Leitor

gelo







Vocês acham que era a altura certa? Eu não acho que era a altura certa.

Eles dizem que passa com a idade, mas a idade passa
E ainda nada. Nada, e o tempo não suaviza...
Ele diz que sou de gelo, mas a verdade é que ainda sinto
Todas as queimaduras na pele e nenhuma cicatriza
Desculpa! Esgotei as forças a gerir o meu tempo.
Queres dar um tempo? Eu dou-te um tempo:
Um minuto para arrumares as tuas coisas e me
desapareceres da frente! Estás contente? Isso é óptimo...
Só me ajudas a definir a relação do peso amor-ódio.
Que se fodam prioridades! Se a vida são dois dias
Eu vou dedicar um dia aos beats e outro dia às letras
Para poder escrever a melhor música de sempre
Sobre como desperdicei a vida a tentar ser diferente
Sobre os entes queridos e sobre como os esqueci para ser uma pedra de gelo
E, mesmo assim, não consegui sê-lo.
Gelo! Invejo o gelo!
O processo é lento mas pouco a pouco consigo. Afasta-me! Sem pensar se isso me afecta. Distância só vai mostrar que não era a altura certa.
Bate-me! Sem hesitar, por eu ser frágil. Essa dor só vai tornar tudo mais fácil.
Eu sei, eu sei que sou estúpida!
Ainda assim, aqui estou eu de novo à tua porta, de
coração partido e tudo.
Situações extremas exigem medidas desesperadas.
Olha para mim a espalhar pétalas de rosa pela casa.
Casa comigo, só um minuto. 
Mas, por favor, esquece e abandona-me antes de eu voltar a estragar tudo.
Porque eu vou! Inevitável. Sou imperadora da solidão no meu palácio de gelo?
Caminho sozinha, cumprimento desconhecidos.
Como uma mendiga, durmo em jornais à porta de casinos.
Tipo, só para estar integrada numa comunidade.
Nem que seja comunidade à parte da sociedade, é tranquilo.
Admito, não passa de promoção barata. O meu defeito é a minha qualidade: Não sinto nada.
E fugir era a última escapatória. Até conseguir escrever um final diferente para esta história, mas até lá...

Vocês acham que era a altura certa? Eu não acho que era a altura certa.

nerve

battle cry

Don’t grieve. Anything you lose comes round in another form.


Perder alguém não é um acto isolado. É uma sucessão. Perde-se todos os dias. Todas as horas.
Perco-te todos os dias em que tu não estás. Perco-te sempre que me faltas. Perco-te de novo em cada lembrança. P
erco-te quando não falamos. Quando acordo, encadeada com o sol que entra pela janela e, ao procurar o meu telemóvel, a esperança morre por querer ler uma mensagem que não está lá. Eu perco-te nos momentos do entretanto, nas horas de silencio, onde eu não faço mais senão pensar em ti. Perco-te quando vejo determinados filmes, quando ouço certas músicas, quando vou a certos lugares que estão preenchidos com partes tuas e com memórias de como me fazias sentir. E dói tudo como se fosse a primeira vez.
Eu costumava pensar que não sobreviveria um dia sem o teu sorriso. Sem te dizer qualquer coisa e ouvir a tua voz como resposta. Depois, esse dia chegou e foi brutalmente difícil, mas o seguinte foi pior. E soube, com um sentimento profundo, que iria ficar pior e que eu não estaria bem por longo tempo. Pensava que só podia sentir a tua falta quando estivesse sozinha, mas isso não é verdade. Eu sinto a tua falta até quando estou rodeada de pessoas. Porque elas não são tu. Mas tu estás sempre lá... em algum lado. Não consigo não pensar em ti.
Porque perder alguém não é uma ocasião ou um ponto no tempo. Não acontece uma vez. Acontece uma e outra vez. Eu perco-te todas as vezes que agarro na tua caneca preferida; sempre que oiço o teu nome na boca de outra pessoa ou quando descubro a tua t-shirt velha no fundo da pilha de roupa para lavar. Eu perco-te todas as vezes que penso em beijar-te, abraçar-te ou querer-te. Eu vou para a cama à noite e perco-te, quando desejava poder contar-te o meu dia. E de manhã, quando acordo e encontro o vazio entre os lençóis, eu começo a perder-te novamente desde o início.

O tu não estares é eu não estar em mim. O tu não estares leva-me de mim. Tens o meu pensamento contigo. Tens o meu sorriso contigo. A tua ausência sufoca-me e enrola-me em mim. A tua falta é eu faltar em mim. É ausentar-me daqui e estar aí. Faço-me falta aqui. Fazes-me falta em mim.
 (...)
A maioria das pessoas tem medo de estar mal. Tem aversão às lágrimas e à dor. Não se permitem ir lá abaixo pois têm medo de lá ficar. Vivem uma vida morna. Nem boa, nem má. Sem altos, nem baixos. Sem lágrimas, mas também sem gargalhadas. Normal.
Eu tenho medo do normal. Deixem-me chorar sozinha. Sei que quando conseguir me vou rir. Deixem-me curtir a minha dor, depois eu partilho as minhas alegrias.
Permitam-me quebrar. Chorar. Espernear. Gritar.
Assim. Parada. Literalmente em modo suspenso enquanto tu não vens. Com a vida em modo de pausa. Quieta. Calada. Imperturbável. Demoras? Por favor. Um dia, eu juro que te entendo por completo. Que te consigo ler todas as entrelinhas. Que consigo discernir o que vai dentro das tuas ideias mais recônditas. Hoje percebo o quão perdido nos teus pensamentos estás. Quão ausente de ti mesmo. Quão abominavelmente chateado te encontras.
(...)
Mas por agora... apetecia-me acordar contigo. Assim, devagarinho e à média luz. Enquanto me tomas nos teus braços e me dizes coisas bonitas. Enquanto me dás beijos intervalados com sorrisos. Ficar deitada a olhar para o mar que trazes nos teus olhos, enquanto me falas do que não sei. Fechar os olhos e quando os voltar a abrir, ainda aqui estares. Com o pequeno-almoço. Sumo de laranja e torradas. Com imensa manteiga, por favor.
Hoje, tal como ontem, apetecia-me ter acordado contigo.
Porque há coisas que não sei explicar. Que não quero sequer entender ou definir. Que sei que são sentidas e pronto. E o que se sente, pode estar para lá da razão, mas está sempre dentro de nós. 

