Presságio


 
Sentei-me junto à janela. Sinto a brisa leve e arejada e sou repentinamente invadida por desejos mirabolantes e uma insónia desgraçada. Tenho que dormir. Preciso mesmo de dormir. Só não sei como, realmente. Se me deito, penso em ti. Se vagueio, em ti penso. Sai de mim. Sai por favor. Não saias. 
Acabo por me sentar na cama e acendo um cigarro, não consigo deixar de pensar no que aconteceu. No que vai acontecer. Tenho a minha barriga a viver com as borboletas.


Abro os olhos porque ouvi um choro repentino. Agudo. Forte e insistente. Vem de longe mas não muito, o suficiente para eu não me preocupar em verificar porque senti passos próximos. Fecho os olhos. Acabo por inalar um cheiro característico a canela e maçã, com um pequeno travo a menta. Sinto um beijo percorrer-me o pescoço, que acaba por me morrer nos lábios. Tens o hálito fresco e eu morro de vergonha por teres que olhar para mim. Que acordo tão horrivelmente mal. Alargas um sorriso enquanto me embrulhas no teu abraço matinal e dizes: bom dia amor. Amor, eu? Onde andei este tempo todo? Descobri agora que te vivo. 
E uns pés de lã invadem o quarto.
Um ser totalmente estranho invade a cama e rouba-me o cobertor. E tu, embevecido, deixas. Como é possível eu observar-te tão apaixonado!? Ternurento até, admirado, orgulhoso. Sinto um puxão nos cabelos desgrenhados e um "bom dia mamã" presenteia-me a vida. Tem os teus olhos, que escondem segredos e artimanhas. Olhar maroto de quem acabou de fazer asneiras mas santo o suficiente para saber que não foi com maldade. Um nariz perfeitinho esculpido numa cara redonda e emoldurada nuns caracóis castanhos. Brilhantes. Uns lábios cheios e tão rosados quanto as maçãs do rosto. Dois dentinhos enfeitam-lhe a boca e eu não consigo evitar agarrá-lo. 
Mergulho no abraço do meu pequeno amor, enquanto sou protegida pelo teu. No silêncio. Porque não preciso de mais nada. Porque me encontro tão afogada em amor que não exijo salvação. Porque a vida é perfeita e se melhorar estraga. Porque me envolves com o teu toque doce e atrevido. Porque me proteges como um super-herói mas eu sei que és feito de carne e osso. Conheço a tua fraqueza e sei que se te faltar, andas com as camisas amarrotadas e acabas por te alimentar mal. Descubro que te esqueces de mudar as fraldas ao menino e que por vezes te atrasas na hora do jantar. Que andas sempre a perguntar que dia é, porque te perdes no calendário e em mim. E só por isso fecho os olhos. Nos braços dos amores da minha vida.

Só não sei porque acordei. Ligo-te e vou ter contigo. Os sonhos só se concretizam se fizermos por isso. 
Ama-me para sempre


•••

Só no fim destes dias.

No fim destes dias encontrar-te a ti, que me sorris, que me abres os teus braços e me enrolas no teu amor, que me abençoas e passas a mão na minha cara marcada, na minha cabeça confusa, que me olhas nos olhos e me permites mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, no toque que não sei descrever. Tu que me embalas dentro dos teus braços e tu que me beijas e tu que me apertas e tu que me sossegas repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem.
Que te lembras de mim quando eu finjo que não estou cá, que me acalmas quando me enfureço por coisa nenhuma e que te sentes completo quando estou no teu redor.
No fim destes dias, sabendo que te encontrarei no dia seguinte, que estarás aí para mim sempre que precisar. Espera-me, tu que esperas por tantos momentos e me agarras nos teus prantos e que sossegas o teu choro em mim. Como poderia eu ser inteira, se não te consigo apenas amar pela metade? 

«mg.»

Lacunas





Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insano, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias inteiros, noites acordada, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparada atravessando madrugadas na tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele. Disfarçarás melancolia ao ouvires o seu nome, suspirarás cada vez que lembrares o seu beijo e chorarás quando finalmente descobrires que ele já não te quer mais.


(...)

Dear God...






