Beauty and beast

Vamos directos ao assunto: Ando, vai para cima de uma vida, para mandar uma babe  ir cagar à mata.

 

Darling, eu estou em todo o lado onde cospes frases de amor ao meu rapaz, por isso não finjas que não sabes que te estou a ver e, pior ainda, não faças cenas tristes à espera que eu veja, só com o objectivo de me irritar. Eu já estou irritada.

No entanto, ando aqui a aguentar-me. Vê bem como sou boazinha. Nem vou fingir e dizer que não é por ti que estou armada em senhora polida, e que é por ele. E que ele merece que eu seja uma senhora e não ligue a constantes bombardeamentos teus. Sou-te sincera: Ando a aguentar-me por ti, mesmo! Para não te dar força nem esse prazer de me veres incomodada, que eu também sou mulher e sei como as coisas funcionam. Era a tua alegria veres-me encavada.


Eu sei que, se te for foder a cabeça, tu vais ter o que queres: vais ter toda a atenção e a toda a certeza de que eu ando a ver o esfreganço pélvico virtual que andas a fazer no meu rapaz e a ficar minada com isso.

Como és porcalhona mas não deves ser totalmente parva, deves saber que eu, efectivamente, vejo a masturbação psicológica que lhe andas a fazer. Sim, eu vejo e tu sabes. E eu sei que tu sabes que eu vejo. Só não tens a certeza, nem como o provar, e eu também não te vou dar essa vitória.

Não te vou dar o prazer de te descompor em público, de te mandar mensagens ressabiadas, nem de ir armar peixeirada aí para essa aldeia de fim de mundo onde tu achas que és gente.

Vou-me manter aqui na minha.

Fingir-me de invisível. Como os ninjas, 'tás a ver?

E depois faço toda uma série de exercícios de concentração.

Rezo umas caralhadas em voz alta antes de me deitar.


Evito ir ao mural do rapaz durante o dia para não estragar o monitor com mais golpes de x-acto nos teus olhinhos.


Imagino-te dez vezes ao dia leprosa, com a vagina ressequida como uma rolha de cortiça, míope, com cáries nos dentes e o cabelo a cair.


Mas também tenho pensamentos bons e desejo que arranjes uma pila amiga só para ti.


E peço aos anjinhos todos para não fazeres a mínima ideia que escrevo por aqui, para não ficares com o pito aos saltos por eu estar a fazer uma cena e por estar, claramente, fora de mim com a merda que andas a fazer.

 

Minha querida amiga, até podes continuar a querer ter o meu rapaz como troféu (eu sei como é: quando eles arranjam outra é quando mais os queremos. Por exercício. Por provocação) mas não tentes é fazer-me desaparecer quando eu estou aqui bem vivinha, a ver o espectáculo a acontecer, o acidente a dar-se e a pouca-vergonha a crescer.

Lembra-te: Ninja!

Sou como um ninja. Apareço e desapareço sem dares por isso mas estou mais perto de ti do que tu pensas. Pronta a ninjar.


Sim, minha querida, eu estou aqui e estou-te a ver. Estou com um olho nos acontecimentos e com dois olhos em ti... e faz bem as contas e vê que outro olho pode estar vigilante, que eu gosto pouco de marmeladas feitas pelas costas.

Lost shoe





Ultimamente tem sido difícil desapegar-me do marasmo que me esconde os sentidos. Demasiado rodeada de pessoas vazias, num tempo só meu. Estou tão na merda que nem eu me quero encontrar. Eu sei que conseguiria deixar estes empecilhos para trás, só preciso de uma força, maior que eu, sem mim a pensar. Tive as minhas equimoses, não me falharam as dores, os entorses. Muito menos os cabelos arrancados naquelas brincadeiras em que tínhamos que apanhar alguém. Apanhei-me foi a mim, aproveitei e joguei no lixo porque pensei que não precisava de mais. Nem mais.

