sei o fim. E se quando te acabar de ler, descobrir que não eras o meu fim que procuro e que afinal existe mais um livro? Mais um dia? E cada dia a mais, é um dia a menos. 

Desisto. Deito o cigarro pela janela e molho a minha mão. Que frio que está. Desligo a aparelhagem e vou dormir. O livro fica para amanhã, ou para depois. Não. Pego no livro e sem ver as palavras, arranco as últimas dez páginas e jogo para a lareira. Se não me encerram os dias pelo menos que me aqueçam os pés. Por enquanto fico satisfeita só por imaginar três mil fins diferentes. Sei que não me vou desiludir porque afinal, o fim vai ser o que eu escolher, sem perder dias a fio a imaginar o que poderia ter sido e não foi. Porque a cada dia a mais... É um dia a menos e eu quero saborear o que me resta pela frente.

Amor a prazo.

Estou a ver-te. Agora olhaste para mim e sorriste. Como eu adoro todos os teus sorrisos. Tu, de lábios cheios e dentes traçados de personalidade, ficas ainda mais lindo a sorrir. Voltas a olhar para o computador. Está tarde e estás cansado.  Mas essa necessidade louca de te preencheres com o que achas que deves está a matar-nos os dias. Queria que viesses para a cama porque está frio e eu preciso de ti. A cama continua por desfazer do teu lado há três dias, são três noites em que não te sinto a dormir a meu lado. Continuo a olhar para ti porque não me canso, nunca pensei sequer em cansar-me. Amo-te como se te tivesse descoberto agora.
Volto para o quarto e tento dormir enquanto sou assombrada por um filme à antiga, cheio de pormenores, detalhes da nossa história. E tantos episódios soltos, tal e qual cartas espalhadas sobre a mesa. 

A primeira vez que nos vimos e o abraço que me deste. Seguraste o meu mundo por 30 segundos e fiquei feliz porque foste a primeira pessoa que não o deixou cair. Porque foste a única pessoa a dizer que eu só tinha falta de um abraço para resolver todos os tormentos que existiam dentro de mim. Curaste-me mil.

O teu ar de criança a jogar em frente ao computador. Ainda hoje tens essa mania, esse hábito e necessidade que te mantém tão atraente. Se soubesses o quão sexy ficas de boxers a discutir para um monitor. E tantas as vezes que me deixaste sozinha para "matar o vício". 

A primeira vez que cozinhei para ti. Senti-me mais tua mãe do que tua namorada e foi aí que percebi que seriam teus, os meus filhos. 

Os passeios à beira-mar e as juras de amor eterno.

O cheiro característico da casa dos teus pais.

O mau feitio da tua avó que nunca me suportou. Ainda hoje não suporta.

Está frio e ainda não vieste para a cama. Sei o que se passa. Preparo-te um café bem forte, da cor dos meus olhos. Um mimo nunca fez mal a ninguém e sei que estás a precisar. Eu também estou. Mas não tenho quem mo faça então volto para a cama tal e qual como vim. Vestida apenas com a tua t-shirt e chinelos de enfiar o dedo, que ridícula que sou, a morrer de frio e enrolada numa manta só para não perder a oportunidade de sentir o teu cheiro, nem que seja através de um  pedaço de tecido.

Só não fico triste por mim porque estou demasiado triste por ti. Porque sei que não me amas tanto como querias amar e porque o cansaço se apoderou de ti. Não és cobarde, és o meu herói. Preferes lutar para amar do que fugir de quem te ama. Não há esforço mais bonito no mundo do que aquele que se faz por quem se ama. Ou se quer amar. Já me deste tanto que seria hipocrisia minha tentar forçar-te a mais e por isso tento atenuar a tua confusão momentânea com cafés e beijos na testa, enquanto olho o máximo de tempo possível para ti, porque sei que cada olhar que trocamos poderá ser o último. 