Inexplicavelmente. Indefinidamente. Infinitamente.








     




Eu sou muito otária. Ou masoquista. Ou ambas as coisas. Sempre a tentar descobrir uma maneira diferente de me foder à grande. E o pior, ou melhor, é que consigo sempre surpreender-me. Fosse assim com tudo o resto, e seria uma mulher bem melhor. 

i'm so lonesome i could cry





Começo a achar que o teu dom é apenas o da palavra. O de enganar - ludibriar com o toque, o olhar profundo, as frases feitas, as necessidades fingidas, as saudades forçadas. Foste tão forçado e não foi a me amar, foi ao me amar. Ao chegares. Ao vires para os meus braços, ao arrancares-me de onde estava. Do sossego onde vivia. E onde era feliz. Trouxeste mais cor, dizias tu, mas agora sei que preferes o preto e o branco. O cinza, quiçá. O 8 e o 80, tudo ou nada. Existir ou desaparecer por completo. E eu não sei se te acuse ou agradeça - eu nem sei distinguir se exististe ou não. 
Foi como acordar de um sonho que foi realidade, bater com a cabeça propositadamente, curar uma ressaca, beliscar, abrir os olhos. Gritar e conseguir-me ouvir. Agarro num cigarro e tento bebericar do copo de vinho que trago na mão há mais de uma hora enquanto ouço os pássaros na rua. Eu hoje não quero ver o sol. Não quero calçar sapatos. Prefiro manter o cabelo desgrenhado e as olheiras vincadas. A música morre nas colunas e eu continuo encostada à parede. Para onde foste afinal? Será que eu existi? Será que sabes a falta que me fazes? Que preciso do teu abraço, do teu cheiro, do teu beijo? Será que tens noção de que me forçaste a seguir em frente? Que me empurraste, morreste, deixaste-me sozinha e eu tenho que fingir que nunca me aconteceste? Será que também te lembras das promessas que me fizeste, dos olhares que trocámos e dos abraços nos quais adormecemos?
 A apatia tem-me consumido e eu não merecia isto. Não depois de tudo o que fiz por ti, por nós. Por achar que eras verdadeiro, que existias, que me querias. Que nos querias. E por pensar que por sermos tão iguais, iríamos dar certo. Mal sabia eu que, por sermos tão iguais, só poderíamos dar errado. Não se completa um puzzle com duas peças iguais. Não se encaixa. Não forma nada. Continuam a ser apenas duas peças iguais - quão romântico é - que não formam absolutamente nada. Ou ingénua fui eu, por pensar que poderíamos criar algo diferente, que nunca foi inventado, porque tu, da tua maneira de viver a vida, anseias sempre por descobertas e eu pensei que me quisesses dedilhar e explorar. A todos os níveis. Ou sou vazia ou tu não és assim tão explorador ávido por desafios. No entanto, prefiro continuar a pensar que tu és um fraco. Que desististe antes do início. Que foste cobarde o suficiente para viver o que sentias e que provavelmente enganaste-te mais a ti do que a mim. Que triste que és. E no meio disto tudo, eu continuo aqui, de cigarro na mão, a beber o meu vinho e a ouvir música. Não obstante das circunstancias, prefiro acreditar que estou melhor do que tu, para não ficar pior do que já estou.
Cansei.
Acho que me cansei. Os sintomas já desapareceram completamente. O coração não dispara, as bochechas continuam com sua cor natural, as mãos não suam. Não me sinto ingénua, estou atenta. Agora, quando as tuas palavras chegarem novamente, vão encontrar respostas rápidas e secas. Não acho o teu sorriso tão lindo quanto antes. Não quero desmerecer as tuas qualidades ou cuspir no prato que comi. Aprendi muita coisa contigo, principalmente o que não fazer. Alguém precisava gostar, amar, decepcionar e escrever um texto.
Nunca imaginei que seria eu, mas acho que me curei.
Sabes qual foi o antídoto? Amor próprio.

Ninguém aguenta viver na corda bamba por muito tempo e eventualmente um de nós acabaria por cair. Caímos os dois. E mesmo com as mãos entrelaçadas, fomos embora sozinhos.

something my soul needs





No one can hate you more than someone who used to love you.


