Leitor

Orangetree



Fizeram-nos acreditar que o amor mesmo, aquele amor verdadeiro, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não nos contaram que o amor não é racionado nem chega com hora marcada.

Fizeram-nos acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém na nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: nós crescemos através de nós mesmos. Se estivermos em boa companhia, é só mais rápido.

Fizeram-nos acreditar numa fórmula chamada "dois em um", duas pessoas que pensam igual, agem igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.

Fizeram-nos acreditar que o casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram-nos acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que têm pouca libido são para serem postos de lado, que os que têm muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Ninguém nos disse que chinelos velhos também têm o seu valor, já que não nos aleijam, e que existem mais cabeças tortas do que pés.

Fizeram-nos acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas são erradas, 
frustram as pessoas, são alienantes, e que poderíamos tentar outras alternativas menos convencionais.

Luto por um mundo onde não se acredite na metade da laranja
Voto por um mundo de seres mais conscientes, mais realistas; um mundo mais atual e menos fantasioso.
Sonho em viver num mundo onde ao me relacionar com alguém, ele não me delegue a responsabilidade de o fazer feliz.
Porque a metade de ti não existe, tu já nasceste completo.
Que sejamos felizes sozinhos, de forma individual. Que o outro seja apenas a pessoa com quem gostas de caminhar, e não as tuas 
muletas.

This rain.

“I don't want to be alone, I want to be left alone.”




Os grandes amores são assim mesmo, dão-nos o caminho da emoção, mas os sentimentos de verdade são apenas nossos, ninguém copia, ninguém leva, ninguém divide. E eu sinto falta da perdição involuntária que era congelar na tua presença tão insignificante. Era a vida a mostrar-se mais poderosa do que eu e minhas listas onde anoto o certo e errado. Era a natureza a provar-me ser mais óbvia do que todas as minhas crenças. Não mandava no que sentia por ti,  não aceitava, não queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes maior que a minha. Eu amava-te por causa da vida e não por minha causa. E isso era lindo. Tu eras lindo. Simplesmente isso. Tu, uma pessoa sem poesia, sem dor, sem assunto para aguentar o silêncio, sem alma para aguentar apenas a nossa presença, sem tempo para que o tempo parasse. Tu, a pessoa que eu ainda vejo a passar no corredor e a levar-me embora, responsável por todas as minhas manhãs sem esperança, noites sem aconchego, tardes sem beleza.
Sinto falta de quando a imensa distância ainda me deixava ver-te do outro lado da rua, a passar apressado com teus ombros perfeitos. Sinto falta de me lembrar que tu vias tanto, que preferias fingir que não vias nada. Sinto falta da tua tristeza, disfarçada em arrogância, de não prestares atenção, de não teres nem amor, nem vida, nem paciência, nem músculos, nem medo, nem alma suficientes para me prender.
Prometi não tentar entender e apenas sentir, sentir mais uma vez, sentir apenas a falta de tocar na tua pele lisa, nos teus lábios, sinto falta do mistério que era amar a última pessoa do mundo que eu amaria.
Tenho um milhão de motivos para fugir de pensar em ti, mas em todos esses sítios tu vais comigo. Seguras a minha mão na hora de atravessar a rua, olhas-me triste quando eu olho para o telemóvel pela milésima vez, sentes orgulho de mim quando solto uma gargalhada e viras a cara se algum homem vem falar comigo. Preferes não ver, mas eu vejo-te o tempo todo.
Acho normal. Acho perfeitamente normal lembrar com carinho e saudade o facto de que tu arranjavas sempre maneira de me mandar mensagens em datas festivas. Estivesses tu casado ou a namorar ou preso num templo budista, arranjavas sempre maneira. Era como se dissesses, sem dizer “eu sei que já passou muito tempo, mas ainda te amo”.

és

Há uma coisa arbitrária que eu tenho para te dizer: tu tens o meu tipo preferido de beleza, que é a beleza que surge da felicidade profunda. É isso que eu vejo quando olho para as tuas fotografias; penso sempre "uau, que pessoa feliz!" e é isso que nos torna mesmo bonitos. A minha boca ainda não se calou desde que tu a beijaste. A ideia de que poderás, eventualmente, beijá-la novamente ficou presa no meu cérebro, que ainda não parou de pensar em ti desde que, bem, antes de qualquer beijo. E agora a prospetiva desses beijos parece atingir-me como um furacão quando sobes as escadas e páras num degrau para olhar para mim. Certas pessoas são assim, um olhar meigo, uma maneira doce de ser, uma beleza indescritível, gestos, modos, falar, pensar e agir. Que nos vão cativando, conquistando, e quando damos por nós, estamos ali, a admirar, sem nada a dizer, para alguém que é belo, pelo simples facto de existir. 