Estou-te a ver. E tu olhaste para mim e sorriste. Mas esse sorriso... Não me lembro de alguma vez o ter visto. Deve ser o teu sorriso melancólico. E continuas lindo, tantos anos depois. O tempo só conseguiu apurar o teu jeito eterno de criança. Cabelo grisalho e roupas amarrotadas de quem não conseguiu arranjar paciência para as passar a ferro. Ainda tens as sapatilhas que te ofereci, passados 13 anos. Estão rotas e desbotadas tal como tu. Essa barba de três dias consegue tornar-te ainda mais sensual, como nunca pensei que pudesses sê-lo. Quero falar-te mas não sei bem o que dizer. Que tive saudades? Que lamento não ter aguentado a pressão de ver-te definhar entre quatro paredes? Que noto o teu ar cansado da vida e de quem precisa de companhia? Que te amei ao longo de todos estes anos? Que estou magoada por te ter perdido? Por não ter sido capaz de te fazer amar-me? Continuas a olhar para mim.  Peço um café fraco. Sempre lidei mal com a cafeína mas continuo a cometer o erro de a consumir. Peço um segundo café. Forte e bem escuro, da cor dos meus olhos e mando também um bilhete, em segredo.
Reparo que trazes o relógio verde que te dei pelo aniversário e apercebo-me de que afinal, sempre fui a dona do teu tempo. Que se calhar fui embora cedo demais e tu reparaste, tarde demais, que tinhas deixado a oportunidade fugir. Que nos desencontrámos ao mesmo tempo e no mesmo sítio. Que estávamos bem e mudámo-nos para não sei onde. Olho mais uma vez para ti e espero que a empregada te entregue o papel, tal como lhe pedi. Continuas lindo. Guardo uma última imagem, pego na minha mala e vou embora. O caminho é longo mas eu já o conheço. Faço-me à estrada e reparo que um passarinho me alegra o trajeto. Sorrio. 
Como poderei eu fartar-me de ver em ti o que há de melhor em mim? Amo-te como se te tivesse descoberto agora. 

Continuas o mesmo, não sei se é bom ou mau. Sei apenas que o meu coração quis saltar do peito quando te vi e que fui invadida por mil borboletas inquietas quando me sorriste. Acasos do destino ou não, agradeço por este momento. Sabe bem poder atualizar a imagem que tenho dentro de mim, cresceste tanto desde que me fui embora. És um grande homem e sempre to disse. Alguém me disse que às vezes o adeus é a segunda oportunidade. Este reencontro pode ser uma terceira? Sabes onde me encontrar. É só me seguires. Se quando olhar para trás, tiveres a olhar para mim, saberei que me amas como se me tivesses descoberto agora. Se não tiveres... Bem... Então isto foi uma maneira boa de relembrar o quanto ainda te amo. Deixo-te um café forte e escuro, da cor dos meus olhos para nunca te esqueceres que eles sempre foram teus. Até já. 


Fui agarrada num turbilhão de abraços. Voltou a agarrar o meu mundo, jogou-o ao ar e não o deixou cair; novamente. Acabou de me curar mais um tormento. Afinal nem tudo tem prazo de validade... Amor.

Ainda tenho que dizer que te amo.



Até hoje, das coisas que mais lamento foi não ter seguido o teu percurso. Se me concedessem um desejo seria ser uma espécie de estrela-guia. Não para te orientar, não que precisasses. Tu, minha mulher de armas, ensinar-me-ias muito mais do que pudeste fazer. Seguraste-me ao colo inúmeras vezes, seguraste-me o mundo e seguraste a alma. Espero que a tua esteja a meu lado, neste momento. Nunca te poderei prestar a homenagem que o teu ser merece, nunca poderei dizer a ninguém o que foste, quem tu foste, eu não sei encontar a palavra certa e muito menos a definição. Ainda oiço a tua voz límpida e segura que nunca pude ouvir. Ainda te oiço contar histórias que nunca me contaste. Nunca me levaste à escola num dia de chuva. Nunca pude chegar a casa e ter o lanche quentinho e suculento à minha espera, como só uma avó sabe fazer. Nunca me acordaste para irmos à missa ao domingo, nunca me disseste "eu bem te avisei, meu amor" quando tive o meu primeiro desgosto amoroso. Nunca me avisaste dos amigos mascarados, nunca me pudeste limpar as lágrimas quando me doeu o coração.

Se me dessem a escolher, escolheria ter nascido mais cedo. Queria ver-te forte, sorridente e determinada. Queria conhecer a vitória que somava vitórias. Queria saber quem foste, personagem das histórias da família, que sem ti não se escreveriam em memória alguma.