Sempre tive a mania de que sabia tudo. De cor, salteado, para a frente e quiçá, para trás. Relancei milhares de vezes o meu corpo para o que julgava ser etéreo, julguei-me sóbria. É, sempre soube tudo, mas esqueci-me de que podias existir. O sol brilha lá fora, cheio de frio, e sinto-me tão quente...Esqueci-me. De que passarias por mim, em algum lado, num dia qualquer, como quem não quer nada, mas queres.
Esqueci-me de que és homem. E quando realmente gostas, vais até ao inferno por mim. Vais e enfrentas mil tormentas, porque gostas. Porque és simples e previsível. Porque tu não és como eu, raça errónea da Humanidade, que analiso, penso e ainda atribuo mil problemas quando eles não existem. Balanço o meu ser entre o ir e o ficar, com medo do destino que me espera, talvez mais do que do caminho. Volto para trás quando está escuro, quando és instável, quando me assustas. E só desisto quando me deixas.
Sempre tive a mania que sabia tudo. Que era independente e só eu escolheria o que quero. Que rumo tomar, que experiências viver. Trocaste-me o saber e as voltas, viraste o mundo do avesso e agora encontro-me de pernas para o ar, com o sangue a subir-me à cabeça, entre gritos e agonias.
Mas sei que sempre chegas, quente e saboroso, apetecível e ternurento. Pronto para me pôr no lugar, para me voltares a jogar ao ar novamente. Apetece-me voltar para trás, só porque me assustas. Porque me cativas. Porque eu já gosto de ti.
Porque me apareces afinal?



Água do bongo


Cara de sono. De facto, com um sorriso de quem acabou de entornar a água do bongo na placa de som. Um dia, torno irremediável a escolha da data em que vou. Entretanto, arrasto o meu corpo, até ao doutor, porque o meu frasco acabou. Frios suores, poros disparam vapor. Horas depois, para aliviar o ardor no peito, eu escrevo. Mas mãos tremem sem parar, ao compor imagens extraídas da parte de trás do meu topo. À frente, uma cara de poucos amigos que não percebem que não estou para conversas sem termos de conversar antes sobre isso. Uma cara de poucos amigos, independentemente do número. Funcionam todos à base de avisos, eu não me resumo num. Eu sumo-me. Façam rolar esse tapete de alcatrão na minha frente, como se fosse a passar o carro da Google. Eu nunca espreitei o mapa. Fedelhos pedem conselhos, numa de partilha e comunhão com as massas. Desamparem-me a loja. Esta é para a corja que prega os meus momentos medíocres, como se tudo em que toco se tornasse magnífico – É esse o espírito. Hei-de morrer pobre pela minha obra. Assim por alto, até agora, devo ter ganho, sei lá, um cêntimo por hora. Eu preferia acabar num lar. Não, eu preferia doar um rim. Não, a sério, eu preferia afogar o meu primogénito num alguidar do que vê-lo a crescer até se tornar um básico – Pela morte, serás exemplo. Eles que façam de ti um mártir.

No que toca à quantidade de dígitos, estou convencido que o meu saldo negativo ultrapassa o teu positivo. Além disso, acredito que, só com vinho, já me embebedei mais sozinho que tu com os teus amigos. Quando escrevo, escorre quente o veneno que me corre dentro. Este é o meu adeus precoce. A minha laia morre cedo. Nervoso? Só sempre. Corto rente laços. Falo “Fêmea, um dia volto, mas hoje ainda não pode ser”. Pé na tábua. Eu não preciso de nada. Escrevo estas letras com a mesma caneta com que desenho a capa. Trancado no quarto, quando calço luvas de borracha, recorto letras de revistas e envio anónimas cartas de ódio às ex-namoradas. Elas sabem o que aqui se gasta. Não tenho jeito com nomes, sou péssimo com datas, porque adoro fumar bêbado. Há cinco anos em casa mas moral altíssima, numa de “eu nunca voltei da estrada”. A vida não presta. Só ira resta. Temo não alcançar os quarenta. Não há tempo para dormir a sesta. Desculpem-me se não ando de corno preso à testa com um com elástico, a peidar borboletas. Eu vejo além das tretas.

