Leitor

Morning stars in your eyes.



Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Eu perdi a minha terceira perna. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que só com as duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência inútil da terceira faz-me falta e assusta-me, era ela que fazia de mim uma coisa palpável por mim mesma, e sem sequer precisar de procurar.
Maior que o problema de sentir que perdi a minha terceira perna, é saber que nada muda no mundo quando tu não caminhas ao meu lado, as pessoas quase não percebem que falta metade do meu corpo e que eu não posso ser muito simpática porque toda a minha energia está concentrada para eu não cair. Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém está a dar-me a mão. Porque para algumas pessoas, de uma forma inexplicável, o amor apaga-se. Para outras, o amor pura e simplesmente vai embora. Mas é claro, o amor também pode existir, mesmo que só por uma noite. No entanto, existe outra classe de amor mais cruel.
Aquele que praticamente mata as suas vítimas. Chama-se "amor não correspondido". A maioria das histórias de amor falam de pessoas que se apaixonam entre si. Mas o que acontece com os demais? E as nossas histórias? Aquelas que nos apaixonamos? Em que acordamos um dia sem uma parte de nós? Sem uma perna? Parece que ainda ontem tu olhavas para mim com essa cara banal de "espera só mais um bocadinho", sempre a tentar congelar-me enquanto conferias pela centésima vez que não havia mesmo nenhuma mulher melhor do que eu. E voltavas sempre.
(...)
Enfim. Agora as pessoas são interessantes só na minha imaginação. A partir do momento que elas passam a ter vida própria, sinto vontade de jogá-las pela minha janela. Deve-se temer mais o amor de uma mulher, do que o ódio de um homem.. E eu aprendi a amar menos, o que foi uma pena, e aprendi a ser mais cínica com a vida, o que também foi uma pena, mas necessário. Viver para sempre tão ingénua e perdida teria sido fatal. Descobri que tentar não ser ingénua é a nossa maior ingenuidade, descobri que ser inteira não me dá medo porque ser inteira já é ser muito corajosa. E no meio dos meus dias atarefados e rotinas viciadas, dou por mim muitas vezes a recordar rapidamente de todas as pessoas e coisas que perdi por ainda não estar preparada para elas, ou por ainda ter muita fome de mundo e dificuldade em ser permanente... Recordo-me dos amigos e parentes distantes, aqueles que eu deixo sempre para depois porque moram muito longe ou acabaram por se tornar pessoas muito diferentes de mim, e no final, em jeito de desfecho de raciocínio, acabo por pensar “no mês que vem falo com eles”. E se não houver mês que vem?
Num só vazio cabem imensas coisas, mas nenhuma se encaixa. Todas deslizam pelo rio de lágrimas que inundam todos os meus andares vazios. Quando eu decidir que é hora de chorar, vai ser o choro mais triste do mundo. Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correta e não foram comigo. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e a sós com ela, como um cão com seu osso.
(...)
Comecei uma dieta, cortei a bebida e comidas pesadas e, em catorze dias, perdi duas semanas. Eu achei que quando passasse o tempo, que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.  Eu deixei de sentir saudades tuas e passei a sentir a tua falta.
A saudade é quando tens a certeza de que a pessoa vai voltar. A falta, é o desejo de ter de volta aquilo que à partida já sabes que não vais ter.













pontapé de boas-vindas,

“Changing is what people do when they have no options left.”