Hoje, não te olho mais para a cara. Tenho que te encontrar todas semanas, mas não te olho mais para a cara. E isso chegaria a atormentar-me um bocadinho, não fosse o lixo que me sinto em teu redor. Não há o que justificar, não quero ouvir a tua voz e só de pensar nisso sinto náuseas. Como é possível sentir tanta repulsa de alguém? Como é que alguém é incapaz de se sentir responsável por aquilo que cativa? Alhear-se, fingir que não existe, conseguir deitar a cabeça na almofada todas as noites sem ponta de arrependimento. De sentimento. Se eu te detestasse, a questão seria definitivamente mais simples. É a rejeição que dói. É saber que te quero odiar. Se eu pudesse, tornar-me tão igual a ti para finalmente poder ter uma boa noite de sono. 

Só queria poder despir o amor de sacrifícios, para mantê-lo longe de cobranças negativas e, consequentemente, de expectativas exageradas e prováveis decepções. E o mais engraçado é que sei que apenas preciso resgatar o essencial desse sentimento que é a incondicionalidade. Dar o amor sem quantificá-lo para transformá-lo em dívida, sempre a imaginar o que virá em troca de tal esforço. É pena que teime em apostar tudo para perder, em ficar sem os pés no chão porque julgo que me seguram. No momento seguinte, já não tenho a mão de ninguém.
No momento seguinte, já amo. E fico com a plena noção de que não seria metade daquilo que sou sem ti. É o ódio profundo que me dá forças para continuar em frente. E só quero continuar a odiar-te para sempre, vaguearia insegura pelas ruas se não conseguisse, sem saber o que fiz de tão errado para ser incapaz. Gostava que soubesses que sei que falas de mim sempre que tens oportunidade e esse tipo de propaganda não tem preço: ainda mais quando é assim tão enfática. Eventualmente todos ficam interessados em conhecer uma pessoa assim tão igual a ti. 
Tão diferente de ti. E convenhamos, não existe maior elogio do que ser odiada pela pessoa que mais se odeia, pelos mais odiosos motivos.Acaba por funcionar como aqueles exames médicos mais graves, em que "negativo" significa o melhor resultado possível. No fundo, deverias ser grato. Eu podia estar a fazer outras coisas - a cuidar da minha própria vida, a dedicar-me mais ao trabalho, a estudar. Mas não, eu preciso gastar o meu precioso tempo a odiar-te. A tentar com todas as minhas forças, pelo menos.

Bem, e como já deves ter percebido, isto é uma carta de amor. E não lhe podia faltar as promessas:
eu prometo nunca fazer algo que gostes, nunca mais. Muito pelo contrário, todos os dias tento ser aquela pessoa que dizes que não querias ter na tua vida. Sem valores. Sem moral. Sem princípios. De traços errados e mente muito pouco ingénua. Eu quero que fiques ainda mais nervoso quando nos cruzarmos. Prometo não mudar, principalmente nos detalhes que tu mais detestas. E sem esquecer que preciso continuar a tentar encontrar novas maneiras de te deixar irritado. Prometo, por último que, se algum dia, numas das voltas que a vida dá, tu me deixares de odiar sem qualquer motivo aparente, não vou lutar para te dar uma segunda chance. Porque o oposto do amor não é o ódio e sim a indiferença. E eu já luto tanto para que, mesmo que não me queiras amar, me odeies, que não suportaria sequer pensar em começar do zero. Porque eu não sou daquelas pessoas que se esquece de quem gosta. De quem não gosta, principalmente.

Tenho pena que não me estejas a ver neste momento, inclusive, pois verias o meu sincero sorriso de agradecimento - e ficarias a odiar-me ainda mais.

Mas eu sei que tenho que te continuar a ver todas as semanas. E que vou continuar a não olhar para a tua cara. Num desejo desenfreado de criar uma ausência grande. Preciso de uma ausência. Desesperadamente. Tanto é um remédio contra o ódio como uma arma contra o amor. E eu preciso urgentemente de ficar sem um dos dois.







Morning stars in your eyes.



Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Eu perdi a minha terceira perna. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que só com as duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência inútil da terceira faz-me falta e assusta-me, era ela que fazia de mim uma coisa palpável por mim mesma, e sem sequer precisar de procurar.
Maior que o problema de sentir que perdi a minha terceira perna, é saber que nada muda no mundo quando tu não caminhas ao meu lado, as pessoas quase não percebem que falta metade do meu corpo e que eu não posso ser muito simpática porque toda a minha energia está concentrada para eu não cair. Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém está a dar-me a mão. Porque para algumas pessoas, de uma forma inexplicável, o amor apaga-se. Para outras, o amor pura e simplesmente vai embora. Mas é claro, o amor também pode existir, mesmo que só por uma noite. No entanto, existe outra classe de amor mais cruel.
Aquele que praticamente mata as suas vítimas. Chama-se "amor não correspondido". A maioria das histórias de amor falam de pessoas que se apaixonam entre si. Mas o que acontece com os demais? E as nossas histórias? Aquelas que nos apaixonamos? Em que acordamos um dia sem uma parte de nós? Sem uma perna? Parece que ainda ontem tu olhavas para mim com essa cara banal de "espera só mais um bocadinho", sempre a tentar congelar-me enquanto conferias pela centésima vez que não havia mesmo nenhuma mulher melhor do que eu. E voltavas sempre.
(...)
Enfim. Agora as pessoas são interessantes só na minha imaginação. A partir do momento que elas passam a ter vida própria, sinto vontade de jogá-las pela minha janela. Deve-se temer mais o amor de uma mulher, do que o ódio de um homem.. E eu aprendi a amar menos, o que foi uma pena, e aprendi a ser mais cínica com a vida, o que também foi uma pena, mas necessário. Viver para sempre tão ingénua e perdida teria sido fatal. Descobri que tentar não ser ingénua é a nossa maior ingenuidade, descobri que ser inteira não me dá medo porque ser inteira já é ser muito corajosa. E no meio dos meus dias atarefados e rotinas viciadas, dou por mim muitas vezes a recordar rapidamente de todas as pessoas e coisas que perdi por ainda não estar preparada para elas, ou por ainda ter muita fome de mundo e dificuldade em ser permanente... Recordo-me dos amigos e parentes distantes, aqueles que eu deixo sempre para depois porque moram muito longe ou acabaram por se tornar pessoas muito diferentes de mim, e no final, em jeito de desfecho de raciocínio, acabo por pensar “no mês que vem falo com eles”. E se não houver mês que vem?
Num só vazio cabem imensas coisas, mas nenhuma se encaixa. Todas deslizam pelo rio de lágrimas que inundam todos os meus andares vazios. Quando eu decidir que é hora de chorar, vai ser o choro mais triste do mundo. Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correta e não foram comigo. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e a sós com ela, como um cão com seu osso.
(...)
Comecei uma dieta, cortei a bebida e comidas pesadas e, em catorze dias, perdi duas semanas. Eu achei que quando passasse o tempo, que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.  Eu deixei de sentir saudades tuas e passei a sentir a tua falta.
A saudade é quando tens a certeza de que a pessoa vai voltar. A falta, é o desejo de ter de volta aquilo que à partida já sabes que não vais ter.