E as memórias que tenho são imensas, apesar de tudo. Sempre te olhei com amor. Sempre fui contigo apanhar sol quando estava um dia lindo lá fora. O teu peso era mais do que o teu ser, tu e essa coisa com rodas e um assento sempre me acompanharam. Eu tratei de ti como tu deverias ter tratado de mim. A vida inverteu-nos a ordem do crescimento e da maturação.

Nunca tive vergonha de dizer que te limpei as lágrimas. Quando te sentias inútil e sem sentido. Quando te lembravas do que já foste e no que te tornaras. Nunca foste um fardo que tive que carregar. E o orgulho que tenho em dizer que me levantava todas as manhãs para te fazer o pequeno-almoço. Que assistia contigo à missa na televisão, e te via rezar para que Deus te levasse embora mais cedo. Que te fazia rir com as minhas piadas, e que tu só te rias para não chorar. Que quantas vezes te dei comida à boca, porque já não conseguias. Aprendi a ouvir o que dizias, a treinar as tuas vocalizações. A moldar-me aos teus devaneios.

Nunca entendi porque querias ir embora, se te tive por tão pouco tempo. Porque os anos que passei contigo a pouco souberam. Não me viste crescer porque tive que te ajudar a ser maior.

A vida foi-te madrasta. Mas a mim deu-me oportunidade de aprender contigo mais do que algum dia poderei aprender com alguém. E também me deu oportunidade de me despedir, eu é que não sabia. Eu é que nunca pensei que dois dias depois partisses para nunca mais te ver. Sinto um enorme peso na consciência porque não te disse que te amava. Fui embora sem saber que seria a última vez que te via.

Já lá vão mais de dois anos.
Espero que estejas em paz. Espero que finalmente, tenhas uso da tua alma e do teu coração, aí no céu. E sei que de vez em quando me vens ver. Me dás alento e um beijo de boas noites. Sei que me aqueces nas noites de inverno e me consolas quando estou a chorar. O que me enche de esperança é saber que não te esqueceste de mim. Que me visitas e deixas sempre um pouco de ti comigo. Sinto-te.

És o meu anjo da guarda, a minha Vitória.

P.S. Na próxima visita, deixa-me um frasquinho de paz e esperança. E espera por mim aí em cima, ainda nos vamos abraçar. Ainda tenho que dizer que te amo.
Acabei por te advertir de toda a situação. Ris-te feito um louco, és. 
Ganhas e perdes com perícia de lutador de boxe. O grande drama de todos os lutadores é não saber como reagir no momento certo. O momento certo. É a seta lançada, a oportunidade perdida. Do que reclamas tu, pessoa inócua, se já tiveste tudo pelo que agora anseias? Que os momentos voltem atrás? Que tudo se apague? Quem seríamos nós sem essas memórias? Quem seria eu? Voltaria a cometer os mesmos atos? Quiçá. 
Não te consigo entender, mas consigo entender-me. E vejo agora que nem tudo o que achamos ser efémero, é. E que numa hora podemos realmente estar a morrer de amores, mas esse amor também morre. O grande erro dos lutadores é acharem que são invenciceis e que apenas os seus golpes têm sucesso. Estrangulaste-me, enlouqueceste-me. Tiraste-me o chão 1000 vezes para te sentires poderoso. Jogaste com a minha paranóia e descobri que afinal o paranóico és tu. Quantas vezes não fui eu a fraca para tu não te sentires fraco? E tão forte que te achavas que após teres exactamente aquilo que querias, pensaste que já não precisavas. E outro erro cometido. Ou o mesmo. 


Hoje estamos num novo assalto. Hoje sou eu que estou poderosa, brinco com a tua paranóia porque fiquei louca. Tiro-te o chão porque me dá piada ver-te cair. Gosto de te ver rastejar porque me sinto acima de ti. Não imaginas o gosto que é humilharmos alguém que sempre nos humilhou. 


Ganhas e perdes com a perícia de um lutador de boxe. 

Pena que acabaste de levar um gancho de direita, certeiro. 