Nós somos as escolhas que fazemos e aquelas que omitimos, a audácia que tivemos e os fantasmas aos quais sacrificamos a possível alegria e até pessoas que amamos; a vida que abraçamos e a que desperdiçamos. Dá para escolher entre ser carnívoro ou vegetariano, entre fumar ou não, entre correr na praia ou ficar um pouco mais na cama, entre jogar às cartas ou ler um livro, entre amores serenos ou paixões turbulentas. O que importa é ter a consciência de que ficar sentado à espera que a vida escolha por nós não é uma opção confortável como parece. Enquanto dormimos a pensar no dia de amanhã, deparamo-nos que o amanhã chega cedo demais e o tempo perdido foge-nos por entre os dedos.
Sempre que houver alternativas, é melhor ter cuidado. Não optes pelo conveniente, pelo confortável, pelo respeitável, pelo socialmente aceitável, pelo honroso.
Opta pelo que faz o teu coração vibrar. Opta pelo que gostarias de fazer, apesar de todas as consequências. Porque para amar temos que estar dispostos. E antes de nos importarmos com alguém, precisamos importar-nos connosco. Parece auto-ajuda, parece fácil, mas não é. Eu importo-me comigo. E importo-me contigo. Antes do amor ser feito de dois, ele é feito de um.
É isso. A vida é feita de escolhas. E quando dás um passo à frente, inevitavelmente alguma coisa fica para trás. Porque uma pessoa imatura pensa que todas as suas escolhas geram ganhos, mas uma pessoa madura sabe que todas as escolhas tem perdas.
Faças o que fizeres, não te auto-congratules demais, nem sejas rígido demais contigo. As tuas escolhas têm sempre metade das chances de dar certo, têm sempre o acaso como seu aliado. Se a felicidade depende do que decides, é da sorte a última palavra.
É assim para toda a gente.
O melhor é cumprir nossas escolhas e abandoná-las quando for preciso, mexer e remexer na nossa trajectória, alegrar e sofrer, acreditar e descrer, seja de que maneira for, tudo se justificará, tudo dará certo. Algumas vidas até podem ser tristes, outras são desperdiçadas, mas, num sentido mais absoluto, não existe vida errada. Somos todos culpados, se quisermos. Somos todos felizes, se deixarmos.

Alguns dizem que nossas vidas são definidas pela soma das nossas escolhas. Mas não são nossas escolhas que distinguem quem somos, é o nosso compromisso com elas.

(cool kids)


00:27





Mas quando é para ir embora, é obrigação levar as mãos nos bolsos e a cabeça erguida. Não se olha para trás, porque olhar para trás é uma maneira de se ficar num pedaço qualquer para se partir incompleto, e acabamos por ser só metade. Só metade vai embora. Não se olha e não se fica.
É incompreensível como o querer o outro possa tornar-se mais forte do que o querer a si próprio. Nem tampouco compreendo como é que o querer o outro possa parecer a saída de uma solidão fatal. Mentira. Compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinha do útero da minha progenitora e de que irei embora de vez num caixão rumo ao pó. O que nós precisamos é daquilo que acontece entretanto. Do que fica no meio. Do que vivemos sem pensar que queremos. E exigimos o eterno do perecível, que idiotas.
Mas tudo isso me perturba. Eu, que pensara sempre que, de certa forma, toda a minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não-precisar-de-ninguém. Sempre aceitei todas as ausências e teimava em comparar-me a um álbum de retratos. Carreguei nas costas centenas de fotografias amarelecidas pelo tempo, em páginas que folheava detidamente durante as noites em que o sono teimava em me deixar só também.
 Acho que sou bastante forte para sair de todas as situações em que entrei, embora tenha sido suficientemente fraca para entrar. Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais
pela memória da dor que provocou e perde-se para sempre no momento em que cessa de doer, embora lateje loucamente nos dias de chuva. Fiquei tão só, aos poucos. Fui afastando as pessoas que julguei não me acrescentarem nada, e não ficaram muitas outras. Às vezes, nos fins de semana principalmente, tiro o telefone do gancho e escuto, para ver se não foi cortado. Não foi. É nestas circunstâncias que chegas à conclusão de que o teu único apoio será a mão estendida que, passo a passo, raciocinas com penosa lucidez, através de cada palavra, estarás talvez a afastar para sempre.
Às vezes sinto uma vontade ridícula de voltar. Mas é uma vontade semelhante à de não ter crescido.
E fico tão cansada. E digo para mim mesma que está errado, que não é assim, que não é esta a altura de ceder e que não é esta a vida. E fumo, e fico horas sem pensar absolutamente em nada.
Não me tomem por errónea, é preciso julgarmo-nos com o máximo de rigidez, mas não sei se serei capaz. É que as coisas por natureza já são tão duras para mim, que julgo não ter o direito de endurecê-las ainda mais. Caímos todos na mesma ratoeira. A única diferença é que uns julgam que podem escapar, enquanto outros (inclusive eu) querem chafurdar na dor do ferro enfiado na garganta seca que só humedece com café e álcool. E fumo durante horas seguidas, para ver se as horas me acabam mais depressa. Eu não estou desesperada. Não mais do que sempre estive.
Não temos tempo: somos maduros. Onde será que isso começa?
É tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros. O truque é não enlouquecer. Nem matar. Nem desistir. Pelo contrário. Se ficarmos óptimo incomodaremos mais ainda. Porque as pessoas falam coisas. E por detrás do que falam há o que sentem. E por detrás do que sentem há o que são. E o que são nem sempre se mostra. É por isso que tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir o que a vida me enfia goela abaixo. A lamber o chão por onde passam. A fumar os meus cigarros no meu canto, a guardar as beatas nos bolsos para não sujar nada. A sentir-me desprezada que nem um cão, e tudo bem. É acordar, lavar os dentes, tomar café, acender só mais um e continuar como se não se passasse nada. De tanto fingirmos acaba por se tornar verdade. Mesmo que só para nós.