Não sei mais nem porquê, porque não me contaram, porque não quis saber sequer, e agora dei conta que afinal, enquanto visto umas meias para me proteger do frio, talvez precise de alguém que me acolha nas noites geladas. Mas eu não consigo admitir, não sei agarrar-me com firmeza, bloqueio a minha mente e recolho as minhas intenções, talvez eu esteja acabada, talvez só me falte assumir, que ela me leve, só me falta que aquela puta me beije os lábios num beijo casto e me entregue de vez. A quem não sei. Eu gostava de trocar, virar as tuas pupilas ao contrário e arrancá-las de uma só vez, para que vejas com os meus olhos, para que eu coma os teus enquanto me transformo em ti. Era simples, vamos trocar os sapatos, eu faço o teu caminho e tu recusas o meu. Nós precisamos ver a merda de mundo que o outro vê, é sempre mais fácil guiar os outros do que aprender a seguir um rumo próprio. Só que entretanto não podemos deixar que nos digam que estamos fodidos, porque não é verdade, estamos só a ver que afinal, existe um umbigo triste para além do nosso e muitas vezes é preciso mais do que uma palmadinha nas costas para aprendermos a levantar a cabeça outra vez. Depois acordo e vejo que para além do quarto em que vivo, todos me olham de alto a baixo, como se já não fosse eu, como se tivesse perdido o senso de humor, vão todos para o caralho, que a graça eu não perdi. Antes fosse, eu ainda me sei rir da desgraça alheia. Dizem que pareço um bocado louca, descompensada, eu não procuro atenção, eu evito olhar nos olhos para não dizerem que me encontro possuída, doente até, só queria ser como tu, fundir-me com a mobília da sala e pedir só e apenas um lugar de repouso quando as pernas me cansarem.
No fundo, nós nem precisamos de trocar os sapatos, a minha doença cura-se com ouvidos, sem olhares, só um pouco de tempo, ninguém precisa de caminhar para lugar nenhum à busca de uma cura que se encontra na cabeça de qualquer um. Não pediste à vida para tratar essas merdas que nem se tratam? Cala-te. Temos que pegar nas cartas que estão em cima da mesa e sermos nós a dá-las, não esperem ajuda. Eu tenho duas hipóteses. Sento-me na varanda com um cigarro a morrer-me nos lábios enquanto me lamento pelo quão a vida me foi madrasta e no desejo de a matar, enquanto rezo e peço a Deus por um pai que nunca veio, por uma mãe que se lembre que ainda estou aqui. Eu podia aceitar a situação em que me encontro, esperar que as coisas se resolvem por milagre divino dum Deus que nunca viu a merda em que estou, eu nunca fui pessoa de correr atrás, de ficar de malas na mão em frente a uma porta que sei que nunca será aberta. Sempre quis ser o ser mais fantástico, gozar com a cara dessas putas que gozavam com as calças rasgadas que eu usava, em 3ª mão, porque não havia dinheiro para mais e eu nunca fui de manias. Eu só queria rebentar a cara a essas pessoas que me olhavam de lado porque a minha mãe era uma drogada e o meu pai me rejeitou antes de eu nascer, tal era a merda que aí vinha.
Eu contive-me, mordi a língua mil vezes e mil vezes engoli o meu próprio veneno, porque me diziam que menina bonita não dizia asneiras nem se portava mal, era pecado. Pecado é ser algo que não consigo.
É, eu realmente estou doente e estragada, tu estás sem olhos porque tos comi, acho que no fundo o que nós precisamos é mudar de rumo. Escolher um novo caminho. Trocar os sapatos para percorrer mil quilómetros e fugir desta merda. Eu já tenho a sola gasta e perdi os cordões.

Calço o 38 e tu?

Walking Disaster

Ando a agarrar-me à réstia dos meus neurónios só para não virar uma demente ébria. Não sei o que farei quando perder os sentidos novamente, se os perder, que os encontres dentro de ti, não os deixes fugir. Sentidos sentido a tempo inteiro, sentes que me deixas? Sinto muito. Só pedia mais um bocado de demência insana, profundamente tortuosa, sabe-me tão bem ficar louca. Só por mais uns momentos. Se voltares, prometo que te deixo novamente. Deixo-te aqui, dentro de mim, a torceres-me veias e artérias, se morrer que me leves contigo. Pouco me importa. Não me revolto de arrependimento da inocência perdida, alguma vez a tive? Rio-me ingenuinamente, eu nem sei o que te dizer. Não te cruzes comigo, roubaram-me a língua e a eloquência, deixei de saber as palavras de cor, mecanizadas num processo contínuo de respostas feitas previamente. Elevei-me tanto que me deixei cair em tentações e que bem que sabe. Tentadoramente perspicaz, insano, tão doente quanto eu, quem és tu afinal? Que me tens e não sabes, que me olhas e não vês. Que me falas sem dizer nada. Só pedia mais um bocadinho. Uma réstia de toques, de sabores. Deixa-me saborear os teus nervos e entranhas, viver dentro de ti porque só essa morte me falta. 
Ainda não esqueci que te quero, apenas não me lembro mais.

misunderstood





Nunca me conheci por ser impetuosa, quiçá, decidida.

Raramente me deixo controlar pelas minhas escolhas; escolhem-me elas a mim.
Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Eu acho sempre que é melhor interromper o processo a meio: quando se conhece o fim, quando começamos a achar que o desfecho é inevitável, quando se sabe que doerá muito mais -para quê ir em frente? Não há sentido: é muito melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, um lenço esquecido numa gaveta, uma camisola jogada na cadeira, uma fotografia, um beijo – qualquer coisa que depois de muito tempo nós possamos olhar e sorrir, mesmo sem saber o porquê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero, cruel, doloroso e saudosista como um tempo perdido. Prefiro viver a ilusão do quase, quando estou "quase" certa que se desistir naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu "quase" tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não correr da melhor maneira, que pode não ser da maneira que eu queria que fosse, eu acabo sempre por jogar tudo para o ar, sem medo que caia em cima de mim, porque sei que, no fundo, poderia sempre ser pior. Prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo e com o consolo que realmente deu certo enquanto resultou, do que com a certeza de ter acabado em dor. Diria ser covardia, medo, insegurança. Talvez, não nego tais acusações próprias.
Sei perfeitamente que algumas vezes -quase sempre- fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia muito menos mentira. É verdade. Acabo por ser tão neuroticamente individualista que, quando me aparece um resquício de alguém que possa parecer uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheia de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes demasiada até.
Porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras tão certas como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Continuamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como "não resistirei" por algo muito mais realista, como "sei que vai passar". É sempre desta maneira que seguimos em frente, e é inegável o facto de que, além de ser o mais eficiente, é também o mais cómodo, porque não implica decisões, apenas paciência.
 E no fundo eu sei que não sou para todos. Gosto muito do meu mundo e ele de mim, à sua maneira. Cheio de surpresas, palavras soltas e cores misturadas. Às vezes tem um céu azul, outras tempestade. Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos. Mas não cabe muita gente. Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso. São necessárias.
Todavia, preciso acabar com este medo de ser tocada lá no fundo.

Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.

Prevaricação mental ;





Olhas para as roupas espalhadas pelo chão, têm ar de estar tão usadas quanto o prato em que comes todos os dias. Não sabes se deves arrumar a casa, visitas nem vê-las e sinceramente, sabes que não terás nenhumas enquanto te mantiveres enclausurada nessa bolha em que teimas conjugar o verbo viver. Viver não é assim, deixa-me que te diga, rapariga. 
Entre um cigarro e outro, acabas por alegrar um pouco as quatro paredes que te rodeiam com um jazz comercial demais, tentando trautear a canção em forma de abstinência pensativa só porque sim, porque fazer o vulgar às vezes é bom e sabe bem. 
Vejo-te cerrar os olhos enquanto te debruças à janela para ver as pessoas passar, tão cheias de si, com ar intocável e impenetrante, como se cada uma delas se achasse a única pessoa do mundo, acima de todas as outras. Acabas por soltar uma gargalhada - ah como é bom sentir que finalmente encontraste um resquício de alegria embriagada, tão espontânea que te assustas e páras por momentos, sem saber se foste tu ou eu, que não me vês mas imaginas. Soubessem elas que afinal és tu maior que todo o mundo na tua pequena altivez, consequentemente mundo que te chamas a ti própria. Deixaste as roupas no chão, cheias de cheiros e toques, ainda não estás preparada para deitar fora tudo o que resta, pensas tu. Não agora, na solidão dos teus encantos e receios, em que te sentes aprisionadamente confortável e sei que, no fundo, gritas em silêncio todos os dias, estando surda de te ouvir queixar. Reclamar. Seja lá o que for. 
O pior já passou, ambos sabemos disso. A melancolia do adeus, a desgraça que ceifou o brilho dos teus olhos cor de avelã que outrora tanto encantaram, o desespero que tomou conta dos teus dias, ansiando só por saber que afinal estava tudo bem, não passara de um sonho. E a cada vez que acordavas, pedias para acordar realmente, porque o cansaço de pedir a Deus não te deixava forças para mais. Tu, que de religiosa nada tens, viste-te forçada a pedir mesmo a quem sabes que nada tem para te oferecer, mas um pouco de motivação e embalo, mais que não seja fictício, é sempre necessário para nos mantermos sóbrios e inoculamente sãos. 
Sei que te ris sobretudo por isso. Porque no final só te resta rir, ir lavar a loiça que já se acumula há semanas porque sabes que vais acabar por não ter sítio onde colocar a comida plastificada que teimas em comer, mesmo sabendo que a cada dia te tornas mais desgraçadamente estragada. Coitadas dessas pessoas. Que se entreolham como se não se conhecessem e no fundo, todas elas sabem que não há merda nenhuma no mundo que não nos aconteça a todos. 
A dor de perder alguém que nos é imprescindível é tão comum que te surpreende que ninguém tenha inventado uma cura que se venda em frasquinhos, na mercearia ao virar da esquina. Era só rezar para que o sr. Julio te fizesse um preço de amigo, e pronto. Estava tudo resolvido. 
Mas não, temos que andar a martelar nas merdas dias a fio, choros inconsoláveis, gritos mudos, pancadaria mental. 
Que se lixe, pensas. Que se lixem todos os que pensam que não se consegue. Que não existe o dia de amanhã. Que apesar de tudo, morremos um pouco a cada pouco que passa. 
Tu sabes, descobriste que os dias afinal acontecem estejas morta ou viva, ou morta-viva, que os instantes que podem não contar nada para ti, que passaste em angústia, foram os melhores da vida de alguém. Que a cada minuto que sonhavas pôr termo ao teu destino, um destino novo era traçado a um novo ser que nascia. Sabes que morreu muito de ti, mas o resto que não sofreu a morte, tornou-se mais forte. Ou pelo menos, indiferente. Apático. Será assim tão grave? Pelo menos conseguiste. Correste mil mundos para chegar ao teu, a ti, que alienamente sofres de engenhos peculiares, as doenças que ainda não têm nome ainda te corroem mas que se foda, dizes tu. Pelo menos estás aqui e aprendeste. Que na vida, seja ela qual e de quem for, seja rico ou pobre; com um grande círculo de amizades ou apenas um gato para fazer companhia, a maior dor que existe é a saudade de ainda poder dizer "adeus, até amanhã". É saber que, chega sempre um dia em que o amanhã não existe. E quando esse amanhã não vem, sabemos sempre que o amanhã de alguém é melhor que o teu. Que se arrasta nos minutos, nas horas. Nos dias. Um atrás do outro, tic-tac. Não perdes tempo porque estás perdida nele, sem ambições nem anseios brutais. Quando deixamos de poder dizer "até amanhã" é quando o que nos espera deixa de estar lá. Acabamos por perceber que o que deveria estar certo, por habituação ou mesmo por gosto e vontade, nos deixa. Ou deixamos nós.
Que há amores que se vão embora, há uma mãe que nos abandona, há um gato que foge de casa. E que tal fugirmos nós também?
Fechas a janela, já chega de ver a hipocrisia desfilar pelas ruas como se fosse dona e senhora do teu bairro, da tua cidade, do teu país, do teu mundo sujo. 
Olhas duas vezes para a roupa que tinhas voltado a colocar no chão e sabes o que tens a fazer. Tiras um saco da gaveta empanada e esmurrada de tantos pontapés e resolves deitar fora os cheiros e os toques intensos sobre os quais elas estão impregnadas. No fundo, nunca é tarde, nunca é impossível até conseguirmos ter a capacidade de ultrapassar tudo. Não há maior força no mundo do que a vontade de viver. 