Holocene






Ajeitas o cabelo com ar manhoso de quem não se importa com os olhares fugazes de quem desdenha. Sei que sabes que estou aqui a decorar-te os traços, permaneço inquietamente quieto, para ver o que vais fazer a seguir. Não me prestas atenção, nunca prestaste. E quem seria eu se desistisse de te despir de pudores e preconceitos e fazer-te conhecer o mundo nú e cru que se nos apresenta. E tens tanto para conhecer...

Reparo na maneira como mordiscas os lábios quando pensas no vazio que te enrola os dias... És tão ingenuamente tentadora que seria mais pecado ainda não te desejar. Cruzas os braços como quem espera pelo dia amanhacer, sem dores incessantes, apenas apatia espelhada em todas as atitudes e movimentos. Pára com isso, deixa-te de merdas. Que eu desistir não sou capaz, mas perder a paciência é certeza mais que certa. Não me faças ir aí, pára de pedi-lo subtilmente, eu sei que não vais gostar. Porque sei que preferes a acalmia dos dias apáticos, a previsão antecipada de atitudes, a terapia do "já sei o que vou fazer hoje" ao invés do tormento do desconhecido, da imprevisibilidade momentânea de atitudes alheias, de quedas aéreas sem saber em que chão pisas. Eu não desisto. De te olhar, apenas. Porque conheço cada traço teu apenas com o fogo da minha imaginação, e, em pensamentos, tu já te mostraste em toda a tua plenitude.

Mas não me faças perder a paciência. Deixa-me olhar incessantemente, enquanto posso. Vestir-te com o meu toque, dormir nos teus lábios. Se eu me perder, que seja em melancolia. Não em perda. Porque se perco o que ainda não é meu, é a queda aérea sem chão que tu me dás. E eu ainda não sei voar...

Hoje vou dormir a pensar em ti. Vou perder a paciência contigo, vou aí. Vou agarrar-te. Fazer-te minha. E o resto... fica apenas para depois.

Só um adeus não chega.

Fechei a janela com medo que entre mais frio esta noite. A casa está silenciosa e sinto-me surda de tanto gritar comigo mesma. A solidão tolda-me os olhos e não consigo evitar uma lágrima que escorre incessantemente por todo o meu rosto. Toca-me nos lábios e não resisto a lambê-la. Recostei-me no sofá e olho para o sítio em que costumavas estar todos os dias, ali, sentada. Sempre sentada. 
Não sei se estou a sentir as saudades multiplicadas por dias perdidos sem ti ou se é porque, nestes dias natalícios, não tenho ouvido a tua voz. Dobro as pernas contra o peito com receio que ele se parta em mil pedaços e me destrua o resto que falta. Em mim, e em ti. Anda fraco e a precisar de um abraço. Estou a sentir a tua pele enrugada e vivida, lisa como a de um bebé mas com tantas histórias marcadas, vincadas. Ouço os teus soluços, acompanham os meus. Sinto a tua falta. Só mais um dia, penso eu, este é um dia qualquer. Nunca fui de demonstrar sentimentos, nunca abraço a minha família e os meus beijos são castos e secos. Dava todos os dias que vivi sem ti em troca de um último toque. De uma única forma de te encontrar novamente. 
De uma maneira qualquer de dizer que te amo. Sempre. Porque como inocente pecadora, deixei-te ir embora sem dizer o que sinto. E tu nunca mais voltaste.  E todas as noites eu peço que voltes. Foi só mais um dia, volto eu a convencer-me. Levanto-me e encontro o teu lenço preferido, sinto o teu cheiro, ou penso, apenas. Enxugo as lágrimas e esqueço que afinal, de tantos dias que passaram, ainda ontem te ouvia a ralhar comigo por deixar a sala cheia de migalhas. Sinto a tua falta. É só mais um natal. Um entre tantos que não passei contigo. Entre os que irei passar sem ti. Arrasto-me até à cama, enrolo-me nas mantas e sinto uma pequena brisa no rosto, um toque suave, como a pele de um bebé. Amo-te, sussurro em surdina, na esperança de que me possas ouvir só mais uma vez. 

Até amanhã. Feliz Natal avó, olha por mim aí de cima e não hesites em me mostrar o caminho quando teimar em me perder.