 

a valsa do pavão ciumento;


Uns cosem para fora, eu coso para dentro.




É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Troco os raciocínios, salto procedimentos, tropeço no que quero pensar e falo o que nunca cheguei a querer. E é engraçado como uma das coisas mais importantes que aprendi até hoje é que se deve viver "apesar de". Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio "apesar de" que nos empurra para frente. Que nos força a fechar os olhos e dizer "seja o que Deus quiser". Mesmo que não queiramos. Foi o apesar de que me deu uma angústia insatisfeita criadora da minha própria vida. Foi o "apesar de" que parei na rua e olhei para ti enquanto não sabia se estava a ver bem: quiçá pensei estar ludibriada pela ansiedade. Ou pela vontade. Ou levemente alterada pela excitação de que, apesar de, poderias ser tu. E se fosses tu talvez eu não voltasse a perder tempo. E desde então que todos os dias corro da mesma maneira ao encontro do teu abraço, do teu corpo. Mas quero-te inteiro, com a alma também. Por isso, não faz mal se não vieres, eu espero o que for preciso.
Mas ontem fechei os olhos e descobri que a saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. O problema é que às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida. É o sentir-se a falta da pessoa mesmo quando ainda a temos à nossa frente. É agarrar para não deixar ir embora, porque no primeiro segundo em que nos sentimos sozinhos, desejamos voltar para um abraço. Um olhar. Um beijo. Um toque. É quando descobrimos que a saudade não mata mas mói. E demasiado. Porque eu descobri que fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensava que amar era fácil. E no fundo eu ainda não compreendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como uma pessoa que não seja capaz de o fazer. Muito pelo contrário. É não se entender por opção. Por ser melhor. Porque gostamos mais assim. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura e não ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando a vontade de entender um pouco começa a inquietar-nos.
É então que estragamos tudo. Equacionamos respostas que nem deveriam ser ponderadas, encenamos desfechos incrédulos, julgamos entender aquilo que um dia nos passou ao lado. E dizemos sempre que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, não me refiro ao fogo, refiro-me ao que se sente. O que se sente nunca dura, o que se sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-se o fogo, e o fogo doce arde, flameja, queima. Torna-se cinzas sem razão. Antecipamos a morte do calor porque não queremos que o fogo se apague. E é então que ele se apaga.
No meio disto tudo, tudo foi erro. Havia muito nevoeiro nas ruas e quanto mais olhava para saber se estava a ver bem, mais me convencia de que estava tudo errado. Que estar ali, àquela hora, era um erro. Que não era suposto sequer eu julgar ter-te visto. E quanto mais olhava, mais aspereza eu criava. Tudo só porque eu tinha prestado demasiada atenção. Porque quis dar um nome àquilo que via, ao que sentia. Só porque, de súbito, fui demasiado exigente, porque quis o que já tinha. Porque julguei ver aquilo que queria ver.
Aprendi que, não se estando distraído, o telefone não toca. E é preciso saírmos de casa para que a carta chegue, para que o telefone toque. Para que aquilo que é suposto ser esperado, nos chegue inesperadamente. É preciso estarmos distraídos para prestar atenção e vermos o que realmente interessa.