E amanhã pode ser tarde demais


Casos notáveis





Falei-te em segredo e foi um segredo só nosso que ficou guardado em tudo o que pudéssemos ter dito em silêncio. Fiquei-me pelas meias palavras medidas em gestos castos, guardei os tesouros e entreguei-tos em mão, e nas tuas mãos eles ficaram até que te cansasses de os segurar. Rias na minha cara como criança que és, nunca soube se de mim ou para mim e na incógnita fiquei, esperançosa de que um dia me esclarecesses e mo desses de volta, nos teus lábios perfeitamente doces. Se pudesse agarrava-te e arrancava-te os dentes um por um, com um alicate feito de aço, como o coração que conseguiste destruir e de seguida cortava os teus dedos, um por um, representando quantas vezes eu chorei em silêncio só por um gesto teu, que me demonstrasses os tesouros que te pedi para guardar; nunca os vi. Ficaste com eles. 

Isto sou eu a sonhar, melancolicamente arrependida de sequer pensar que seria capaz de tamanha crueldade, eu, que de vil tenho o ar e nada mais que um pouco do coração que me resta.
Eu sei que se devolvesses o sorriso que te dei há tanto tempo atrás, guarda-lo-ia, inconscientemente, de volta no baú das memórias boas, que mantenho ainda hoje no móvel do quarto. Onde guardo todo o ódio que te tenho, a raiva dos dias perdidos e contados, das palavras mal-ditas (?) que me segredaste tantas vezes e eu não quis ouvir. Mas ouvi. Ouvi mil vezes e de mil vezes fiz o esquecimento rei, enquanto me embrenhava no calor do teu corpo sem querer saber o que pensavas de mim.

As mulheres têm o dom de não querer ver aquilo que não aceitam e pior ainda, não compreendem. De se deleitar com o que lhes agrada. E quem gostar, gosta na sua plenitude, ama os defeitos e ignora as qualidades para evitar ilusões travadas no olhar. E esse olhar doce;  se não fosse o teu jeito de menino ingénuo, eu diria que de jogador tens muito e de Homem nada. 
Aguardo o dia em que resolvas devolver os tesouros que ainda seguras em mãos, alheias quiçá, ou guardados em cima da tua secretária onde tantas vezes deixei a mala quando cheguei a casa e que agora já nem se deve lembrar do meu cheiro. Que os devolvas e que lhes acrescentes tudo aquilo que lhes roubaste. Que não foi pouco. Que não foi muito. Foi só algo que não se substitui nem é compensado.
Aguardo também o dia em que consiga alhear-me de todos os segredos que em segredo te contei e que deixe de contar todos os silêncios que passámos juntos enquanto dormias. Aguardo.

Porque do amor ao ódio é um passo. E eu estou pronta a seguir caminho.

Tapete vermelho.





Chegas a insultar o meu discernimento fugaz; ludibrias o teu ser com a minha capacidade pragmática e racional de ver as coisas, afinal, para quê serem dois a pensar sobre o mesmo assunto? Sou capaz de esmíuçar o mais ínfimo pormenor e tu sabe-lo.