Oceans

Com o tempo, quanto mais madura e segura de mim mesma me tornei, mais verifiquei que eu há poucos anos atrás ainda fazia parte de um grupo mundial de pessoas cujo coração acredita no bem dos outros sem sequer pestanejar. 
Eu acreditava piamente que as pessoas tinham o direito de errar sempre, porque eram humanas. Eu acreditava que se amasse alguém, isso bastaria para que a pessoa nunca me desiludisse. Achava que o meu amor por essa pessoa bastaria para que a pessoa, ciente do meu amor, se acautelasse com as suas acções. Note-se que eu raramente amei pessoas (amigos, família). Amor é um sentimento para mim muito raro. Tão raro que as pessoas que amei ou amo contam-se pelos dedos de uma mão. Eu posso gostar das pessoas. Mas amá-las, isso é uma história completamente diferente que daria para grandes livros.
Enfim. Acreditava no bem das pessoas. No lado bom. Arranjava justificações para o seu lado mau. Era devido a algo que correra mal. Era devido ao mau tempo. Era devido a terem dormido mal. Era devido a estarem frustradas. Era devido às suas tristezas ou depressão. Era devido à chuva que naquele dia estava mais forte.
Quanto mais segura de mim me tornei e quanto mais cresci mentalmente, mais me apercebi de que as pessoas têm o direito de errar, mas que se alguém errar grandemente connosco, ou mais do que as vezes aceitáveis, o mínimo que devemos de exigir à nossa própria auto-estima é que as arrasemos de tal maneira que nunca mais levantam um dedo para nos incomodarem. 
Tornei-me, assim e à custa de muito esforço, uma pessoa tão segura de si que acredito piamente que isso me trouxe coisas muito boas, como ter-me protegido contra falsos sentimentalismos, desilusões, frustrações e pessoas que, dita a boa da verdade (que isto não há nada como a verdade) não valiam o esforço de as entender, ou desculpar. Também me trouxe (como tudo na vida tem dois lados) um lado menos positivo, que foi ter-me tornado pouco sensível a determinados momentos. 

Actualmente, é preciso realmente muito, para me incomodarem. Eu sei perfeitamente o que quero, como quero e o que tolero que me digam. E se a pessoa em questão achar por bem ou por graça testar os meus limites e começar a desconversar ou a não respeitar o que eu digo, pois pode ter a certeza que sai da conversa mais arrasada do que um animal atropelado por um camião TIR em alta rodagem. 
Uma pessoa já muito sábia e com muitos anos na pele, disse-me, há dois anos atrás, que nós é que ensinamos aos outros como é que queremos que nos tratem. Se lhes ensinamos que nos podem tratar mal ou faltar-nos ao respeito, eles vão fazer exactamente como lhes ensinámos. Se lhes ensinamos que os amamos no matter what, eles vão testar essa teoria e fazer tudo o que lhes apetecer, porque afinal de contas, nós os amamos no matter what
Este é só o maior erro da história da humanidade. Gostarmos dos outros sem restrições ou racionalidade. Cada vez mais acredito que a racionalidade é um bem essencial às relações humanas. Se só racionalidade é bom? Não. De maneira nenhuma. Continuo a achar que podemos amar alguém com todo o nosso coração. Mas tenho a certeza absoluta de que devemos levar o nosso cérebro connosco.


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Há quem chame de coincidência, acaso, destino; há quem diga que certas coisas estão escritas, que o que tem que acontecer, querendo ou não, acontece. Prefiro dizer que, não importa se foi um motivo de força maior, superior, divina, se foi uma mãozinha de Deus, Buda, Alá ou um empurrão das estrelas, cometas, alienígenas, gnomos, fadas, anjos, o que importa é que o encontro aconteceu. Não um encontro de olhos, mãos, bocas, braços, mas um encontro de corações cansados. De procurar sem achar, de achar só o que era descartavelmente vulgar.
Então percebi que o amor é um senhor teimoso de braços cruzados, emburrado até conseguir aquilo que quer. Descobri que podes até cruzar o mundo, virar-te do avesso. Mudar os teus gostos, os teus planos. Podes até casar várias vezes. Ter filhos e mudar de cidade. Mas o que tiver que ser teu, sempre será. Não vale a pena chatearmo-nos com o amor. Ele até pode dar um tempo, tréguas, mas quando escolhe duas vidas, ambas viram bússola uma da outra. Não se perdem e muito menos se desconectam.
O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, não conhece a linha recta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em função de um resultado final, portanto conhecido, é imaginar o destino como uma flecha apontada directamente a um alvo que, por assim dizer, estivesse a sua espera desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se.
O que verdadeiramente se passa não é que as coisas acontecem a cada um segundo determinado destino, mas que cada um interpreta as coisas que lhe aconteceram, se tem capacidade para tal, dispondo-as em determinado sentido - o que significa, segundo determinado destino.
Podemos muito bem, se for esse o nosso desejo, vaguear sem destino pelo vasto mundo do acaso. Que é como quem diz, sem raízes, exactamente da mesma maneira que a semente alada de certas plantas esvoaça ao sabor da brisa primaveril.
E, contudo, não faltará ao mesmo tempo quem negue a existência daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que está feito, feito está, o que tem se ser tem muita força e por aí fora. Por outras palavras, quer queiramos quer não, a nossa existência resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o «tudo» que ficou para trás e o «nada» que temos pela frente. Decididamente, neste mundo, não há lugar para as coincidências nem para as probabilidades.
Na verdade, porém, não se pode dizer que entre esses dois pontos de vista exista uma grande diferença. O que se passa - como, de resto, em qualquer confronto de opiniões - é o mesmo que sucede com certos pratos culinários: são conhecidos por nomes diferentes mas, na prática, o resultado não varia. 