 

9crimes

Hoje carregas-me os prantos e os enganos, as malícias desaparecidas na escuridão que me cerca, o peso que eu tinha nas costas. Levas-me a luz que encandeia, as pedras nas quais tropeço, as roupas que me aquecem. Deixas-me nua de ti, ansiosa por um pouco mais. 
Tiras-me o sossego e a paz, a alegria que me distrai, a saudade que teimou em ficar. 
Agarras-me os abraços cansados, as palavras proferidas, as escolhas erradas.
Hoje ficas só um bocadinho para me lembrares que fiquei sem nada.
Que cada vez que me reviro na cama, procuro o teu colo para me acolher. Que ainda finjo sentir o teu cheiro pela casa. Que me tocas e me falas em surdina. Eu ainda ponho dois lugares na mesa na esperança que apareças para jantar. Deixo as luzes acesas porque acho que existe aqui mais alguém para além de mim. Mato os cigarros, um a um. Mato-me, um a um. E tu podias morrer dentro de mim, porque só essa morte me falta. Carregas-me a monotonia e a simplicidade. Levas-me o desespero e a esperança. Deixas-me a olhar para o vazio, porque é o que me resta. Tiras-me o juízo, tiras-me a loucura. Tiras-me a vontade e eu só sei desejar-te. 
Levo o peito cheio de ti, e tu já nem dás por nada...

little respect ,









Desvias o olhar como quem esconde mil segredos e em mil palavras ditas, um milhão fica por dizer. Mordes o lábio e dizes em surdina aquilo que queres, porque tens vergonha ou porque o medo te consome cada vez mais. Seria mais fácil se não tivesses esse olhar de menino maroto, se o teu cabelo não me tirasse do sério por ser tão rebelde, se as tuas bochechas não ficassem vermelhas cada vez que te encaro por mais de dois segundos. Se não tivesses um sorriso doce e se as tuas mãos não tivessem o toque de seda, quando as encostas na minha cara. Eu juro, deixava este caminho sem olhar para trás, fechava os olhos e preferia não perder tempo com assuntos acerca dos quais não possuo controle. Eu não preciso de coisas que me fogem as mãos, porque quanto mais eu as fecho para segurar, mais elas me escorregam por entre os dedos. Não se obriga uma pessoa a ficar quando aquilo que ela mais quer é ir embora. Digo-te vezes sem conta o que vi em ti e tu, teimoso, continuas a fingir que não é nada contigo, que não te afecta, que não queres, que não sabes. Que não precisas. E, de soslaio, lanças-me um olhar suplicante, como quem pede para eu insistir mais um bocadinho. Para eu te continuar a contrariar. Para eu te convencer de que precisas de mim, porque sabes que queres precisar. Só tens medo. Só queres segurança. Confiança. Saber que o caminho que estás prestes a seguir não te vai fugir debaixo dos pés. Porque já não sabes cair. Porque tens medo que ninguém te levante. Porque já te magoei e só tu sabes o quanto doeu. 

Faço das tripas coração para te chegar, para te agarrar nos meus braços e para que sintas que te podes aninhar sempre quiseres. Mostro mil arrependimentos, profiro duas mil palavras e num milhão de beijos tento entregar-te o meu amor.
É só olhar para trás e ver tudo o que mudou. Ver o que se passou. Ver o que aprendemos. E continuamos a dizer que está tudo diferente, que as ruas já não nos parecem as mesmas e que os lugares que frequentámos já não significam nada. Quem mudou fomos nós. E neste caso a distância pagou-se cara. Tu, que me voltas aos braços com um sorriso diferente, o teu cabelo já não tem o mesmo aspecto e já aprendeste a controlar a tua vergonha e embaraço quando te contemplo. Mas os teus olhos ainda não aprenderam a olhar-me sem me desejar e continuo a saber que talvez e passado tanto tempo ainda me queiras. Mesmo que tentes não me querer. Mesmo que saibas que já te fiz cair uma vez e que foste obrigado a levantar-te sozinho. E principalmente, que se a vida é um eterno regresso a casa, talvez tu só queiras voltar ao sítio que já te fez feliz. Onde perdeste a inocência e onde começaste a ganhar cicatrizes. Onde te lembras de tudo o que fomos, e guardas, numa gaveta escondida no teu coração, todas as coisas boas que já proporcionámos um ao outro.
Sei que eu ainda tenho a chave, sei que a quero abrir, mas cabe-te a ti sentires o desejo de voltar a percorrer todas as memórias e cheiros e toques e risos e piadas e choros e músicas e abraços e desejos. 
Continuas a tentar evitar olhar para dentro de mim, mas eu volto a insistir. E digo-te uma e outra vez porque é que te quero tanto. Porque é que ainda te quero tanto. O tempo perdeu-se mas nós não nos perdemos no tempo e a vida arranja sempre maneira de nos entregar o que é nosso. O que deveria ter sido nosso desde o início. Mesmo que não tenhamos visto o que estávamos a perder. 
Mas eu quero saber...
Se o futuro não nos traísse, como é que teria sido?