Que fujo quando os problemas me assombram porque melhor que viver longe deles, é viver sem saber que correm desenfreados atrás de mim, e tu só os ajudas a apanharem-me desprevenida, dizes que não. Tu só dizes que não, que o teu íman não os afecta de maneira alguma, ingenuamente falando, és criança inocente que imagina ter o doce na mão enquanto ele derrete no asfalto quente.
Serás tu cego, que não vês a desgraça em que te afogas? Que te consome as ideias e o juízo, me suga as energias e nos entrega ao monstro voraz que é o cansaço. Arrancas carne e alma por algo que sabes que, em válido segredo, não existe por mutualidade. E o que não existe, ainda, não se muda, não se transforma. Vive em inexistência por um período supérfluo e paralelamente utópico enquanto nos enganamos porque sim, porque é melhor e não dói tanto.
Reflito em silêncio sobre toda a sanidade mental que me falta e concluo que sou uma louca desvairada, daquelas que arranca cabelos e rasga as roupas. Sou capaz até de me colocar em frente a um comboio com a (in)feliz ideia no pensamento de que não morro, porque nem essa morte me falta. Mas se reflito sobre a tua doença vejo que és incapaz de ser como seu, que vives num mundo sem reacção, apático. Nem te atreves sequer a pensar em rasgar as roupas, porque são muito caras, ou então porque a nudez te deixa tímido, tão púdico que és.
Posso ser bastante demente no que toca a decisões e escolhas que acabo por tomar, mas se escolho é porque coragem não me falta, radicalismo muito menos. Segurávamos ambos algo que já estava caído no chão, junto com o teu doce, no asfalto quente, e mantinhas um sorriso amarelo e seco nos lábios enquanto eu gritava aos sete ventos. Que o deixaste cair. Que não te mexias. Que estavas a morar no mundo que pintaste sozinho e nos teus segredos mais profundos.

Esticaste a corda e ela partiu.
Quem serei eu para lhe dar o nó que lhe falta, se o que mais nos falta agora são os laços?

Told you so


Quem me conhecesse saberia exactamente que a minha imagem não passaria de meros e escassos traços alegres repentinos, e que o esboço do teu olhar ainda me percorria os traços vincados das minhas raízes negras. Os lábios carnudos que tu tanto gabavas sentiam ainda o aconchego dos teus, num beijo leve e casto, aquele que me deixaste antes de mudares de sítio. Eu de ti queria um colo, um berço, um braço quente em torno do meu pescoço, uma voz que cantasse baixo e parecesse querer fazer-me chorar. Eu queria só um pequeno calor no inverno, um extravio morno da minha consciência e depois sem som, um sonho calmo, um espaço enorme, como a lua rodando entre as estrelas. Não achei que pedisse muito, seria erróneo da minha parte até dizer que simplesmente pedi. Agora esfrego as mãos porque está frio e espreito por cima do ombro para ver quem me segue. Não está ninguém. Quem me conhecesse saberia que não iria percorrer as ruas sozinhas simplesmente porque acabaria por perder as forças a meio caminho e que iria fraquejar assim que me sentisse desamparada. Quem me conhecesse não diria que me conhece agora. Tu mudaste de sítio e por isso já não me conheces e pregas aos sete ventos o facto de não saberes quem sou. Já soubeste quem fui, porque mentes afinal se quem decidiu mudar de sítio foste tu? Que trocaste os papéis e inverteste as decisões? Que escolheste fugir do futuro com medo do passado assombroso que me envolvia? Se eu te tivesse avisado... Tinhas ido embora na mesma. 
Acendo um cigarro que me morre nos lábios e o fumo incomoda alguém que se encontra a meu lado, forçando-a a seguir outro caminho. Que ironia do destino se o que me alivia a dor acaba por ser aquilo que me faz afundar mais ainda. Solto uma risada sem medo de críticas porque ninguém me vê. Olham. Não me vêem. 
A vida não passa disto, os momentos perfeitos servem para nos dar força para todos os outros e ensinam-nos que a eternidade às vezes só dura alguns momentos, algumas risadas e lutas de almofada, mas entre caixotes, pó, memórias perdidas no tempo e a certeza que nunca mais entrarei na casa onde vivemos, guardo-te com o sabor dos chocolates que já viveram na mesma caixa onde agora repousas, sereno e pacificado, na doçura triste que sucede a desordem do amor. Ali porque já fugiste de todas as maneiras e dizes que não me conheces porque já não estou igual. Sabes uma coisa? 
Por vezes, acomodamo-nos naquele lugar seguro. Conhecemos cada canto da casa e sabemos que janelas abrir ou manter fechadas. Conseguimos caminhar às escuras sem tropeçar num tapete ou bater nalguma parede. Estamos confortáveis, nada nos perturba. Ali sabemos quem somos e o que nos espera. Sabemos que temos uma porta que nos separa do que queremos deixar lá fora.
Sair desse lugar seguro deixa-nos frágeis. Faz-nos ter de pensar nos perigos que corremos. Deixamos de ter portas que nos protegem. Deixamos de poder caminhar à escuras porque não conhecemos o chão que pisamos. Nem sequer existe o vidro da janela por onde podemos espreitar sem termos de nos expor ao frio e à chuva. Sabemos que a nossa resistência será posta à prova. E não sabemos se, um dia, esse lugar assustador poderá ser um lugar tão confortável e seguro quanto aquele onde nos fechámos. E então ficamos ali, no hall de entrada, de chaves na mão, a tentar perceber se é melhor continuarmos no conforto do nosso canto ou se devemos reaprender a caminhar à chuva. 