Delírios




Dedilhas os meus anseios enquanto fechas os olhos e tentas menosprezar aquilo que sentes. Sei que te afogo os prantos em águas quentes, de maneira a que não sintas o gelo que é ser tu. Descobri que foges de todas as tuas teorias manhosas de racionar tudo aquilo que é emocionante e que te privas de provar o quão bom é a vida. Tudo isso porque te escondes atrás de palavras feitas e de orgulhos hediondos. Porquê? Se no tanto que há para viver, tu escolhes não morrer de maneira deleitosa. Sei que me tocas porque me desejas mas não me desejas a teu lado para não te ver nessa mágoa fugaz. Eu não tenho medo das tuas dores. Desfaço-me nas curvas apertadas dos teus pensamentos e agradeces-me por ainda te sentires vivo. Não sei que pensar porque deixei os meus pensamentos a prazo, numa conta só tua, perdi-lhes o direito. Chega-te para cá, encosta a tua cabeça no meu peito e chora tudo aquilo que tens a chorar. Eu também tenho medo. Mas usa-me só mais um bocadinho, para te sentires vivo. Para eu me sentir útil. 
Para nos vivermos um ao outro. 

Hetero-avaliação

 'Ainda agora te conheci, mais parece que me despeço, despi-me de tamanha timidez nem sequer liguei ao resto, teu traço pintado parece uma simples tela, não sei se foi Picasso ou se és feita de canela, morena que me aquece a alma fria, só de te olhar sei que sabes fazer magia. Agarras-me e roubas-me a inspiração, não sou de desistir, não faças confusão. Dividimos o céu, o ar e a cama a meias, tu que me tornas teu sem ligar a merdas alheias. Que ao relento tudo é natural bem mais perfeito, beijo os teus lábios carnudos e sei que gostas desse jeito, sinto a tua pele arrepiada faz faísca no corpo, não sei se é o mais certo mas sei que de certeza não é torto, tou pronto para futuro. Uma vida a dois, três ou quatro quem sabe, quero filhos contigo. Uma vida feliz. 
Por favor, dá-me.'

: ft, o mais pequeno.

Discórdia




Puxo-te mais para dentro de mim, mesmo estando tu a dormir que nem um anjo sem passado, a meu lado. Deixo os meus dedos tocarem todos os milímetros incandescentes do teu corpo e sinto o tremor subir-me pelas entranhas. Hmm.
Peco tanto em pensamentos que chamar-me-iam de puta, se mos lessem.
Ligo o candeeiro preto que comprei na feira quando fomos passar o fim-de-semana ao norte, preciso ver as horas. 

Já passam das 5 da madrugada, está um vento devastador na rua e eu não consigo desviar o meu olhar de ti. Tão quente. Espinhas de sol entranhadas na minha mente. Ardes-me e nem te apercebes.
Não te dei parte fraca até hoje e, contendo uma ou outra lágrima teimosa e invulgar que me nada nos olhos, levanto-me e vou à janela ver o tempo passar. Os cães estão a ladrar e sinto a brisa noturna penetrar-me de tal maneira nos pulmões que me sinto cheia. Há tanto tempo que não me sentia cheia.
Reparo na tristeza de um homem que por ali vagueia, na incerteza do seu trajeto e propósito. Vi-me ali. Tocas-me. Vim-me ali. Passeias as tuas mãos pelos meus seios redondos e prendes-me em ti, cheio de fome e tesão. Se não te chego ao coração pelo menos que te chegue o meu corpo. Deixo-me levar até à cama mas deixei o pensamento naquele homem sem propósito, que chutara uma lata em frente à minha janela, enquanto a agonia lhe colhia as expressões. 

Chama-me, egoísta e narcisista até, mas chama-me. E continua-me a chamar.
Quem me garante que daqui a dez anos ainda me elogias?

Diagnosticado.