trouble

Do you know
For you I'd bleed myself dry?


Desengane-se quem julga que o mundo é tão utópico quanto a certeza daquilo que dizemos. Que pode ser mentira. Que pode não ser totalmente verdade. Que pode ter só uma pontinha de certeza e todo o resto de desejo e esperança de que seja mesmo assim. Na realidade, podemos ter duas coisas ao mesmo tempo e ao mesmo tempo, tê-las em separado. Se fosse simples, perderia toda a piada, certo?
Ao longo da minha vida, várias foram as vezes em que me confrontei com situações dessas: o desalinho pronunciado de sensações paralelas, uma sombra ao sol. Um arco-íris, que é fruto da água e da luz. Seria ridículo focarmo-nos apenas naquilo que julgamos controlar, porque no fundo, somos nós controlados por algo que nem sabemos o que é. Que arrastamos as escolhas que achamos que fazemos em prol daquilo que achamos que devemos. É mais ou menos o que acontece quando temos a certeza de que não faremos determinada coisa e damos por nós a fazê-la com toda a vontade e convicção do mundo. Ou então é quando achamos que para nos sentirmos apaixonados, temos que amar. Sabemos que existe paixão sem amor, mas buscamos sempre uma conjugação dos dois, amor e paixão de mãos dadas, num mundo de fantasia. Não sei quem ditou que deveria ser assim, nem desde quando é que isso um protocolo a seguir, a regra e a imposição de que só sentimos aquilo que nos obrigamos a sentir e que se nos apaixonarmos por alguém, esse alguém tem que se tornar o amor da nossa vida.
No entanto, quantas e quantas são as pessoas que se apaixonam e não aprendem a amar. E quantas são as pessoas que amam porque nunca souberam o que é sentir-se apaixonado. Ou então, quantas são as pessoas que amam porque estão numa relação mas amariam outra se pudessem admitir a paixão que sentem. Porque acabamos por nos fechar numa casa sem porta, em que nos movemos todos os dias mas paramos sempre no mesmo sítio. À espera que esteja tudo no mesmo lugar. E se estiver, é porque é certo, é porque é correcto. É porque era assim que deveria ser.
Mas... é tão bom quando resolvemos virar o nosso mundo de pernas para o ar, sentir frio na barriga e garganta seca. Arrepiarmo-nos quando sentimos o perfume da pessoa por quem estamos apaixonados. Não há nada como desarrumar o nosso mundo para que alguém nos ajude a orientarmo-nos na confusão, sem esperarmos mais nada em troca. Porque amor não se cobra. Nem tempo. Nem atenção. Muito menos presença. Se as pessoas gostarem mesmo de nós, acabam por nos dar tudo.