pontapé de boas-vindas,

“Changing is what people do when they have no options left.”


Nós somos as escolhas que fazemos e aquelas que omitimos, a audácia que tivemos e os fantasmas aos quais sacrificamos a possível alegria e até pessoas que amamos; a vida que abraçamos e a que desperdiçamos. Dá para escolher entre ser carnívoro ou vegetariano, entre fumar ou não, entre correr na praia ou ficar um pouco mais na cama, entre jogar às cartas ou ler um livro, entre amores serenos ou paixões turbulentas. O que importa é ter a consciência de que ficar sentado à espera que a vida escolha por nós não é uma opção confortável como parece. Enquanto dormimos a pensar no dia de amanhã, deparamo-nos que o amanhã chega cedo demais e o tempo perdido foge-nos por entre os dedos.
Sempre que houver alternativas, é melhor ter cuidado. Não optes pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente aceitável, pelo honroso.
Opta pelo que faz o teu coração vibrar. Opta pelo que gostarias de fazer, apesar de todas as consequências. Porque para amar temos que estar dispostos. E antes de nos importarmos com alguém, precisamos importar-nos connosco. Parece auto-ajuda, parece fácil, mas não é. Eu importo-me comigo. E importo-me contigo. Antes do amor ser feito de dois, ele é feito de um.
É isso. A vida é feita de escolhas. E quando dás um passo à frente, inevitavelmente alguma coisa fica para trás. Porque uma pessoa imatura pensa que todas as suas escolhas geram ganhos, mas uma pessoa madura sabe que todas as escolhas tem perdas.
Faças o que fizeres, não te auto-congratules demais, nem sejas rígido demais contigo. As tuas escolhas têm sempre metade das chances de dar certo, têm sempre o acaso como seu aliado. Se a felicidade depende do que decides, é da sorte a última palavra.
É assim para toda a gente.
O melhor é cumprir nossas escolhas e abandoná-las quando for preciso, mexer e remexer na nossa trajectória, alegrar e sofrer, acreditar e descrer, seja de que maneira for, tudo se justificará, tudo dará certo. Algumas vidas até podem ser tristes, outras são desperdiçadas, mas, num sentido mais absoluto, não existe vida errada. Somos todos culpados, se quisermos. Somos todos felizes, se deixarmos.

Alguns dizem que nossas vidas são definidas pela soma das nossas escolhas. Mas não são nossas escolhas que distinguem quem somos, é o nosso compromisso com elas.

(cool kids)