Não me refugiei e o cigarro apagou-se com a água que caiu repentinamente do céu cinzento que me cobre os pensamentos e abro finalmente o guarda-chuva. Sei com todas as certezas de que irei ficar doente sem ninguém para me preparar as torradas e infelizmente não suporto o chá que sei que tenho de beber. Mas lembro-me do quão infeliz será a tua vida no sítio para onde decidiste fugir e esboço um sorriso enviesado, sei o que pensas. 
E mais do que tu, também eu temo aquilo em que me transformei. E nunca me surpreendi tanto com a minha monstruosa frieza e alheia ao que me dizem. 
Se eu quisesse entrar em generalizações e dizer que as pessoas não mudam, nem com o tempo, nem com a idade ou nem com as experiências que vão vivendo, se eu dissesse que apenas se moldam e adaptam às circunstâncias, mantendo sempre a sua essência, personalidade e princípios, teria de ignorar a mão cheia de coisas que, há meia dúzia de anos, seria capaz de fazer com a maior das convicções e que, hoje em dia, me parecem completamente inconcebíveis, ou vice-versa. Teria também de ignorar todas as coisas a que dava um enorme valor e que hoje não me parecem fazer qualquer sentido. E todas as opiniões, gostos, vontades, acções e reacções que faziam parte da minha forma de ser ou estar, forma essa que hoje nem sempre reconheço. Ou então, teria de ter a pretensão de achar que sou diferente de todos os outros. E não tenho. Não sou. Por isso digo que as pessoas mudam, sim. Algumas mudam até de uma forma brutal. 

Só não acontece é com todas.




There's no place like...




Se eu me sentar numa rocha enquanto ouço a banda sonora do momento sou capaz de me desmanchar em prantos porque não sei para onde voltar. Tenho os caminhos cruzados, mal amparados, com tantas casas vazias e portas entreabertas. Imagino-me a agarrar na minha mochila desbotada cujo fecho está frouxo e a enchê-la com tão pouco quanto existe em mim, contrastando com a minha mente assoberbada.Vejo-me a procurar um caminho invisível, tateando o percurso porque me é desconhecido e tão bem que me sabe. Deixo os cigarros morrerem-me no canto da boca enquanto me encontro deitada no cimo do monte e sinto a brisa deliciar-se com os meus cabelos pretos. Se fechar os olhos consigo continuar a imaginar-me a ir embora. Tanto sítio para onde ir e nenhum é o meu. Como tantas outras pessoas eu só quero voltar para a minha casa. Lar, por assim dizer, cuja definição é esmiuçada em tantas teorias filosóficas alheias e eu nem lhe sei o caminho. Porque a casa é mais do que abrir as portas e sentir o cheiro a bolo de de chocolate acabado de fazer, pegar numa manta e fundir-me com o sofá enquanto afago os pêlos do gato. Voltar a casa não é apenas abrir as persianas ao acordar e deixar a porta trancada quando saímos para não ter surpresas inesperadas quando voltamos. 
Basicamente é sentir que não existe outro lugar no mundo onde nos poderíamos sentir mais feliz, onde sabemos que o colo não nos falta e as palavras não compensam o afeto que sentimos quando nos encontramos connosco na nossa cabeça e coração.  Há mil e uma casas a rodear-me. Casas grandes e que ostentam luxo em qualquer aresta. Casas humildes com paredes em tijolo, casas vazias de amor e casas cheias de barulho. 
Continuo a preferir a minha mochila rota e desbotada, correr para lado nenhum sem sair do mesmo sítio porque sei que acabo sempre por voltar aqui: ao nada. Não sei que casa é a minha. O meu cigarro sussurra-me que não pertenço a lado nenhum, que nasci para ser uma sem-abrigo com cama para dormir e mesa para jantar e pessoas para ouvir.
Nós somos o sítio que nos faz falta, aquele que ainda não conhecemos e que permanece incógnito apesar da incessante necessidade de assentar a cabeça na almofada e ter a certeza de que amanhã, quando acordar, ainda estamos ali. E por comodismo ou propriamente incapacidade acabamos mesmo por acordar no mesmo sítio. Apesar de não ser a nossa casa. Porque não conhecemos outra. Porque o sorteio não nos mostrou mais caminhos e não queremos agarrar na mochila e partir à busca do desconhecido. Porque somos todos demasiado cobardes e assustadiços para termos a coragem de nos encontrarmos. Eu sou demasiado cobarde. Então apago o meu cigarro na terra húmida, respiro fundo e arranco forças do fundo de mim para me levantar e caminhar outra vez de volta. Só que desta vez, sem saber bem para onde, sei que vou parar ao mesmo sitio. Abro a porta e arrasto um sorriso enviesado e amarelo e digo num som melancólico e gasto: voltei.