stayclose;don'tgo

Sabes quando acordas com a sensação de que vais viver mais do mesmo? Que já acordaste no dia de hoje, que já estiveste nesta situação. É estranho e ao mesmo tempo é a melhor coisa do mundo. É um regresso à casa da qual nunca devias ter saído.
É, talvez, a segunda oportunidade que sempre pediste para poder refazer tudo. É quando olhas com mais atenção e reparas que, afinal, a porta que julgavas que estava fechada há tanto tempo, deixa passar uma luz ténue. Porque se na vida quando se fecha uma porta, abre-se uma janela, o que é que nos impede de irmos lá e abrirmos nós próprios a porta? Sabes que foi descuido teu, que não era tua intenção fechá-la mas também não a querias entreaberta, na incerteza de um regresso que poderia nunca acontecer. E não era justo para ninguém que a porta ficasse inutilizada. Mas, mais uma vez, é quando acordas com a sensação de que sabes o caminho de cor e salteado que tentas fazer tudo com um cuidado redobrado, queres abrir a porta com cuidado e fechá-la devagarinho para que ninguém dê pela tua passagem. Com a tua passagem secreta. Porque de lá já não sais e não permites que mais ninguém entre. Decides que é de vez, que é definitivo e que não há volta a dar porque não queres voltar para trás. É fácil. É só esperar que a porta não esteja trancada. É só bater três vezes devagarinho, com o nó dos dedos, e encostar o ouvido para ver se ouves uma respiração em surdina do lado de lá. É só desejar com todas as tuas forças que ainda esteja lá alguém para te receber. Mesmo que tenham passado dias desde que partiste. Meses. Anos, muitos anos. É fácil. Mas se fosse fácil... Tu não tinhas tanto medo, não é verdade?

key ,



Eu dei-te a chave quando a porta não estava aberta, apenas há um minuto. Arranjei mil e uma maneiras de te encontrar, agarrei-me aos pedaços de tempo que me concedias e fingi que era normal, hipoteticamente. Deixaste a cama vazia e os lençóis, impregnados no teu cheiro característico, ainda roçam nas minhas pernas e solto um sorriso ou outro, como se de cócegas se tratasse. Isto sou eu a fingir. É mais fácil pensar assim, às vezes. Eu vi-te vestir a tua melhor camisa, engraxaste os sapatos que tinhas debaixo da cama a apanhar pó - pareciam sapatos de defunto, dizias tu entre gargalhadas quando te mandava aperaltar um pouco mais. Eu não precisava que fosses mais do que és, encantaste-me com as camisolas amarrotadas e as calças rasgadas nos joelhos, com as sapatilhas gastas pelo tempo e o cabelo desgrenhado de quem acabou de acordar. Mas hoje resolveste calçar aqueles sapatos. Sinceramente eu não me soube despedir porque sabia o que por aí viria. Fingi novamente. Fiz-te o café forte, e como sempre, fiquei calada. Eu dei-te a chave quando a porta não estava aberta, apenas há um minuto. Tu não a quiseste. Deixaste a chave ao meu lado, na cama, porque sabias que não precisarias dela para voltar. Já estavas num outro caminho, cujo nome desconheço. Sempre soubeste alargar os horizontes de quem tos fecha mas esqueceste-te de que os teus são os de outrem também. Era tão mais fácil se soubesses caminhar com os meus sapatos e percorresses toda a minha mente enquanto eu descanso, para que me conhecesses. Me soubesses. Me vivesses. Mas tu não. Tu crês que quando achamos que não há volta a dar, o melhor é virar em direcção contrária e voltar para onde viemos. Percorrer tudo de novo. Retroceder no futuro. Caminhar a passos longos e decididos, como se não precisasses de bagagem porque já sabes para onde voltas.
Eu dei-te a chave quando a porta não estava aberta, apenas há um minuto. Esse minuto já passou demasiadas vezes e eu ando a enlouquecer com o relógio que não pára de tiquetaquear na minha cabeça incessantemente. Tu ainda não voltaste. A chave ficou esquecida ao meu lado. Por enquanto ficarei aqui para te abrir a porta, se decidires regressar.
Quando eu decidir partir o relógio, jogar a chave fora, lavar os lençóis da cama, quebrar a tua chávena de café preferida, rasgar por completo as tuas calças, tu só vais ter esses sapatos engraxados com os quais foste embora.
E aí talvez entendas que isso não te vai levar a lugar nenhum.

even the darkness has arms



“you are here.
.
and that’s all that matters.”




Eu quero guardar todos os bocadinhos que me foram deixados. Saber que estão ali, para eu percorrê-los com o olhar, para lhes tocar uma e outra vez, para saber que foram reais, que não mos foram tirados. Que não foram embora.