K.O.
Lamentámos tudo o que há para lamentar. Dêem-me a escolher e escolherei sempre o percurso que mais me sorri. Hoje, ao olhar para trás, o que mais me comove não é a saudade. Nem tão pouco a melancolia. É a impotência contra o tempo, destino, passado incontrolável tal e qual como o presente, quiçá o futuro. Vejamos bem as coisas, quem de nós dois quis fugir de nós? Fizémos nós, perdemos os laços, lá se foram os abraços, só para mais tarde recordar. Num tempo tão perdido em que risos faziam parte de uma doutrina só nossa mas tão vulgar para ser de toda a gente. Afirmamos ser tão diferentes e somos todos tão iguais. Nós, que promessas dizemos ter feito sem as cumprir, e muitos de nós também não sentimos a consciência pesada por as termos deixado para trás com tudo o que já vivemos. Relativizando tudo o que foi dito e vivido, porque afinal crescemos e "só faz falta quem cá está". Quanta hipocrisia criticamos sem saber que contra nós falamos. Arranjamos sempre as mesmas desculpas, irrisórias porém, de que o tempo não chega para tudo, de que afinal, as pessoas acabam por seguir caminhos diferentes e que tudo acontece por uma razão.

Que se foda quem pensa assim. E que me foda eu.

Que de tantas e tantas vezes pensei que iria ser diferente, afinal, bastava um contacto e tudo voltava a ser o que era. De todas as vezes que nos reencontramos, as promessas voltam a pairar sobre nós como uma flecha sem alvo, porque dias depois, já não nos lembramos das saudades que sentimos de tudo o que vivemos. E entretanto há algo que nos faz lembrar. Um nome no vazio, uma experiência relatada, uma gargalhada semelhante ou apenas um deja vu. E voltamos a sentir falta. E nada fazemos para alterar isso. Seguimos todos com as nossas vidas medíocres, com as novas pessoas com quem passamos mais tempo, com a maltinha do dia-a-dia. Hipoteticamente felizes se não fôsse apenas isso, hipoteticamente. 

E na hora do aperto, na hora da aflição, perguntarmo-nos onde andará a pessoa que nos iria ajudar, apoiar e relembrar que tudo iria ficar bem. Provavelmente seguiu também o seu caminho, provavelmente também se lembrou de todos os momentos e de todas as promessas. Provavelmente também já precisou de ajuda mas não conseguiu pedir. Pois. Porque afinal não basta um contacto para que tudo fique bem. Porque podemos gostar mundos e fundos daquela pessoa, mas perdemos a confiança depositada. Porque os juros são bem mais caros do que o orgulho perdido momentaneamente. É alto o preço a pagar pela perda de um amigo. E mais alto ainda se torna quando, por aventuras do destino e da vida, o reencontramos e sinceramente, já não o conhecemos. É isso que dá mais desgosto. Porque a vida é feita de encontros e desencontros, mas cabe-nos a nós decidir quando queremos ficar de vez. 
Não há coisa melhor que o desejo carnal aliado à adoração eterna do ser autênticamente nosso. Se eu fosse hipócrita, diria que apenas sinto falta de todos os teus olhares fiéis, da tua cumplicidade, da tua amizade e do teu amor. Eu sinto mais que isso. Foda-se, se sinto. Não te conheço, sermão que pregas aos quatro ventos, como se isso realmente fosse verdade. Como se não soubesses que é mentira. A cada vez que o negas, eu lembro-me mais ainda de tudo o que tu és.

Conheço todos os teus gemidos de cor. Os suspiros ao meu ouvido quando atingias o auge do teu ser, a maneira como me agarravas o cabelo e gritavas, sem medo e sem pudor, sem te importar que te ouvissem. Dava-me ainda mais tesão ver-te esquecer o mundo por segundos, enquanto te contorcias compulsivamente, como se tivesses possuída, agarrada ao meu corpo, suor com suor. Lembro-me do teu cheiro característico, o teu cheiro a sexo puro. Reconheceria ainda hoje, apenas no teu olhar, quando te apetece foder. Só e apenas isso. As minhas mãos já fizeram magia. Nunca fui mágico dotado, de experiências tenho poucas recordações mas lembro-me bem de te preencher de todas as maneiras e feitos enquanto explorava tudo o que era meu. E tu deixavas. E tu gostavas. Sentia a curva dos teus seios nos meus dedos, perfeitos e capazes de provocar inveja em qualquer mulher. E desejo em qualquer homem. Se me dissessem, eu sem te conhecer, que existiria tal coisa eu não acreditava. Tens a capacidade deve me seduzir só com a tua presença. És uma cabra sem escrúpulos. Quantas e quantas vezes tu me provocaste, agarravas e torcias. Cima, baixo, cima, baixo. Quão baixo tu jogavas. Quão louco tu me punhas. Quantas e quantas vezes me deixaste ali, sozinho, a torcer de desejo enquanto te masturbavas só para me provocar. E quantas vezes, ao ver-te, te violei em pensamentos. Amarrei-te, penetrei-te com toda a força do meu ser até os nossos corpos se tornarem apenas um. E aí eu descontraía, apesar de sozinho, agradecendo a Deus ou aos meus pais que pensaram em ornamentar-me com duas mãos trabalhadoras. 