00:27





Mas quando é para ir embora, é obrigação levar as mãos nos bolsos e a cabeça erguida. Não se olha para trás, porque olhar para trás é uma maneira de se ficar num pedaço qualquer para se partir incompleto, e acabamos por ser só metade. Só metade vai embora. Não se olha e não se fica.
É incompreensível como o querer o outro possa tornar-se mais forte do que o querer a si próprio. Nem tampouco compreendo como é que o querer o outro possa parecer a saída de uma solidão fatal. Mentira. Compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinha do útero da minha progenitora e de que irei embora de vez num caixão rumo ao pó. O que nós precisamos é daquilo que acontece entretanto. Do que fica no meio. Do que vivemos sem pensar que queremos. E exigimos o eterno do perecível, que idiotas.
Mas tudo isso me perturba. Eu, que pensara sempre que, de certa forma, toda a minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não-precisar-de-ninguém. Sempre aceitei todas as ausências e teimava em comparar-me a um álbum de retratos. Carreguei nas costas centenas de fotografias amarelecidas pelo tempo, em páginas que folheava detidamente durante as noites em que o sono teimava em me deixar só também.
 Acho que sou bastante forte para sair de todas as situações em que entrei, embora tenha sido suficientemente fraca para entrar. Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais
pela memória da dor que provocou e perde-se para sempre no momento em que cessa de doer, embora lateje loucamente nos dias de chuva. Fiquei tão só, aos poucos. Fui afastando as pessoas que julguei não me acrescentarem nada, e não ficaram muitas outras. Às vezes, nos fins de semana principalmente, tiro o telefone do gancho e escuto, para ver se não foi cortado. Não foi. É nestas circunstâncias que chegas à conclusão de que o teu único apoio será a mão estendida que, passo a passo, raciocinas com penosa lucidez, através de cada palavra, estarás talvez a afastar para sempre.
Às vezes sinto uma vontade ridícula de voltar. Mas é uma vontade semelhante à de não ter crescido.
E fico tão cansada. E digo para mim mesma que está errado, que não é assim, que não é esta a altura de ceder e que não é esta a vida. E fumo, e fico horas sem pensar absolutamente em nada.
Não me tomem por errónea, é preciso julgarmo-nos com o máximo de rigidez, mas não sei se serei capaz. É que as coisas por natureza já são tão duras para mim, que julgo não ter o direito de endurecê-las ainda mais. Caímos todos na mesma ratoeira. A única diferença é que uns julgam que podem escapar, enquanto outros (inclusive eu) querem chafurdar na dor do ferro enfiado na garganta seca que só humedece com café e álcool. E fumo durante horas seguidas, para ver se as horas me acabam mais depressa. Eu não estou desesperada. Não mais do que sempre estive.
Não temos tempo: somos maduros. Onde será que isso começa?
É tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros. O truque é não enlouquecer. Nem matar. Nem desistir. Pelo contrário. Se ficarmos óptimo incomodaremos mais ainda. Porque as pessoas falam coisas. E por detrás do que falam há o que sentem. E por detrás do que sentem há o que são. E o que são nem sempre se mostra. É por isso que tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir o que a vida me enfia goela abaixo. A lamber o chão por onde passam. A fumar os meus cigarros no meu canto, a guardar as beatas nos bolsos para não sujar nada. A sentir-me desprezada que nem um cão, e tudo bem. É acordar, lavar os dentes, tomar café, acender só mais um e continuar como se não se passasse nada. De tanto fingirmos acaba por se tornar verdade. Mesmo que só para nós.











 

a valsa do pavão ciumento;


Uns cosem para fora, eu coso para dentro.




É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Troco os raciocínios, salto procedimentos, tropeço no que quero pensar e falo o que nunca cheguei a querer. E é engraçado como uma das coisas mais importantes que aprendi até hoje é que se deve viver "apesar de". Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio "apesar de" que nos empurra para frente. Que nos força a fechar os olhos e dizer "seja o que Deus quiser". Mesmo que não queiramos. Foi o apesar de que me deu uma angústia insatisfeita criadora da minha própria vida. Foi o "apesar de" que parei na rua e olhei para ti enquanto não sabia se estava a ver bem: quiçá pensei estar ludibriada pela ansiedade. Ou pela vontade. Ou levemente alterada pela excitação de que, apesar de, poderias ser tu. E se fosses tu talvez eu não voltasse a perder tempo. E desde então que todos os dias corro da mesma maneira ao encontro do teu abraço, do teu corpo. Mas quero-te inteiro, com a alma também. Por isso, não faz mal se não vieres, eu espero o que for preciso.
Mas ontem fechei os olhos e descobri que a saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. O problema é que às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida. É o sentir-se a falta da pessoa mesmo quando ainda a temos à nossa frente. É agarrar para não deixar ir embora, porque no primeiro segundo em que nos sentimos sozinhos, desejamos voltar para um abraço. Um olhar. Um beijo. Um toque. É quando descobrimos que a saudade não mata mas mói. E demasiado. Porque eu descobri que fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensava que amar era fácil. E no fundo eu ainda não compreendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como uma pessoa que não seja capaz de o fazer. Muito pelo contrário. É não se entender por opção. Por ser melhor. Porque gostamos mais assim. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura e não ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando a vontade de entender um pouco começa a inquietar-nos.
É então que estragamos tudo. Equacionamos respostas que nem deveriam ser ponderadas, encenamos desfechos incrédulos, julgamos entender aquilo que um dia nos passou ao lado. E dizemos sempre que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, não me refiro ao fogo, refiro-me ao que se sente. O que se sente nunca dura, o que se sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-se o fogo, e o fogo doce arde, flameja, queima. Torna-se cinzas sem razão. Antecipamos a morte do calor porque não queremos que o fogo se apague. E é então que ele se apaga.
No meio disto tudo, tudo foi erro. Havia muito nevoeiro nas ruas e quanto mais olhava para saber se estava a ver bem, mais me convencia de que estava tudo errado. Que estar ali, àquela hora, era um erro. Que não era suposto sequer eu julgar ter-te visto. E quanto mais olhava, mais aspereza eu criava. Tudo só porque eu tinha prestado demasiada atenção. Porque quis dar um nome àquilo que via, ao que sentia. Só porque, de súbito, fui demasiado exigente, porque quis o que já tinha. Porque julguei ver aquilo que queria ver.
Aprendi que, não se estando distraído, o telefone não toca. E é preciso saírmos de casa para que a carta chegue, para que o telefone toque. Para que aquilo que é suposto ser esperado, nos chegue inesperadamente. É preciso estarmos distraídos para prestar atenção e vermos o que realmente interessa.