Pego na minha cadeira de verga que me foi deixada por alguém de quem já não me lembro e escolho o lugar cujo luar ilumina com intensidade, mesmo junto à janela. Encontrei o gato a fechar os olhos às estrelas e, com a chávena de café numa mão e cigarro na outra, decido enxotá-lo do parapeito com um "shhh" intenso, tão intenso que quase acordei quem dormia na minha cama.
Abro apenas um bocado a janela, com medo que o vento me empurre o fumo para dentro de casa e que descubram que me levantei mais uma vez. Não consigo dormir. Não tenho conseguido dormir todos estes anos, as rugas pesam-me na cara mas as olheiras já fazem parte da minha pele. Vivem de mim e alimentam-se de todas estas noites em que fiz exactamente o mesmo: olhar para a rua. O café queima-me a boca e o cigarro vai-se queimando entre os meus dedos enquanto sussurro uma prece, regra da noite, rotina diária. E em cada palavra processada entre lábios, fecho os olhos para não me esquecer. Eu só rezo para não me esquecer. E faço sempre o exercício mental de percorrer as tuas feições vincadas e os teus lábios carnudos na ânsia de ainda me recordar dos teus vinte anos, há tantos e tantos outros atrás. Às vezes dou por mim a chorar nos cantos da casa, quando descubro que estou sozinha, porque não sei onde deixei os óculos ou porque me esqueço do que ia fazer. Mentira. Eu não choro por isso. Eu choro porque sei que é assim que se começa. Porque sei que, aos poucos, vais desaparecer de onde viveste desde sempre. E a única coisa que posso fazer é tentar lembrar-me constantemente para saber quando te vou deixar.
Eu já devia estar a dormir um sono pesado mas espero, ansiosamente, sentada na minha cadeira de verga em frente à janela e com o gato no meu regaço. De repente, sais tu. Todo aperaltado, de braço dado com uma dama que vejo todos os dias mas não conheço. Todos os domingos a mesma rotina. Tu de sapato engraxado, camisola de malha feita à mão (por ela, provavelmente) e uma careca brilhante à luz da lua. Vejo-te sorrir, já com poucos dentes, e encostas-te mais a ela para que o frio não vos enregele os dedos. Todos os domingos vejo a mesma cena. E todos os domingos pergunto a Deus porque não sou eu a dar-te a mão. A costurar-te as calças rotas. A fazer-te camisolas de malha e cachecóis de lã para te aquecer nestas noites frias. Os anos passam em ti todas as semanas, e cada dia que te vejo estás um ano mais velho, um ano mais pesado, mais cansado, mais arrastado. Vou-te vendo viver. Todos os domingos à noite, durante 6/7 minutos, vejo-te atravessar a rua em passo lento, apoiado nela, com uma barba por desfazer e um olhar vago de quem pouco vê. Carregam nos vossos ombros toda uma vida cheia de crianças e adultos, com gerações a criar gerações. Com gatos e cães e plantas no varal da janela. E pronto. Já não te vejo. Já não sei onde vais. Já não sei onde vou. E tento esquecer o que vi, mais uma vez. Percorro-te com os teus vinte anos, quando me vinhas deixar rosas à porta todos os dias e fugias do meu pai porque ele exigiu que se me quisesses namorar, teria que ser pela janela. Vejo-te a jogar à bola no pátio com os teus amigos e vejo-te também de caderno na mão, a desenhar as flores que vias no meu jardim. Ainda te consigo ouvir gritar o meu nome só para eu espreitar os beijos que me mandavas pelo ar.
Eu tenho medo de me esquecer, porque sei que já não te lembras. Tenho medo que estes anos me continuem a consumir a memória pela qual tanto luto.
Levanto-me da cadeira e arrasto-me para a cama em passo lento e consumido, com o gato a roçar-se nos meus pés enrugados e frios. As mantas não me aconchegam e tento a todo o custo conseguir fechar os olhos. Já nem consigo chorar mais. Eu sei que daqui a uma ou duas horas farás todo o caminho de volta para casa, vais demorar eternidades a abrir a porta porque as mãos já te tremem e a fechadura parece querer brincar contigo. Conheço todas as tuas rotinas e trejeitos, sei que te tratam bem e que vives cheio de amor. Sei que nunca te faltou nada porque encontraste tudo. Deixaste-me no dia em que foste embora para sempre mas eu nunca te deixei.
Namoro contigo todos os domingos pela janela e tu não sabes.

open;eyes

A distância só mata o amor que já está doente na hora da partida.