Se o medo tivesse sido mais forte do que eu talvez nós não estivéssemos aqui, agora, juntos, unidos, felizes, achados, encontrados e perdidos no meio de um sentimento que, até então, eu desconhecia. E, que bom, eu fui valente. E, que bom, a tua valentia deu um chega pra lá nos pseudo-receios que apareciam e desapareciam pelo meio do caminho. E, que bom, amar-te faz com que tu te ames mais. E, que bom, o teu amor faz com que eu me ame mais. Até que nada nos separe.






gelo







Vocês acham que era a altura certa? Eu não acho que era a altura certa.

Eles dizem que passa com a idade, mas a idade passa
E ainda nada. Nada, e o tempo não suaviza...
Ele diz que sou de gelo, mas a verdade é que ainda sinto
Todas as queimaduras na pele e nenhuma cicatriza
Desculpa! Esgotei as forças a gerir o meu tempo.
Queres dar um tempo? Eu dou-te um tempo:
Um minuto para arrumares as tuas coisas e me
desapareceres da frente! Estás contente? Isso é óptimo...
Só me ajudas a definir a relação do peso amor-ódio.
Que se fodam prioridades! Se a vida são dois dias
Eu vou dedicar um dia aos beats e outro dia às letras
Para poder escrever a melhor música de sempre
Sobre como desperdicei a vida a tentar ser diferente
Sobre os entes queridos e sobre como os esqueci para ser uma pedra de gelo
E, mesmo assim, não consegui sê-lo.
Gelo! Invejo o gelo!
O processo é lento mas pouco a pouco consigo. Afasta-me! Sem pensar se isso me afecta. Distância só vai mostrar que não era a altura certa.
Bate-me! Sem hesitar, por eu ser frágil. Essa dor só vai tornar tudo mais fácil.
Eu sei, eu sei que sou estúpida!
Ainda assim, aqui estou eu de novo à tua porta, de
coração partido e tudo.
Situações extremas exigem medidas desesperadas.
Olha para mim a espalhar pétalas de rosa pela casa.
Casa comigo, só um minuto. 
Mas, por favor, esquece e abandona-me antes de eu voltar a estragar tudo.
Porque eu vou! Inevitável. Sou imperadora da solidão no meu palácio de gelo?
Caminho sozinha, cumprimento desconhecidos.
Como uma mendiga, durmo em jornais à porta de casinos.
Tipo, só para estar integrada numa comunidade.
Nem que seja comunidade à parte da sociedade, é tranquilo.
Admito, não passa de promoção barata. O meu defeito é a minha qualidade: Não sinto nada.
E fugir era a última escapatória. Até conseguir escrever um final diferente para esta história, mas até lá...

Vocês acham que era a altura certa? Eu não acho que era a altura certa.

nerve

battle cry

Don’t grieve. Anything you lose comes round in another form.


Perder alguém não é um acto isolado. É uma sucessão. Perde-se todos os dias. Todas as horas.
Perco-te todos os dias em que tu não estás. Perco-te sempre que me faltas. Perco-te de novo em cada lembrança. P
erco-te quando não falamos. Quando acordo, encadeada com o sol que entra pela janela e, ao procurar o meu telemóvel, a esperança morre por querer ler uma mensagem que não está lá. Eu perco-te nos momentos do entretanto, nas horas de silencio, onde eu não faço mais senão pensar em ti. Perco-te quando vejo determinados filmes, quando ouço certas músicas, quando vou a certos lugares que estão preenchidos com partes tuas e com memórias de como me fazias sentir. E dói tudo como se fosse a primeira vez.
Eu costumava pensar que não sobreviveria um dia sem o teu sorriso. Sem te dizer qualquer coisa e ouvir a tua voz como resposta. Depois, esse dia chegou e foi brutalmente difícil, mas o seguinte foi pior. E soube, com um sentimento profundo, que iria ficar pior e que eu não estaria bem por longo tempo. Pensava que só podia sentir a tua falta quando estivesse sozinha, mas isso não é verdade. Eu sinto a tua falta até quando estou rodeada de pessoas. Porque elas não são tu. Mas tu estás sempre lá... em algum lado. Não consigo não pensar em ti.
Porque perder alguém não é uma ocasião ou um ponto no tempo. Não acontece uma vez. Acontece uma e outra vez. Eu perco-te todas as vezes que agarro na tua caneca preferida; sempre que oiço o teu nome na boca de outra pessoa ou quando descubro a tua t-shirt velha no fundo da pilha de roupa para lavar. Eu perco-te todas as vezes que penso em beijar-te, abraçar-te ou querer-te. Eu vou para a cama à noite e perco-te, quando desejava poder contar-te o meu dia. E de manhã, quando acordo e encontro o vazio entre os lençóis, eu começo a perder-te novamente desde o início.