Presságio


 
Sentei-me junto à janela. Sinto a brisa leve e arejada e sou repentinamente invadida por desejos mirabolantes e uma insónia desgraçada. Tenho que dormir. Preciso mesmo de dormir. Só não sei como, realmente. Se me deito, penso em ti. Se vagueio, em ti penso. Sai de mim. Sai por favor. Não saias. 
Acabo por me sentar na cama e acendo um cigarro, não consigo deixar de pensar no que aconteceu. No que vai acontecer. Tenho a minha barriga a viver com as borboletas.


Abro os olhos porque ouvi um choro repentino. Agudo. Forte e insistente. Vem de longe mas não muito, o suficiente para eu não me preocupar em verificar porque senti passos próximos. Fecho os olhos. Acabo por inalar um cheiro característico a canela e maçã, com um pequeno travo a menta. Sinto um beijo percorrer-me o pescoço, que acaba por me morrer nos lábios. Tens o hálito fresco e eu morro de vergonha por teres que olhar para mim. Que acordo tão horrivelmente mal. Alargas um sorriso enquanto me embrulhas no teu abraço matinal e dizes: bom dia amor. Amor, eu? Onde andei este tempo todo? Descobri agora que te vivo. 
E uns pés de lã invadem o quarto.
Um ser totalmente estranho invade a cama e rouba-me o cobertor. E tu, embevecido, deixas. Como é possível eu observar-te tão apaixonado!? Ternurento até, admirado, orgulhoso. Sinto um puxão nos cabelos desgrenhados e um "bom dia mamã" presenteia-me a vida. Tem os teus olhos, que escondem segredos e artimanhas. Olhar maroto de quem acabou de fazer asneiras mas santo o suficiente para saber que não foi com maldade. Um nariz perfeitinho esculpido numa cara redonda e emoldurada nuns caracóis castanhos. Brilhantes. Uns lábios cheios e tão rosados quanto as maçãs do rosto. Dois dentinhos enfeitam-lhe a boca e eu não consigo evitar agarrá-lo. 
Mergulho no abraço do meu pequeno amor, enquanto sou protegida pelo teu. No silêncio. Porque não preciso de mais nada. Porque me encontro tão afogada em amor que não exijo salvação. Porque a vida é perfeita e se melhorar estraga. Porque me envolves com o teu toque doce e atrevido. Porque me proteges como um super-herói mas eu sei que és feito de carne e osso. Conheço a tua fraqueza e sei que se te faltar, andas com as camisas amarrotadas e acabas por te alimentar mal. Descubro que te esqueces de mudar as fraldas ao menino e que por vezes te atrasas na hora do jantar. Que andas sempre a perguntar que dia é, porque te perdes no calendário e em mim. E só por isso fecho os olhos. Nos braços dos amores da minha vida.

Só não sei porque acordei. Ligo-te e vou ter contigo. Os sonhos só se concretizam se fizermos por isso. 
Ama-me para sempre


•••

Só no fim destes dias.

No fim destes dias encontrar-te a ti, que me sorris, que me abres os teus braços e me enrolas no teu amor, que me abençoas e passas a mão na minha cara marcada, na minha cabeça confusa, que me olhas nos olhos e me permites mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, no toque que não sei descrever. Tu que me embalas dentro dos teus braços e tu que me beijas e tu que me apertas e tu que me sossegas repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem.
Que te lembras de mim quando eu finjo que não estou cá, que me acalmas quando me enfureço por coisa nenhuma e que te sentes completo quando estou no teu redor.
No fim destes dias, sabendo que te encontrarei no dia seguinte, que estarás aí para mim sempre que precisar. Espera-me, tu que esperas por tantos momentos e me agarras nos teus prantos e que sossegas o teu choro em mim. Como poderia eu ser inteira, se não te consigo apenas amar pela metade? 

«mg.»

Lacunas





Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insano, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias inteiros, noites acordada, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparada atravessando madrugadas na tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele. Disfarçarás melancolia ao ouvires o seu nome, suspirarás cada vez que lembrares o seu beijo e chorarás quando finalmente descobrires que ele já não te quer mais.


(...)

Dear God...






Sempre tive a mania de que sabia tudo. De cor, salteado, para a frente e quiçá, para trás. Relancei milhares de vezes o meu corpo para o que julgava ser etéreo, julguei-me sóbria. É, sempre soube tudo, mas esqueci-me de que podias existir. O sol brilha lá fora, cheio de frio, e sinto-me tão quente...Esqueci-me. De que passarias por mim, em algum lado, num dia qualquer, como quem não quer nada, mas queres.
Esqueci-me de que és homem. E quando realmente gostas, vais até ao inferno por mim. Vais e enfrentas mil tormentas, porque gostas. Porque és simples e previsível. Porque tu não és como eu, raça errónea da Humanidade, que analiso, penso e ainda atribuo mil problemas quando eles não existem. Balanço o meu ser entre o ir e o ficar, com medo do destino que me espera, talvez mais do que do caminho. Volto para trás quando está escuro, quando és instável, quando me assustas. E só desisto quando me deixas.
Sempre tive a mania que sabia tudo. Que era independente e só eu escolheria o que quero. Que rumo tomar, que experiências viver. Trocaste-me o saber e as voltas, viraste o mundo do avesso e agora encontro-me de pernas para o ar, com o sangue a subir-me à cabeça, entre gritos e agonias.
Mas sei que sempre chegas, quente e saboroso, apetecível e ternurento. Pronto para me pôr no lugar, para me voltares a jogar ao ar novamente. Apetece-me voltar para trás, só porque me assustas. Porque me cativas. Porque eu já gosto de ti.
Porque me apareces afinal?