Levantei-me à pouco, calcei os chinelos desbotados e fiquei sentada na sala a olhar para as paredes vazias. A casa está sem cor e sem calor, de lar não tem nada e doce muito menos. Pego na caneca cheia de corações que me ofereceste no natal passado, e apetece-me multiplicá-la para que te sinta neste natal. Novamente. Tento abstrair-me um bocado da melancolia avassaladora e fria que me arrebata ultimamente. Só reparo que estou sozinha porque estou sozinha. Passo os dias rodeada de pessoas vazias e sei que o que me preenchia eras tu. O ser humano é exímio em conseguir distrações nas situações adversas mas eu já cansei o coração e mais importante ainda, a minha cabeça. Esgotaram-se as opções e por isso resta-me apenas contemplar o vácuo. O café está quente e por segundos fecho os olhos. Como é possível uma pessoa aguentar tamanhas perdas? Não que se morra de amor e muito menos pela falta dele, mas o que fica quando já não fica mais nada? Nada. É isso que faz toda a diferença. Já nada me aquece, já nada me move. Acordo apática dia após dia, sem sentir emoções relativamente a nada. Não ligo a tv porque não aguento ouvir pessoas a falarem, não ouço música com medo que alguma me recorde das tuas gargalhadas. Não tenho fotografias nas paredes porque não quero ir buscar o nosso álbum. Acendo cigarro atrás de cigarro. Um fantasma teria mais vida nesta casa do que eu, que consigo estar mais vazia do que ela. Não me apetece sequer chorar. Passou a fase da revolta desesperada, do sentimento de injustiça seguido da culpa. A tentativa falhada de reverter as coisas. O ir atrás. O dar para trás. O chorar compulsivamente e as promessas de que não verteria mais nenhuma lágrima. Isso tudo passou porque não há mais nada para se passar. Porque as portas fecharam-se e eu não as quero abrir. Vou à janela, espreito de fininho. Ainda te consigo ver passar por aqui, parece-me que olhas duas vezes para a porta e reparas que não tenho regado as plantas, sinto-me culpada. Dou um último bafo no cigarro, jogo a ponta pela janela e escorrego pela parede abaixo. Não sei pelo que espero. Não sei o que te quero. 
Vem-me buscar. 

Segunda estrela à direita, sempre em frente até ao próximo amanhecer. 

Folheei-te.

Tenho os pés frios. Chove torrencialmente e eu estou sentada à lareira enquanto fumo um último cigarro. Estes dias trazem-me mais necessidades e ultimamente são mais que muitas. Enquanto decido mentalmente se pego no livro ou não, reparo na equidade de valores. Só não me agarro mais a ele porque não quero acabar de o ler. É tão delicioso porque ainda não lhe conheço o final e é isso que me desperta o desejo. A chuva continua a bater na janela e eu nem preciso de uma música melancólica para começar a divagar. Que tédio. Não gostei muito das primeiras páginas mas forçei-me a ler, porque ele veio parar-me às mãos por acaso e na vida os acasos não existem. Nem reparei na capa, cheio de desenhos entalados em palavras, sem nexo titular, não lhe entendi os nomes e só passei à frente. Os prefácios deixam-me enjoada, a sério, enjoada. Uma enxurrada de palavras bonitas enfeitadas com metáforas e elogios escondidos para captar o leitor, pois a mim só me deixa a pensar em que tenho que acender mais um cigarro. Mas foda-se, como tenho gostado do livro. E a cada página a mais é uma página a menos. Vou saboreando cada eloquência frásica, cada detalhe esfarrapado e inconsequentemente mal-entendido. Sabes porque é que gosto tanto de livros? Porque no meio de tanto mundo que existe, eu posso criar o meu. As personagens são minhas, a historia é minha e eu sinto que a cada livro lido conheço o meu final. Mas nunca é o meu final, porque a cada livro acabado segue-se mais um dia. E cada dia a mais é um dia a menos. Foda-se, tenho os pés tão frios e não resisto a calar este barulho incessante da chuva, talvez escolha uma música clássica, porque não? O momento está mesmo a pedir e se me meto em merdas românticas sei que me desfaço em lágrimas e já me chega o céu em prantos. Hmm, que melodia catastrófica. Agora reparo. Dou mais um bafo, os cigarros são poucos e estão a morrer no cinzeiro. Estaria eu só a falar dos livros? Estaria também a falar de ti? E será por isso que não me entrego como deveria? Porque, inconscientemente ou talvez não, saiba que assim que te acabar de ler, vais para a prateleira e nunca mais te pego. O desejo de te folhear agora é enorme porque não te sei o futuro, não sei o fim. E se quando te acabar de ler, descobrir que não eras o meu fim que procuro e que afinal existe mais um livro? Mais um dia? E cada dia a mais, é um dia a menos. 