Lembro-me da tua boca mágica, santa milagreira do sexo. E o que mais me lembro é do facto de quereres e de gostares de me ver gemer. E quantas vezes eu me contorci a olhar para os teus olhos sedentos do meu músculo vigoroso. Tinhas a mania que mandavas. Comandavas todos os nossos movimentos, todas as tuas vontades. E as minhas também. E eu que não ousasse sequer alhear-ne aos teus desejos, acabavas por me deixar a sofrer no vazio da ejaculação. És mesmo uma cabra sem escrúpulos. De todas as formas e feitos.
Como podes tu dizer que não te amei se amei todas as formas do teu corpo, todos os teus toques, todas as tuas palavras, todos os teus gemidos, todos os teus suores. A cada vez que te vinhas, eu vinha-me em pensamentos, nadando em prazer por te conseguir preencher mais uma vez, mais um dia. 

Se te queixas de não me lembrar de todos os nossos aniversários, da data do primeiro beijo, da data do primeiro encontro, de todas esses detalhes fúteis e inúteis, orgulha-te de me lembrar, todos os dias, de conhecer de cor e salteado, toda a essência do teu ser.
Demoras a chegar, pé ante pé, como quem não quer nada. Espero que venhas sorrindo. Que me abraces e me apertes num beijo demorado, um abraço teu chega sempre a horas. Não te sei o nome, que te chamas Anjo isso é certo, tão certo como eu ser tua. Já te conheço tantos detalhes e nunca te vi. Acordei durante a noite pensando que, até em meus pensamentos, és mais do que isso. Não te toco; és nuvem mágica que paira sobre mim. Figura tão segura de si, crente de todas as qualidades e defeitos, libertadora imagem de todos os problemas. És tão errado como certo. Falta-me o ar quando me faltas e falta-me ainda mais quando te tenho. Já te conheço tantos detalhes. Procuro-te como um dependente insaciável, como se não houvesse mais nada no mundo para além de ti. E nem tu existes. A curva dos teus ombros, os teus braços infalíveis, a doçura do teu sorriso. Já te conheço tantos detalhes. Os teus olhos insensíveis, a tua expressão arrogante. És tão contraditório que me preenches todas as lacunas. És tão errado como certo. E eu não sei o que sou, julgo ser apenas um vislumbre na tua realidade, meu universo paralelo. Se não me existe como poderei eu existir-te? És uma tentação assustadora, porque raio te tenho eu tanto medo?  Na vida temos que aprender a nunca nos afastarmos de nós para nos aproximarmos de alguém.
Mas eu já gosto de ti.
Não sei a mulher que sou mas sei bem a mulher que não sou. Chega de pragmatismos, práticas de eloquência e bem-dizeres. Ambos sabemos o que vales, eu mais que tu por não ter o filtro que é o teu ego no meu olhar. Chega-te para lá, já que nada chegas a valer. Vestes as palavras mas és mau de língua. Pior ainda, és terrivelmente mau de carácter. De que te serve ter 26 letras na boca pintadas de cor mágica se a verdadeira magia é aquela sobre a qual não lhe descobrimos os truques? E eu já descobri os teus.

Anda, denuncia-te aos sete ventos e cai desse teu pedestal. Já não ganhas nada em ludibriar os sentidos alheios e pior ainda, em enganar-te a ti próprio. 

A verdade está sempre a olhar para nós, à espera do tropeção, ansiando pelo momento em que caímos de boca, em que ficamos em merda, para nos atirar à cara tudo aquilo que não quiséramos ver. Tu não vês aquilo em que te meteste? Será que não reparas na hipocrisia em que vives, nos falsos sermões, nas ilações desesperadas de palavras treinadas? 