 

9crimes

Hoje carregas-me os prantos e os enganos, as malícias desaparecidas na escuridão que me cerca, o peso que eu tinha nas costas. Levas-me a luz que encandeia, as pedras nas quais tropeço, as roupas que me aquecem. Deixas-me nua de ti, ansiosa por um pouco mais. 
Tiras-me o sossego e a paz, a alegria que me distrai, a saudade que teimou em ficar. 
Agarras-me os abraços cansados, as palavras proferidas, as escolhas erradas.
Hoje ficas só um bocadinho para me lembrares que fiquei sem nada.
Que cada vez que me reviro na cama, procuro o teu colo para me acolher. Que ainda finjo sentir o teu cheiro pela casa. Que me tocas e me falas em surdina. Eu ainda ponho dois lugares na mesa na esperança que apareças para jantar. Deixo as luzes acesas porque acho que existe aqui mais alguém para além de mim. Mato os cigarros, um a um. Mato-me, um a um. E tu podias morrer dentro de mim, porque só essa morte me falta. Carregas-me a monotonia e a simplicidade. Levas-me o desespero e a esperança. Deixas-me a olhar para o vazio, porque é o que me resta. Tiras-me o juízo, tiras-me a loucura. Tiras-me a vontade e eu só sei desejar-te. 
Levo o peito cheio de ti, e tu já nem dás por nada...

little respect ,









Desvias o olhar como quem esconde mil segredos e em mil palavras ditas, um milhão fica por dizer. Mordes o lábio e dizes em surdina aquilo que queres, porque tens vergonha ou porque o medo te consome cada vez mais. Seria mais fácil se não tivesses esse olhar de menino maroto, se o teu cabelo não me tirasse do sério por ser tão rebelde, se as tuas bochechas não ficassem vermelhas cada vez que te encaro por mais de dois segundos. Se não tivesses um sorriso doce e se as tuas mãos não tivessem o toque de seda, quando as encostas na minha cara. Eu juro, deixava este caminho sem olhar para trás, fechava os olhos e preferia não perder tempo com assuntos acerca dos quais não possuo controle. Eu não preciso de coisas que me fogem as mãos, porque quanto mais eu as fecho para segurar, mais elas me escorregam por entre os dedos. Não se obriga uma pessoa a ficar quando aquilo que ela mais quer é ir embora. Digo-te vezes sem conta o que vi em ti e tu, teimoso, continuas a fingir que não é nada contigo, que não te afecta, que não queres, que não sabes. Que não precisas. E, de soslaio, lanças-me um olhar suplicante, como quem pede para eu insistir mais um bocadinho. Para eu te continuar a contrariar. Para eu te convencer de que precisas de mim, porque sabes que queres precisar. Só tens medo. Só queres segurança. Confiança. Saber que o caminho que estás prestes a seguir não te vai fugir debaixo dos pés. Porque já não sabes cair. Porque tens medo que ninguém te levante. Porque já te magoei e só tu sabes o quanto doeu. 

Faço das tripas coração para te chegar, para te agarrar nos meus braços e para que sintas que te podes aninhar sempre quiseres. Mostro mil arrependimentos, profiro duas mil palavras e num milhão de beijos tento entregar-te o meu amor.
É só olhar para trás e ver tudo o que mudou. Ver o que se passou. Ver o que aprendemos. E continuamos a dizer que está tudo diferente, que as ruas já não nos parecem as mesmas e que os lugares que frequentámos já não significam nada. Quem mudou fomos nós. E neste caso a distância pagou-se cara. Tu, que me voltas aos braços com um sorriso diferente, o teu cabelo já não tem o mesmo aspecto e já aprendeste a controlar a tua vergonha e embaraço quando te contemplo. Mas os teus olhos ainda não aprenderam a olhar-me sem me desejar e continuo a saber que talvez e passado tanto tempo ainda me queiras. Mesmo que tentes não me querer. Mesmo que saibas que já te fiz cair uma vez e que foste obrigado a levantar-te sozinho. E principalmente, que se a vida é um eterno regresso a casa, talvez tu só queiras voltar ao sítio que já te fez feliz. Onde perdeste a inocência e onde começaste a ganhar cicatrizes. Onde te lembras de tudo o que fomos, e guardas, numa gaveta escondida no teu coração, todas as coisas boas que já proporcionámos um ao outro.
Sei que eu ainda tenho a chave, sei que a quero abrir, mas cabe-te a ti sentires o desejo de voltar a percorrer todas as memórias e cheiros e toques e risos e piadas e choros e músicas e abraços e desejos. 
Continuas a tentar evitar olhar para dentro de mim, mas eu volto a insistir. E digo-te uma e outra vez porque é que te quero tanto. Porque é que ainda te quero tanto. O tempo perdeu-se mas nós não nos perdemos no tempo e a vida arranja sempre maneira de nos entregar o que é nosso. O que deveria ter sido nosso desde o início. Mesmo que não tenhamos visto o que estávamos a perder. 
Mas eu quero saber...
Se o futuro não nos traísse, como é que teria sido?

trouble

Do you know
For you I'd bleed myself dry?