O tu não estares é eu não estar em mim. O tu não estares leva-me de mim. Tens o meu pensamento contigo. Tens o meu sorriso contigo. A tua ausência sufoca-me e enrola-me em mim. A tua falta é eu faltar em mim. É ausentar-me daqui e estar aí. Faço-me falta aqui. Fazes-me falta em mim.
 (...)
A maioria das pessoas tem medo de estar mal. Tem aversão às lágrimas e à dor. Não se permitem ir lá abaixo pois têm medo de lá ficar. Vivem uma vida morna. Nem boa, nem má. Sem altos, nem baixos. Sem lágrimas, mas também sem gargalhadas. Normal.
Eu tenho medo do normal. Deixem-me chorar sozinha. Sei que quando conseguir me vou rir. Deixem-me curtir a minha dor, depois eu partilho as minhas alegrias.
Permitam-me quebrar. Chorar. Espernear. Gritar.
Assim. Parada. Literalmente em modo suspenso enquanto tu não vens. Com a vida em modo de pausa. Quieta. Calada. Imperturbável. Demoras? Por favor. Um dia, eu juro que te entendo por completo. Que te consigo ler todas as entrelinhas. Que consigo discernir o que vai dentro das tuas ideias mais recônditas. Hoje percebo o quão perdido nos teus pensamentos estás. Quão ausente de ti mesmo. Quão abominavelmente chateado te encontras.
(...)
Mas por agora... apetecia-me acordar contigo. Assim, devagarinho e à média luz. Enquanto me tomas nos teus braços e me dizes coisas bonitas. Enquanto me dás beijos intervalados com sorrisos. Ficar deitada a olhar para o mar que trazes nos teus olhos, enquanto me falas do que não sei. Fechar os olhos e quando os voltar a abrir, ainda aqui estares. Com o pequeno-almoço. Sumo de laranja e torradas. Com imensa manteiga, por favor.
Hoje, tal como ontem, apetecia-me ter acordado contigo.
Porque há coisas que não sei explicar. Que não quero sequer entender ou definir. Que sei que são sentidas e pronto. E o que se sente, pode estar para lá da razão, mas está sempre dentro de nós. 

Inexplicavelmente. Indefinidamente. Infinitamente.








     




Eu sou muito otária. Ou masoquista. Ou ambas as coisas. Sempre a tentar descobrir uma maneira diferente de me foder à grande. E o pior, ou melhor, é que consigo sempre surpreender-me. Fosse assim com tudo o resto, e seria uma mulher bem melhor. 

i'm so lonesome i could cry





Começo a achar que o teu dom é apenas o da palavra. O de enganar - ludibriar com o toque, o olhar profundo, as frases feitas, as necessidades fingidas, as saudades forçadas. Foste tão forçado e não foi a me amar, foi ao me amar. Ao chegares. Ao vires para os meus braços, ao arrancares-me de onde estava. Do sossego onde vivia. E onde era feliz. Trouxeste mais cor, dizias tu, mas agora sei que preferes o preto e o branco. O cinza, quiçá. O 8 e o 80, tudo ou nada. Existir ou desaparecer por completo. E eu não sei se te acuse ou agradeça - eu nem sei distinguir se exististe ou não. 
Foi como acordar de um sonho que foi realidade, bater com a cabeça propositadamente, curar uma ressaca, beliscar, abrir os olhos. Gritar e conseguir-me ouvir. Agarro num cigarro e tento bebericar do copo de vinho que trago na mão há mais de uma hora enquanto ouço os pássaros na rua. Eu hoje não quero ver o sol. Não quero calçar sapatos. Prefiro manter o cabelo desgrenhado e as olheiras vincadas. A música morre nas colunas e eu continuo encostada à parede. Para onde foste afinal? Será que eu existi? Será que sabes a falta que me fazes? Que preciso do teu abraço, do teu cheiro, do teu beijo? Será que tens noção de que me forçaste a seguir em frente? Que me empurraste, morreste, deixaste-me sozinha e eu tenho que fingir que nunca me aconteceste? Será que também te lembras das promessas que me fizeste, dos olhares que trocámos e dos abraços nos quais adormecemos?
 A apatia tem-me consumido e eu não merecia isto. Não depois de tudo o que fiz por ti, por nós. Por achar que eras verdadeiro, que existias, que me querias. Que nos querias. E por pensar que por sermos tão iguais, iríamos dar certo. Mal sabia eu que, por sermos tão iguais, só poderíamos dar errado. Não se completa um puzzle com duas peças iguais. Não se encaixa. Não forma nada. Continuam a ser apenas duas peças iguais - quão romântico é - que não formam absolutamente nada. Ou ingénua fui eu, por pensar que poderíamos criar algo diferente, que nunca foi inventado, porque tu, da tua maneira de viver a vida, anseias sempre por descobertas e eu pensei que me quisesses dedilhar e explorar. A todos os níveis. Ou sou vazia ou tu não és assim tão explorador ávido por desafios. No entanto, prefiro continuar a pensar que tu és um fraco. Que desististe antes do início. Que foste cobarde o suficiente para viver o que sentias e que provavelmente enganaste-te mais a ti do que a mim. Que triste que és. E no meio disto tudo, eu continuo aqui, de cigarro na mão, a beber o meu vinho e a ouvir música. Não obstante das circunstancias, prefiro acreditar que estou melhor do que tu, para não ficar pior do que já estou.
Cansei.
Acho que me cansei. Os sintomas já desapareceram completamente. O coração não dispara, as bochechas continuam com sua cor natural, as mãos não suam. Não me sinto ingénua, estou atenta. Agora, quando as tuas palavras chegarem novamente, vão encontrar respostas rápidas e secas. Não acho o teu sorriso tão lindo quanto antes. Não quero desmerecer as tuas qualidades ou cuspir no prato que comi. Aprendi muita coisa contigo, principalmente o que não fazer. Alguém precisava gostar, amar, decepcionar e escrever um texto.
Nunca imaginei que seria eu, mas acho que me curei.
Sabes qual foi o antídoto? Amor próprio.