Eu sei que tens treinado. Tudo o que consegues dizer são frases alheias à situações, aprendizes de manias, sabendo exactamente com que entoação são ditas no momento da discórdia. É. Tenho que admitir que soubeste treiná-las bem. Recebe agora o conselho de uma parva, cujas palavras são soltas e por vezes sem nexo frásico. Tão nuas de figuras de estilo quanto de magia. Nunca as treinei. Nunca quis fazer mais do que sou, nunca as decorei, nunca soube o sabor de ludibriar alguém com 26 coisas tão pequenas. Nem me dou ao trabalho. Só te aconselho a que descubras o homem que não queres ser. Já que o homem que queres ser, tu não o és.

Há quanto tempo não me arde o coração?

Às vezes tenho saudades. De me rir com pensamentos, de sentir o teu sorriso durante o beijo, as tuas mãos em mim. De acordar a meio da noite com vontade de olhar no fundo dos teus olhos, enquanto sei que estás a dormir longe de mim. Era por isso que te queria tanto. Às vezes tenho saudades. De quando os insultos não passavam de meras palavras só nossas, que só nós sabíamos o seu significado. De quando contávamos os minutos e os dias para termos um beijo. De quando as borboletas invadiam o meu coração só de pensar que eras meu. E quão meu tu eras. Há muito tempo que não me arde o coração... Está em cinzas.

Da esperança de amar.

Obviamente que todas as histórias até hoje contadas não passaram de meros boatos ridiculamente associados a nós. Quem, por ventura, poderia afirmar, afinal, que éramos feitos um para o outro? Semelhanças talvez? Mas nunca uma equidade tal que fôssemos a nossa metade da laranja. Quando gostamos de alguém, independentemente da pessoa em questão, quem muda e se molda somos nós. Já repararam em todas vezes que estivemos apaixonados? Já repararam como agiam de forma diferente em cada uma dessas vezes? Não nos julguemos, cada amor é um amor e deve ser vivido de forma intensa e única. A parte mais engraçada é quando nos desapaixonamos e vemos que, afinal, não éramos aquela pessoa. Que fazia o impensável em estados sãos.  A culpa realmente não existe porque os erros não existem no que toca ao amor. Se há coisa mais limpa e inocente no mundo, livre de maldades e más intenções é o amor, e por isso, ninguém é culpado de nada. Nem de amar sem ser amado, nem de ser amado sem amar. Muito menos de amar em tempos errados e, principalmente, de amar em quantidades erradas. Desengane-se quem pensa que não deveria ter amado determinada pessoa, se o pensa é porque não sabe o que é amar. Ou ser amado. Porque amor não se nega a ninguém e todos nós amamos, em pequenas quantidades ou grandes quantidades. Amamos uma gota de água ou amamos um oceano. Cabe-nos a nós decidir. Principalmente decidir se preferimos amar-nos a nós próprios acima de todos os outros. 


Passemos ao que interessa. Eu cheguei a esse estado. Descobri que te amo, que te amei. Descobri que amo todas as pessoas que passaram pela minha vida. Descobri que ainda amo o tal ex de quem tu tinhas tantos ciúmes e descobri que amo aquele amigo com quem tu tanto implicavas. Descobri que amo todos os momentos. Descobri que continuo a amar todas as minhas memórias, todas as nossas memórias. 

Descobri que me amo. Mais que a ti. Mais que tu alguma vez amaste. Amo-me de uma tal maneira que não me permitirei, nunca, esquecer-me. Por amor nenhum.

Afinal a minha metade da laranja não és tu. Nunca foste. 

Sou eu.

"Nunca voltes ao lugar
Onde já foste feliz
Por muito que o coração diga
Não faças o que ele diz
Nunca mais voltes à casa
Onde ardeste de paixão
Só encontrarás erva rasa
Por entre as lajes do chão
Nada do que por lá vires
Será como no passado
Não queiras reacender
Um lume já apagado
São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez
Por grande a tentação
Que te crie a saudade
Não mates a recordação
Que lembra a felicidade
Nunca voltes ao lugar
Onde o arco-íris se pôs
Só encontrarás a cinza
Que dá na garganta nós
São as regras da sensatez
Vais sair a dizer que desta é de vez."
Não há nada mais bonito na vida do que apaixonarmo-nos por nós próprios. Aí sim, sentimo-nos em pleno, como ninguém nunca nos irá sentir. Como tu nunca me sentiste. Por ti fui sempre metade, agora sinto-me mais que inteira.