Desengane-se quem julga que o mundo é tão utópico quanto a certeza daquilo que dizemos. Que pode ser mentira. Que pode não ser totalmente verdade. Que pode ter só uma pontinha de certeza e todo o resto de desejo e esperança de que seja mesmo assim. Na realidade, podemos ter duas coisas ao mesmo tempo e ao mesmo tempo, tê-las em separado. Se fosse simples, perderia toda a piada, certo?
Ao longo da minha vida, várias foram as vezes em que me confrontei com situações dessas: o desalinho pronunciado de sensações paralelas, uma sombra ao sol. Um arco-íris, que é fruto da água e da luz. Seria ridículo focarmo-nos apenas naquilo que julgamos controlar, porque no fundo, somos nós controlados por algo que nem sabemos o que é. Que arrastamos as escolhas que achamos que fazemos em prol daquilo que achamos que devemos. É mais ou menos o que acontece quando temos a certeza de que não faremos determinada coisa e damos por nós a fazê-la com toda a vontade e convicção do mundo. Ou então é quando achamos que para nos sentirmos apaixonados, temos que amar. Sabemos que existe paixão sem amor, mas buscamos sempre uma conjugação dos dois, amor e paixão de mãos dadas, num mundo de fantasia. Não sei quem ditou que deveria ser assim, nem desde quando é que isso um protocolo a seguir, a regra e a imposição de que só sentimos aquilo que nos obrigamos a sentir e que se nos apaixonarmos por alguém, esse alguém tem que se tornar o amor da nossa vida.
No entanto, quantas e quantas são as pessoas que se apaixonam e não aprendem a amar. E quantas são as pessoas que amam porque nunca souberam o que é sentir-se apaixonado. Ou então, quantas são as pessoas que amam porque estão numa relação mas amariam outra se pudessem admitir a paixão que sentem. Porque acabamos por nos fechar numa casa sem porta, em que nos movemos todos os dias mas paramos sempre no mesmo sítio. À espera que esteja tudo no mesmo lugar. E se estiver, é porque é certo, é porque é correcto. É porque era assim que deveria ser.
Mas... é tão bom quando resolvemos virar o nosso mundo de pernas para o ar, sentir frio na barriga e garganta seca. Arrepiarmo-nos quando sentimos o perfume da pessoa por quem estamos apaixonados. Não há nada como desarrumar o nosso mundo para que alguém nos ajude a orientarmo-nos na confusão, sem esperarmos mais nada em troca. Porque amor não se cobra. Nem tempo. Nem atenção. Muito menos presença. Se as pessoas gostarem mesmo de nós, acabam por nos dar tudo.


stayclose;don'tgo

Sabes quando acordas com a sensação de que vais viver mais do mesmo? Que já acordaste no dia de hoje, que já estiveste nesta situação. É estranho e ao mesmo tempo é a melhor coisa do mundo. É um regresso à casa da qual nunca devias ter saído.
É, talvez, a segunda oportunidade que sempre pediste para poder refazer tudo. É quando olhas com mais atenção e reparas que, afinal, a porta que julgavas que estava fechada há tanto tempo, deixa passar uma luz ténue. Porque se na vida quando se fecha uma porta, abre-se uma janela, o que é que nos impede de irmos lá e abrirmos nós próprios a porta? Sabes que foi descuido teu, que não era tua intenção fechá-la mas também não a querias entreaberta, na incerteza de um regresso que poderia nunca acontecer. E não era justo para ninguém que a porta ficasse inutilizada. Mas, mais uma vez, é quando acordas com a sensação de que sabes o caminho de cor e salteado que tentas fazer tudo com um cuidado redobrado, queres abrir a porta com cuidado e fechá-la devagarinho para que ninguém dê pela tua passagem. Com a tua passagem secreta. Porque de lá já não sais e não permites que mais ninguém entre. Decides que é de vez, que é definitivo e que não há volta a dar porque não queres voltar para trás. É fácil. É só esperar que a porta não esteja trancada. É só bater três vezes devagarinho, com o nó dos dedos, e encostar o ouvido para ver se ouves uma respiração em surdina do lado de lá. É só desejar com todas as tuas forças que ainda esteja lá alguém para te receber. Mesmo que tenham passado dias desde que partiste. Meses. Anos, muitos anos. É fácil. Mas se fosse fácil... Tu não tinhas tanto medo, não é verdade?

key ,



Eu dei-te a chave quando a porta não estava aberta, apenas há um minuto. Arranjei mil e uma maneiras de te encontrar, agarrei-me aos pedaços de tempo que me concedias e fingi que era normal, hipoteticamente. Deixaste a cama vazia e os lençóis, impregnados no teu cheiro característico, ainda roçam nas minhas pernas e solto um sorriso ou outro, como se de cócegas se tratasse. Isto sou eu a fingir. É mais fácil pensar assim, às vezes. Eu vi-te vestir a tua melhor camisa, engraxaste os sapatos que tinhas debaixo da cama a apanhar pó - pareciam sapatos de defunto, dizias tu entre gargalhadas quando te mandava aperaltar um pouco mais. Eu não precisava que fosses mais do que és, encantaste-me com as camisolas amarrotadas e as calças rasgadas nos joelhos, com as sapatilhas gastas pelo tempo e o cabelo desgrenhado de quem acabou de acordar. Mas hoje resolveste calçar aqueles sapatos. Sinceramente eu não me soube despedir porque sabia o que por aí viria. Fingi novamente. Fiz-te o café forte, e como sempre, fiquei calada. Eu dei-te a chave quando a porta não estava aberta, apenas há um minuto. Tu não a quiseste. Deixaste a chave ao meu lado, na cama, porque sabias que não precisarias dela para voltar. Já estavas num outro caminho, cujo nome desconheço. Sempre soubeste alargar os horizontes de quem tos fecha mas esqueceste-te de que os teus são os de outrem também. Era tão mais fácil se soubesses caminhar com os meus sapatos e percorresses toda a minha mente enquanto eu descanso, para que me conhecesses. Me soubesses. Me vivesses. Mas tu não. Tu crês que quando achamos que não há volta a dar, o melhor é virar em direcção contrária e voltar para onde viemos. Percorrer tudo de novo. Retroceder no futuro. Caminhar a passos longos e decididos, como se não precisasses de bagagem porque já sabes para onde voltas.
Eu dei-te a chave quando a porta não estava aberta, apenas há um minuto. Esse minuto já passou demasiadas vezes e eu ando a enlouquecer com o relógio que não pára de tiquetaquear na minha cabeça incessantemente. Tu ainda não voltaste. A chave ficou esquecida ao meu lado. Por enquanto ficarei aqui para te abrir a porta, se decidires regressar.
Quando eu decidir partir o relógio, jogar a chave fora, lavar os lençóis da cama, quebrar a tua chávena de café preferida, rasgar por completo as tuas calças, tu só vais ter esses sapatos engraxados com os quais foste embora.
E aí talvez entendas que isso não te vai levar a lugar nenhum.