Ninguém aguenta viver na corda bamba por muito tempo e eventualmente um de nós acabaria por cair. Caímos os dois. E mesmo com as mãos entrelaçadas, fomos embora sozinhos.

something my soul needs





No one can hate you more than someone who used to love you.


Hoje, não te olho mais para a cara. Tenho que te encontrar todas semanas, mas não te olho mais para a cara. E isso chegaria a atormentar-me um bocadinho, não fosse o lixo que me sinto em teu redor. Não há o que justificar, não quero ouvir a tua voz e só de pensar nisso sinto náuseas. Como é possível sentir tanta repulsa de alguém? Como é que alguém é incapaz de se sentir responsável por aquilo que cativa? Alhear-se, fingir que não existe, conseguir deitar a cabeça na almofada todas as noites sem ponta de arrependimento. De sentimento. Se eu te detestasse, a questão seria definitivamente mais simples. É a rejeição que dói. É saber que te quero odiar. Se eu pudesse, tornar-me tão igual a ti para finalmente poder ter uma boa noite de sono. 

Só queria poder despir o amor de sacrifícios, para mantê-lo longe de cobranças negativas e, consequentemente, de expectativas exageradas e prováveis decepções. E o mais engraçado é que sei que apenas preciso resgatar o essencial desse sentimento que é a incondicionalidade. Dar o amor sem quantificá-lo para transformá-lo em dívida, sempre a imaginar o que virá em troca de tal esforço. É pena que teime em apostar tudo para perder, em ficar sem os pés no chão porque julgo que me seguram. No momento seguinte, já não tenho a mão de ninguém.
No momento seguinte, já amo. E fico com a plena noção de que não seria metade daquilo que sou sem ti. É o ódio profundo que me dá forças para continuar em frente. E só quero continuar a odiar-te para sempre, vaguearia insegura pelas ruas se não conseguisse, sem saber o que fiz de tão errado para ser incapaz. Gostava que soubesses que sei que falas de mim sempre que tens oportunidade e esse tipo de propaganda não tem preço: ainda mais quando é assim tão enfática. Eventualmente todos ficam interessados em conhecer uma pessoa assim tão igual a ti. 
Tão diferente de ti. E convenhamos, não existe maior elogio do que ser odiada pela pessoa que mais se odeia, pelos mais odiosos motivos.Acaba por funcionar como aqueles exames médicos mais graves, em que "negativo" significa o melhor resultado possível. No fundo, deverias ser grato. Eu podia estar a fazer outras coisas - a cuidar da minha própria vida, a dedicar-me mais ao trabalho, a estudar. Mas não, eu preciso gastar o meu precioso tempo a odiar-te. A tentar com todas as minhas forças, pelo menos.

Bem, e como já deves ter percebido, isto é uma carta de amor. E não lhe podia faltar as promessas:
eu prometo nunca fazer algo que gostes, nunca mais. Muito pelo contrário, todos os dias tento ser aquela pessoa que dizes que não querias ter na tua vida. Sem valores. Sem moral. Sem princípios. De traços errados e mente muito pouco ingénua. Eu quero que fiques ainda mais nervoso quando nos cruzarmos. Prometo não mudar, principalmente nos detalhes que tu mais detestas. E sem esquecer que preciso continuar a tentar encontrar novas maneiras de te deixar irritado. Prometo, por último que, se algum dia, numas das voltas que a vida dá, tu me deixares de odiar sem qualquer motivo aparente, não vou lutar para te dar uma segunda chance. Porque o oposto do amor não é o ódio e sim a indiferença. E eu já luto tanto para que, mesmo que não me queiras amar, me odeies, que não suportaria sequer pensar em começar do zero. Porque eu não sou daquelas pessoas que se esquece de quem gosta. De quem não gosta, principalmente.