Desisto. Deito o cigarro pela janela e molho a minha mão. Que frio que está. Desligo a aparelhagem e vou dormir. O livro fica para amanhã, ou para depois. Não. Pego no livro e sem ver as palavras, arranco as últimas dez páginas e jogo para a lareira. Se não me encerram os dias pelo menos que me aqueçam os pés. Por enquanto fico satisfeita só por imaginar três mil fins diferentes. Sei que não me vou desiludir porque afinal, o fim vai ser o que eu escolher, sem perder dias a fio a imaginar o que poderia ter sido e não foi. Porque a cada dia a mais... É um dia a menos e eu quero saborear o que me resta pela frente.

Amor a prazo.

Estou a ver-te. Agora olhaste para mim e sorriste. Como eu adoro todos os teus sorrisos. Tu, de lábios cheios e dentes traçados de personalidade, ficas ainda mais lindo a sorrir. Voltas a olhar para o computador. Está tarde e estás cansado.  Mas essa necessidade louca de te preencheres com o que achas que deves está a matar-nos os dias. Queria que viesses para a cama porque está frio e eu preciso de ti. A cama continua por desfazer do teu lado há três dias, são três noites em que não te sinto a dormir a meu lado. Continuo a olhar para ti porque não me canso, nunca pensei sequer em cansar-me. Amo-te como se te tivesse descoberto agora.
Volto para o quarto e tento dormir enquanto sou assombrada por um filme à antiga, cheio de pormenores, detalhes da nossa história. E tantos episódios soltos, tal e qual cartas espalhadas sobre a mesa. 

A primeira vez que nos vimos e o abraço que me deste. Seguraste o meu mundo por 30 segundos e fiquei feliz porque foste a primeira pessoa que não o deixou cair. Porque foste a única pessoa a dizer que eu só tinha falta de um abraço para resolver todos os tormentos que existiam dentro de mim. Curaste-me mil.

O teu ar de criança a jogar em frente ao computador. Ainda hoje tens essa mania, esse hábito e necessidade que te mantém tão atraente. Se soubesses o quão sexy ficas de boxers a discutir para um monitor. E tantas as vezes que me deixaste sozinha para "matar o vício". 

A primeira vez que cozinhei para ti. Senti-me mais tua mãe do que tua namorada e foi aí que percebi que seriam teus, os meus filhos. 

Os passeios à beira-mar e as juras de amor eterno.

O cheiro característico da casa dos teus pais.

O mau feitio da tua avó que nunca me suportou. Ainda hoje não suporta.

Está frio e ainda não vieste para a cama. Sei o que se passa. Preparo-te um café bem forte, da cor dos meus olhos. Um mimo nunca fez mal a ninguém e sei que estás a precisar. Eu também estou. Mas não tenho quem mo faça então volto para a cama tal e qual como vim. Vestida apenas com a tua t-shirt e chinelos de enfiar o dedo, que ridícula que sou, a morrer de frio e enrolada numa manta só para não perder a oportunidade de sentir o teu cheiro, nem que seja através de um  pedaço de tecido.

Só não fico triste por mim porque estou demasiado triste por ti. Porque sei que não me amas tanto como querias amar e porque o cansaço se apoderou de ti. Não és cobarde, és o meu herói. Preferes lutar para amar do que fugir de quem te ama. Não há esforço mais bonito no mundo do que aquele que se faz por quem se ama. Ou se quer amar. Já me deste tanto que seria hipocrisia minha tentar forçar-te a mais e por isso tento atenuar a tua confusão momentânea com cafés e beijos na testa, enquanto olho o máximo de tempo possível para ti, porque sei que cada olhar que trocamos poderá ser o último. 