Água do bongo


Cara de sono. De facto, com um sorriso de quem acabou de entornar a água do bongo na placa de som. Um dia, torno irremediável a escolha da data em que vou. Entretanto, arrasto o meu corpo, até ao doutor, porque o meu frasco acabou. Frios suores, poros disparam vapor. Horas depois, para aliviar o ardor no peito, eu escrevo. Mas mãos tremem sem parar, ao compor imagens extraídas da parte de trás do meu topo. À frente, uma cara de poucos amigos que não percebem que não estou para conversas sem termos de conversar antes sobre isso. Uma cara de poucos amigos, independentemente do número. Funcionam todos à base de avisos, eu não me resumo num. Eu sumo-me. Façam rolar esse tapete de alcatrão na minha frente, como se fosse a passar o carro da Google. Eu nunca espreitei o mapa. Fedelhos pedem conselhos, numa de partilha e comunhão com as massas. Desamparem-me a loja. Esta é para a corja que prega os meus momentos medíocres, como se tudo em que toco se tornasse magnífico – É esse o espírito. Hei-de morrer pobre pela minha obra. Assim por alto, até agora, devo ter ganho, sei lá, um cêntimo por hora. Eu preferia acabar num lar. Não, eu preferia doar um rim. Não, a sério, eu preferia afogar o meu primogénito num alguidar do que vê-lo a crescer até se tornar um básico – Pela morte, serás exemplo. Eles que façam de ti um mártir.

No que toca à quantidade de dígitos, estou convencido que o meu saldo negativo ultrapassa o teu positivo. Além disso, acredito que, só com vinho, já me embebedei mais sozinho que tu com os teus amigos. Quando escrevo, escorre quente o veneno que me corre dentro. Este é o meu adeus precoce. A minha laia morre cedo. Nervoso? Só sempre. Corto rente laços. Falo “Fêmea, um dia volto, mas hoje ainda não pode ser”. Pé na tábua. Eu não preciso de nada. Escrevo estas letras com a mesma caneta com que desenho a capa. Trancado no quarto, quando calço luvas de borracha, recorto letras de revistas e envio anónimas cartas de ódio às ex-namoradas. Elas sabem o que aqui se gasta. Não tenho jeito com nomes, sou péssimo com datas, porque adoro fumar bêbado. Há cinco anos em casa mas moral altíssima, numa de “eu nunca voltei da estrada”. A vida não presta. Só ira resta. Temo não alcançar os quarenta. Não há tempo para dormir a sesta. Desculpem-me se não ando de corno preso à testa com um com elástico, a peidar borboletas. Eu vejo além das tretas.

Holocene






Ajeitas o cabelo com ar manhoso de quem não se importa com os olhares fugazes de quem desdenha. Sei que sabes que estou aqui a decorar-te os traços, permaneço inquietamente quieto, para ver o que vais fazer a seguir. Não me prestas atenção, nunca prestaste. E quem seria eu se desistisse de te despir de pudores e preconceitos e fazer-te conhecer o mundo nú e cru que se nos apresenta. E tens tanto para conhecer...

Reparo na maneira como mordiscas os lábios quando pensas no vazio que te enrola os dias... És tão ingenuamente tentadora que seria mais pecado ainda não te desejar. Cruzas os braços como quem espera pelo dia amanhacer, sem dores incessantes, apenas apatia espelhada em todas as atitudes e movimentos. Pára com isso, deixa-te de merdas. Que eu desistir não sou capaz, mas perder a paciência é certeza mais que certa. Não me faças ir aí, pára de pedi-lo subtilmente, eu sei que não vais gostar. Porque sei que preferes a acalmia dos dias apáticos, a previsão antecipada de atitudes, a terapia do "já sei o que vou fazer hoje" ao invés do tormento do desconhecido, da imprevisibilidade momentânea de atitudes alheias, de quedas aéreas sem saber em que chão pisas. Eu não desisto. De te olhar, apenas. Porque conheço cada traço teu apenas com o fogo da minha imaginação, e, em pensamentos, tu já te mostraste em toda a tua plenitude.

Mas não me faças perder a paciência. Deixa-me olhar incessantemente, enquanto posso. Vestir-te com o meu toque, dormir nos teus lábios. Se eu me perder, que seja em melancolia. Não em perda. Porque se perco o que ainda não é meu, é a queda aérea sem chão que tu me dás. E eu ainda não sei voar...

Hoje vou dormir a pensar em ti. Vou perder a paciência contigo, vou aí. Vou agarrar-te. Fazer-te minha. E o resto... fica apenas para depois.