Tenho pena que não me estejas a ver neste momento, inclusive, pois verias o meu sincero sorriso de agradecimento - e ficarias a odiar-me ainda mais.

Mas eu sei que tenho que te continuar a ver todas as semanas. E que vou continuar a não olhar para a tua cara. Num desejo desenfreado de criar uma ausência grande. Preciso de uma ausência. Desesperadamente. Tanto é um remédio contra o ódio como uma arma contra o amor. E eu preciso urgentemente de ficar sem um dos dois.







Morning stars in your eyes.



Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Eu perdi a minha terceira perna. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que só com as duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência inútil da terceira faz-me falta e assusta-me, era ela que fazia de mim uma coisa palpável por mim mesma, e sem sequer precisar de procurar.
Maior que o problema de sentir que perdi a minha terceira perna, é saber que nada muda no mundo quando tu não caminhas ao meu lado, as pessoas quase não percebem que falta metade do meu corpo e que eu não posso ser muito simpática porque toda a minha energia está concentrada para eu não cair. Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém está a dar-me a mão. Porque para algumas pessoas, de uma forma inexplicável, o amor apaga-se. Para outras, o amor pura e simplesmente vai embora. Mas é claro, o amor também pode existir, mesmo que só por uma noite. No entanto, existe outra classe de amor mais cruel.
Aquele que praticamente mata as suas vítimas. Chama-se "amor não correspondido". A maioria das histórias de amor falam de pessoas que se apaixonam entre si. Mas o que acontece com os demais? E as nossas histórias? Aquelas que nos apaixonamos? Em que acordamos um dia sem uma parte de nós? Sem uma perna? Parece que ainda ontem tu olhavas para mim com essa cara banal de "espera só mais um bocadinho", sempre a tentar congelar-me enquanto conferias pela centésima vez que não havia mesmo nenhuma mulher melhor do que eu. E voltavas sempre.
(...)
Enfim. Agora as pessoas são interessantes só na minha imaginação. A partir do momento que elas passam a ter vida própria, sinto vontade de jogá-las pela minha janela. Deve-se temer mais o amor de uma mulher, do que o ódio de um homem.. E eu aprendi a amar menos, o que foi uma pena, e aprendi a ser mais cínica com a vida, o que também foi uma pena, mas necessário. Viver para sempre tão ingénua e perdida teria sido fatal. Descobri que tentar não ser ingénua é a nossa maior ingenuidade, descobri que ser inteira não me dá medo porque ser inteira já é ser muito corajosa. E no meio dos meus dias atarefados e rotinas viciadas, dou por mim muitas vezes a recordar rapidamente de todas as pessoas e coisas que perdi por ainda não estar preparada para elas, ou por ainda ter muita fome de mundo e dificuldade em ser permanente... Recordo-me dos amigos e parentes distantes, aqueles que eu deixo sempre para depois porque moram muito longe ou acabaram por se tornar pessoas muito diferentes de mim, e no final, em jeito de desfecho de raciocínio, acabo por pensar “no mês que vem falo com eles”. E se não houver mês que vem?
Num só vazio cabem imensas coisas, mas nenhuma se encaixa. Todas deslizam pelo rio de lágrimas que inundam todos os meus andares vazios. Quando eu decidir que é hora de chorar, vai ser o choro mais triste do mundo. Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correta e não foram comigo. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e a sós com ela, como um cão com seu osso.
(...)
Comecei uma dieta, cortei a bebida e comidas pesadas e, em catorze dias, perdi duas semanas. Eu achei que quando passasse o tempo, que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.  Eu deixei de sentir saudades tuas e passei a sentir a tua falta.
A saudade é quando tens a certeza de que a pessoa vai voltar. A falta, é o desejo de ter de volta aquilo que à partida já sabes que não vais ter.













pontapé de boas-vindas,

“Changing is what people do when they have no options left.”