even the darkness has arms



“you are here.
.
and that’s all that matters.”




Eu quero guardar todos os bocadinhos que me foram deixados. Saber que estão ali, para eu percorrê-los com o olhar, para lhes tocar uma e outra vez, para saber que foram reais, que não mos foram tirados. Que não foram embora.

Pego na minha cadeira de verga que me foi deixada por alguém de quem já não me lembro e escolho o lugar cujo luar ilumina com intensidade, mesmo junto à janela. Encontrei o gato a fechar os olhos às estrelas e, com a chávena de café numa mão e cigarro na outra, decido enxotá-lo do parapeito com um "shhh" intenso, tão intenso que quase acordei quem dormia na minha cama.
Abro apenas um bocado a janela, com medo que o vento me empurre o fumo para dentro de casa e que descubram que me levantei mais uma vez. Não consigo dormir. Não tenho conseguido dormir todos estes anos, as rugas pesam-me na cara mas as olheiras já fazem parte da minha pele. Vivem de mim e alimentam-se de todas estas noites em que fiz exactamente o mesmo: olhar para a rua. O café queima-me a boca e o cigarro vai-se queimando entre os meus dedos enquanto sussurro uma prece, regra da noite, rotina diária. E em cada palavra processada entre lábios, fecho os olhos para não me esquecer. Eu só rezo para não me esquecer. E faço sempre o exercício mental de percorrer as tuas feições vincadas e os teus lábios carnudos na ânsia de ainda me recordar dos teus vinte anos, há tantos e tantos outros atrás. Às vezes dou por mim a chorar nos cantos da casa, quando descubro que estou sozinha, porque não sei onde deixei os óculos ou porque me esqueço do que ia fazer. Mentira. Eu não choro por isso. Eu choro porque sei que é assim que se começa. Porque sei que, aos poucos, vais desaparecer de onde viveste desde sempre. E a única coisa que posso fazer é tentar lembrar-me constantemente para saber quando te vou deixar.
Eu já devia estar a dormir um sono pesado mas espero, ansiosamente, sentada na minha cadeira de verga em frente à janela e com o gato no meu regaço. De repente, sais tu. Todo aperaltado, de braço dado com uma dama que vejo todos os dias mas não conheço. Todos os domingos a mesma rotina. Tu de sapato engraxado, camisola de malha feita à mão (por ela, provavelmente) e uma careca brilhante à luz da lua. Vejo-te sorrir, já com poucos dentes, e encostas-te mais a ela para que o frio não vos enregele os dedos. Todos os domingos vejo a mesma cena. E todos os domingos pergunto a Deus porque não sou eu a dar-te a mão. A costurar-te as calças rotas. A fazer-te camisolas de malha e cachecóis de lã para te aquecer nestas noites frias. Os anos passam em ti todas as semanas, e cada dia que te vejo estás um ano mais velho, um ano mais pesado, mais cansado, mais arrastado. Vou-te vendo viver. Todos os domingos à noite, durante 6/7 minutos, vejo-te atravessar a rua em passo lento, apoiado nela, com uma barba por desfazer e um olhar vago de quem pouco vê. Carregam nos vossos ombros toda uma vida cheia de crianças e adultos, com gerações a criar gerações. Com gatos e cães e plantas no varal da janela. E pronto. Já não te vejo. Já não sei onde vais. Já não sei onde vou. E tento esquecer o que vi, mais uma vez. Percorro-te com os teus vinte anos, quando me vinhas deixar rosas à porta todos os dias e fugias do meu pai porque ele exigiu que se me quisesses namorar, teria que ser pela janela. Vejo-te a jogar à bola no pátio com os teus amigos e vejo-te também de caderno na mão, a desenhar as flores que vias no meu jardim. Ainda te consigo ouvir gritar o meu nome só para eu espreitar os beijos que me mandavas pelo ar.
Eu tenho medo de me esquecer, porque sei que já não te lembras. Tenho medo que estes anos me continuem a consumir a memória pela qual tanto luto.
Levanto-me da cadeira e arrasto-me para a cama em passo lento e consumido, com o gato a roçar-se nos meus pés enrugados e frios. As mantas não me aconchegam e tento a todo o custo conseguir fechar os olhos. Já nem consigo chorar mais. Eu sei que daqui a uma ou duas horas farás todo o caminho de volta para casa, vais demorar eternidades a abrir a porta porque as mãos já te tremem e a fechadura parece querer brincar contigo. Conheço todas as tuas rotinas e trejeitos, sei que te tratam bem e que vives cheio de amor. Sei que nunca te faltou nada porque encontraste tudo. Deixaste-me no dia em que foste embora para sempre mas eu nunca te deixei.
Namoro contigo todos os domingos pela janela e tu não sabes.