Estou-te a ver. E tu olhaste para mim e sorriste. Mas esse sorriso... Não me lembro de alguma vez o ter visto. Deve ser o teu sorriso melancólico. E continuas lindo, tantos anos depois. O tempo só conseguiu apurar o teu jeito eterno de criança. Cabelo grisalho e roupas amarrotadas de quem não conseguiu arranjar paciência para as passar a ferro. Ainda tens as sapatilhas que te ofereci, passados 13 anos. Estão rotas e desbotadas tal como tu. Essa barba de três dias consegue tornar-te ainda mais sensual, como nunca pensei que pudesses sê-lo. Quero falar-te mas não sei bem o que dizer. Que tive saudades? Que lamento não ter aguentado a pressão de ver-te definhar entre quatro paredes? Que noto o teu ar cansado da vida e de quem precisa de companhia? Que te amei ao longo de todos estes anos? Que estou magoada por te ter perdido? Por não ter sido capaz de te fazer amar-me? Continuas a olhar para mim.  Peço um café fraco. Sempre lidei mal com a cafeína mas continuo a cometer o erro de a consumir. Peço um segundo café. Forte e bem escuro, da cor dos meus olhos e mando também um bilhete, em segredo.
Reparo que trazes o relógio verde que te dei pelo aniversário e apercebo-me de que afinal, sempre fui a dona do teu tempo. Que se calhar fui embora cedo demais e tu reparaste, tarde demais, que tinhas deixado a oportunidade fugir. Que nos desencontrámos ao mesmo tempo e no mesmo sítio. Que estávamos bem e mudámo-nos para não sei onde. Olho mais uma vez para ti e espero que a empregada te entregue o papel, tal como lhe pedi. Continuas lindo. Guardo uma última imagem, pego na minha mala e vou embora. O caminho é longo mas eu já o conheço. Faço-me à estrada e reparo que um passarinho me alegra o trajeto. Sorrio. 
Como poderei eu fartar-me de ver em ti o que há de melhor em mim? Amo-te como se te tivesse descoberto agora. 

Continuas o mesmo, não sei se é bom ou mau. Sei apenas que o meu coração quis saltar do peito quando te vi e que fui invadida por mil borboletas inquietas quando me sorriste. Acasos do destino ou não, agradeço por este momento. Sabe bem poder atualizar a imagem que tenho dentro de mim, cresceste tanto desde que me fui embora. És um grande homem e sempre to disse. Alguém me disse que às vezes o adeus é a segunda oportunidade. Este reencontro pode ser uma terceira? Sabes onde me encontrar. É só me seguires. Se quando olhar para trás, tiveres a olhar para mim, saberei que me amas como se me tivesses descoberto agora. Se não tiveres... Bem... Então isto foi uma maneira boa de relembrar o quanto ainda te amo. Deixo-te um café forte e escuro, da cor dos meus olhos para nunca te esqueceres que eles sempre foram teus. Até já. 


Fui agarrada num turbilhão de abraços. Voltou a agarrar o meu mundo, jogou-o ao ar e não o deixou cair; novamente. Acabou de me curar mais um tormento. Afinal nem tudo tem prazo de validade... Amor.

Ainda tenho que dizer que te amo.



Até hoje, das coisas que mais lamento foi não ter seguido o teu percurso. Se me concedessem um desejo seria ser uma espécie de estrela-guia. Não para te orientar, não que precisasses. Tu, minha mulher de armas, ensinar-me-ias muito mais do que pudeste fazer. Seguraste-me ao colo inúmeras vezes, seguraste-me o mundo e seguraste a alma. Espero que a tua esteja a meu lado, neste momento. Nunca te poderei prestar a homenagem que o teu ser merece, nunca poderei dizer a ninguém o que foste, quem tu foste, eu não sei encontar a palavra certa e muito menos a definição. Ainda oiço a tua voz límpida e segura que nunca pude ouvir. Ainda te oiço contar histórias que nunca me contaste. Nunca me levaste à escola num dia de chuva. Nunca pude chegar a casa e ter o lanche quentinho e suculento à minha espera, como só uma avó sabe fazer. Nunca me acordaste para irmos à missa ao domingo, nunca me disseste "eu bem te avisei, meu amor" quando tive o meu primeiro desgosto amoroso. Nunca me avisaste dos amigos mascarados, nunca me pudeste limpar as lágrimas quando me doeu o coração.