Nós somos as escolhas que fazemos e aquelas que omitimos, a audácia que tivemos e os fantasmas aos quais sacrificamos a possível alegria e até pessoas que amamos; a vida que abraçamos e a que desperdiçamos. Dá para escolher entre ser carnívoro ou vegetariano, entre fumar ou não, entre correr na praia ou ficar um pouco mais na cama, entre jogar às cartas ou ler um livro, entre amores serenos ou paixões turbulentas. O que importa é ter a consciência de que ficar sentado à espera que a vida escolha por nós não é uma opção confortável como parece. Enquanto dormimos a pensar no dia de amanhã, deparamo-nos que o amanhã chega cedo demais e o tempo perdido foge-nos por entre os dedos.
Sempre que houver alternativas, é melhor ter cuidado. Não optes pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente aceitável, pelo honroso.
Opta pelo que faz o teu coração vibrar. Opta pelo que gostarias de fazer, apesar de todas as consequências. Porque para amar temos que estar dispostos. E antes de nos importarmos com alguém, precisamos importar-nos connosco. Parece auto-ajuda, parece fácil, mas não é. Eu importo-me comigo. E importo-me contigo. Antes do amor ser feito de dois, ele é feito de um.
É isso. A vida é feita de escolhas. E quando dás um passo à frente, inevitavelmente alguma coisa fica para trás. Porque uma pessoa imatura pensa que todas as suas escolhas geram ganhos, mas uma pessoa madura sabe que todas as escolhas tem perdas.
Faças o que fizeres, não te auto-congratules demais, nem sejas rígido demais contigo. As tuas escolhas têm sempre metade das chances de dar certo, têm sempre o acaso como seu aliado. Se a felicidade depende do que decides, é da sorte a última palavra.
É assim para toda a gente.
O melhor é cumprir nossas escolhas e abandoná-las quando for preciso, mexer e remexer na nossa trajectória, alegrar e sofrer, acreditar e descrer, seja de que maneira for, tudo se justificará, tudo dará certo. Algumas vidas até podem ser tristes, outras são desperdiçadas, mas, num sentido mais absoluto, não existe vida errada. Somos todos culpados, se quisermos. Somos todos felizes, se deixarmos.

Alguns dizem que nossas vidas são definidas pela soma das nossas escolhas. Mas não são nossas escolhas que distinguem quem somos, é o nosso compromisso com elas.

(cool kids)


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Mas quando é para ir embora, é obrigação levar as mãos nos bolsos e a cabeça erguida. Não se olha para trás, porque olhar para trás é uma maneira de se ficar num pedaço qualquer para se partir incompleto, e acabamos por ser só metade. Só metade vai embora. Não se olha e não se fica.
É incompreensível como o querer o outro possa tornar-se mais forte do que o querer a si próprio. Nem tampouco compreendo como é que o querer o outro possa parecer a saída de uma solidão fatal. Mentira. Compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinha do útero da minha progenitora e de que irei embora de vez num caixão rumo ao pó. O que nós precisamos é daquilo que acontece entretanto. Do que fica no meio. Do que vivemos sem pensar que queremos. E exigimos o eterno do perecível, que idiotas.
Mas tudo isso me perturba. Eu, que pensara sempre que, de certa forma, toda a minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não-precisar-de-ninguém. Sempre aceitei todas as ausências e teimava em comparar-me a um álbum de retratos. Carreguei nas costas centenas de fotografias amarelecidas pelo tempo, em páginas que folheava detidamente durante as noites em que o sono teimava em me deixar só também.
 Acho que sou bastante forte para sair de todas as situações em que entrei, embora tenha sido suficientemente fraca para entrar. Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais
pela memória da dor que provocou e perde-se para sempre no momento em que cessa de doer, embora lateje loucamente nos dias de chuva. Fiquei tão só, aos poucos. Fui afastando as pessoas que julguei não me acrescentarem nada, e não ficaram muitas outras. Às vezes, nos fins de semana principalmente, tiro o telefone do gancho e escuto, para ver se não foi cortado. Não foi. É nestas circunstâncias que chegas à conclusão de que o teu único apoio será a mão estendida que, passo a passo, raciocinas com penosa lucidez, através de cada palavra, estarás talvez a afastar para sempre.
Às vezes sinto uma vontade ridícula de voltar. Mas é uma vontade semelhante à de não ter crescido.
E fico tão cansada. E digo para mim mesma que está errado, que não é assim, que não é esta a altura de ceder e que não é esta a vida. E fumo, e fico horas sem pensar absolutamente em nada.
Não me tomem por errónea, é preciso julgarmo-nos com o máximo de rigidez, mas não sei se serei capaz. É que as coisas por natureza já são tão duras para mim, que julgo não ter o direito de endurecê-las ainda mais. Caímos todos na mesma ratoeira. A única diferença é que uns julgam que podem escapar, enquanto outros (inclusive eu) querem chafurdar na dor do ferro enfiado na garganta seca que só humedece com café e álcool. E fumo durante horas seguidas, para ver se as horas me acabam mais depressa. Eu não estou desesperada. Não mais do que sempre estive.
Não temos tempo: somos maduros. Onde será que isso começa?
É tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros. O truque é não enlouquecer. Nem matar. Nem desistir. Pelo contrário. Se ficarmos óptimo incomodaremos mais ainda. Porque as pessoas falam coisas. E por detrás do que falam há o que sentem. E por detrás do que sentem há o que são. E o que são nem sempre se mostra. É por isso que tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir o que a vida me enfia goela abaixo. A lamber o chão por onde passam. A fumar os meus cigarros no meu canto, a guardar as beatas nos bolsos para não sujar nada. A sentir-me desprezada que nem um cão, e tudo bem. É acordar, lavar os dentes, tomar café, acender só mais um e continuar como se não se passasse nada. De tanto fingirmos acaba por se tornar verdade. Mesmo que só para nós.











 

a valsa do pavão ciumento;


Uns cosem para fora, eu coso para dentro.




É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Troco os raciocínios, salto procedimentos, tropeço no que quero pensar e falo o que nunca cheguei a querer. E é engraçado como uma das coisas mais importantes que aprendi até hoje é que se deve viver "apesar de". Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio "apesar de" que nos empurra para frente. Que nos força a fechar os olhos e dizer "seja o que Deus quiser". Mesmo que não queiramos. Foi o apesar de que me deu uma angústia insatisfeita criadora da minha própria vida. Foi o "apesar de" que parei na rua e olhei para ti enquanto não sabia se estava a ver bem: quiçá pensei estar ludibriada pela ansiedade. Ou pela vontade. Ou levemente alterada pela excitação de que, apesar de, poderias ser tu. E se fosses tu talvez eu não voltasse a perder tempo. E desde então que todos os dias corro da mesma maneira ao encontro do teu abraço, do teu corpo. Mas quero-te inteiro, com a alma também. Por isso, não faz mal se não vieres, eu espero o que for preciso.
Mas ontem fechei os olhos e descobri que a saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. O problema é que às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida. É o sentir-se a falta da pessoa mesmo quando ainda a temos à nossa frente. É agarrar para não deixar ir embora, porque no primeiro segundo em que nos sentimos sozinhos, desejamos voltar para um abraço. Um olhar. Um beijo. Um toque. É quando descobrimos que a saudade não mata mas mói. E demasiado. Porque eu descobri que fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensava que amar era fácil. E no fundo eu ainda não compreendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como uma pessoa que não seja capaz de o fazer. Muito pelo contrário. É não se entender por opção. Por ser melhor. Porque gostamos mais assim. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura e não ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando a vontade de entender um pouco começa a inquietar-nos.
É então que estragamos tudo. Equacionamos respostas que nem deveriam ser ponderadas, encenamos desfechos incrédulos, julgamos entender aquilo que um dia nos passou ao lado. E dizemos sempre que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, não me refiro ao fogo, refiro-me ao que se sente. O que se sente nunca dura, o que se sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-se o fogo, e o fogo doce arde, flameja, queima. Torna-se cinzas sem razão. Antecipamos a morte do calor porque não queremos que o fogo se apague. E é então que ele se apaga.
No meio disto tudo, tudo foi erro. Havia muito nevoeiro nas ruas e quanto mais olhava para saber se estava a ver bem, mais me convencia de que estava tudo errado. Que estar ali, àquela hora, era um erro. Que não era suposto sequer eu julgar ter-te visto. E quanto mais olhava, mais aspereza eu criava. Tudo só porque eu tinha prestado demasiada atenção. Porque quis dar um nome àquilo que via, ao que sentia. Só porque, de súbito, fui demasiado exigente, porque quis o que já tinha. Porque julguei ver aquilo que queria ver.
Aprendi que, não se estando distraído, o telefone não toca. E é preciso saírmos de casa para que a carta chegue, para que o telefone toque. Para que aquilo que é suposto ser esperado, nos chegue inesperadamente. É preciso estarmos distraídos para prestar atenção e vermos o que realmente interessa.



 

9crimes

Hoje carregas-me os prantos e os enganos, as malícias desaparecidas na escuridão que me cerca, o peso que eu tinha nas costas. Levas-me a luz que encandeia, as pedras nas quais tropeço, as roupas que me aquecem. Deixas-me nua de ti, ansiosa por um pouco mais. 
Tiras-me o sossego e a paz, a alegria que me distrai, a saudade que teimou em ficar. 
Agarras-me os abraços cansados, as palavras proferidas, as escolhas erradas.
Hoje ficas só um bocadinho para me lembrares que fiquei sem nada.
Que cada vez que me reviro na cama, procuro o teu colo para me acolher. Que ainda finjo sentir o teu cheiro pela casa. Que me tocas e me falas em surdina. Eu ainda ponho dois lugares na mesa na esperança que apareças para jantar. Deixo as luzes acesas porque acho que existe aqui mais alguém para além de mim. Mato os cigarros, um a um. Mato-me, um a um. E tu podias morrer dentro de mim, porque só essa morte me falta. Carregas-me a monotonia e a simplicidade. Levas-me o desespero e a esperança. Deixas-me a olhar para o vazio, porque é o que me resta. Tiras-me o juízo, tiras-me a loucura. Tiras-me a vontade e eu só sei desejar-te. 
Levo o peito cheio de ti, e tu já nem dás por nada...