Se me dessem a escolher, escolheria ter nascido mais cedo. Queria ver-te forte, sorridente e determinada. Queria conhecer a vitória que somava vitórias. Queria saber quem foste, personagem das histórias da família, que sem ti não se escreveriam em memória alguma.

E as memórias que tenho são imensas, apesar de tudo. Sempre te olhei com amor. Sempre fui contigo apanhar sol quando estava um dia lindo lá fora. O teu peso era mais do que o teu ser, tu e essa coisa com rodas e um assento sempre me acompanharam. Eu tratei de ti como tu deverias ter tratado de mim. A vida inverteu-nos a ordem do crescimento e da maturação.

Nunca tive vergonha de dizer que te limpei as lágrimas. Quando te sentias inútil e sem sentido. Quando te lembravas do que já foste e no que te tornaras. Nunca foste um fardo que tive que carregar. E o orgulho que tenho em dizer que me levantava todas as manhãs para te fazer o pequeno-almoço. Que assistia contigo à missa na televisão, e te via rezar para que Deus te levasse embora mais cedo. Que te fazia rir com as minhas piadas, e que tu só te rias para não chorar. Que quantas vezes te dei comida à boca, porque já não conseguias. Aprendi a ouvir o que dizias, a treinar as tuas vocalizações. A moldar-me aos teus devaneios.

Nunca entendi porque querias ir embora, se te tive por tão pouco tempo. Porque os anos que passei contigo a pouco souberam. Não me viste crescer porque tive que te ajudar a ser maior.

A vida foi-te madrasta. Mas a mim deu-me oportunidade de aprender contigo mais do que algum dia poderei aprender com alguém. E também me deu oportunidade de me despedir, eu é que não sabia. Eu é que nunca pensei que dois dias depois partisses para nunca mais te ver. Sinto um enorme peso na consciência porque não te disse que te amava. Fui embora sem saber que seria a última vez que te via.

Já lá vão mais de dois anos.
Espero que estejas em paz. Espero que finalmente, tenhas uso da tua alma e do teu coração, aí no céu. E sei que de vez em quando me vens ver. Me dás alento e um beijo de boas noites. Sei que me aqueces nas noites de inverno e me consolas quando estou a chorar. O que me enche de esperança é saber que não te esqueceste de mim. Que me visitas e deixas sempre um pouco de ti comigo. Sinto-te.

És o meu anjo da guarda, a minha Vitória.

P.S. Na próxima visita, deixa-me um frasquinho de paz e esperança. E espera por mim aí em cima, ainda nos vamos abraçar. Ainda tenho que dizer que te amo.
Acabei por te advertir de toda a situação. Ris-te feito um louco, és. 
Ganhas e perdes com perícia de lutador de boxe. O grande drama de todos os lutadores é não saber como reagir no momento certo. O momento certo. É a seta lançada, a oportunidade perdida. Do que reclamas tu, pessoa inócua, se já tiveste tudo pelo que agora anseias? Que os momentos voltem atrás? Que tudo se apague? Quem seríamos nós sem essas memórias? Quem seria eu? Voltaria a cometer os mesmos atos? Quiçá. 
Não te consigo entender, mas consigo entender-me. E vejo agora que nem tudo o que achamos ser efémero, é. E que numa hora podemos realmente estar a morrer de amores, mas esse amor também morre. O grande erro dos lutadores é acharem que são invenciceis e que apenas os seus golpes têm sucesso. Estrangulaste-me, enlouqueceste-me. Tiraste-me o chão 1000 vezes para te sentires poderoso. Jogaste com a minha paranóia e descobri que afinal o paranóico és tu. Quantas vezes não fui eu a fraca para tu não te sentires fraco? E tão forte que te achavas que após teres exactamente aquilo que querias, pensaste que já não precisavas. E outro erro cometido. Ou o mesmo. 


Hoje estamos num novo assalto. Hoje sou eu que estou poderosa, brinco com a tua paranóia porque fiquei louca. Tiro-te o chão porque me dá piada ver-te cair. Gosto de te ver rastejar porque me sinto acima de ti. Não imaginas o gosto que é humilharmos alguém que sempre nos humilhou. 


Ganhas e perdes com a perícia de um lutador de boxe. 

Pena que acabaste de levar um gancho de direita, certeiro. 

K.O.