 Ainda aqui estavas e já eu tinha saudades tuas. Continuo a ridicularizar todas as palavras evocadas em silêncio, pensei que nunca as quisesses ouvir. Somos feitos de carne e osso e arrependimentos, e, à parte da matéria que me constitui, vou-me afogando em desejos infindáveis de ter feito o que devia no momento oportuno. Digo eu, na tentativa de me iludir mais um bocadinho, que oportunidades não me faltaram, mas eu sabia ou julgava saber que a hora certa iria chegar e eu iria reconhecê-la como um cego que reconhece o toque de quem ama, de quem espera, de quem anseia. Estupidez é saber que algo é esperado. Eu não esperava descobrir que, quando a minha derradeira oportunidade chegasse, tu terias outra chance de fazer algo diferente. E ainda continuo sem saber como foi que me perdi no tempo. Quem diz que nunca é tarde demais não sabe o que é ver a areia fugir por entre os dedos. Tentar parar o tempo. Soprar o vento para que ele vá na direcção contrária. Apagar o sol só com um fechar de olhos. Fazer com que ficasses, só por agora. Ainda aqui estavas e eu já tinha saudades tuas. Acabava por sentir um consolo ínfimo por saber que, apesar de nunca o termos dito, estaríamos sempre perto um do outro, e na minha equação, eu não saberia o que dizer quando me fosses subtraído. Só Deus sabe (e porque não tu? que eu nunca fui de religiões e Ele nunca me atendeu na hora certa) o poder que tiveste de me calar quando tiraste o mundo dos meus pés. Um único ser nos falta, e fica tudo deserto. Porque eu sei que pisei o risco. Que estava ali à beirinha, a brincar com as pedras e a olhar para o precipício. Eu estiquei a corda e ela partiu. E com ela partiste tu, mesmo quando eu achava que seria hora de dar uma volta de 180º e voltar a pisar terra firme. Cometemos sequencialmente o erro de perder oportunidades por orgulho, mania ou desculpas e quando finalmente achamos que já chega, que está na altura de pausar a vida e arranjar um novo rumo, vemos que fomos só nós que pausámos. Que os outros continuaram os seus rumos. Cada um arranjou uma solução diferente para o problema que teimámos em guardar com amor e carinho só porque sim: porque é mais fácil manter o problema por perto e continuarmos a vigiá-lo com medo que ele volte a fazer uma das suas do que resolver virar-lhe as costas e engolir as consequências. E quando achamos que poderíamos finalmente resolver as coisas é quando nos é imposta uma nova situação; um novo teste. E pouco mais nos resta senão aceitar que cada um sabe ou finge saber o que quer, que não podemos ser egoístas e esperar que as pessoas nos esperem eternamente. Somos obrigados a aceitar. E custa tanto aceitar... Ainda aqui estavas e eu já tinha saudades tuas. Alguém muito sábio uma vez me disse: arrepende-te apenas daquilo que tu não fazes. Mas eu arrependo-me daquilo que fiz e choro por aquilo que não consegui fazer. É tarde demais. É não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que me cessem o pensamento, não saber como calar as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Porque as saudades não se cingem apenas à falta física ou à lacuna deixada em memória por alguém.Termos saudades do que não existiu principalmente por nossa culpa dói bastante.O amor calcula as horas por meses, e os dias por anos; e cada pequena ausência é uma eternidade. Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças? No fundo, o truque é fazer com que a nossa ausência seja notada o bastante para que alguém sinta a nossa falta, mas não a podemos prolongar demais para que esse alguém não aprenda a viver sem nós. 

Só resta aceitar e aprender. A não deixar fugir. A não deixar escapar. A viver as coisas quando achamos que têm que ser vividas e a não esperar pelo momento certo. Porque acabamos por descobrir que o momento certo já passou e nós nem reparámos. Quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão; poderá morrer de saudades, mas não estará só.
 De tudo o que poderias ter sido para mim, ambos escolhemos que deverias ser a falta. O vácuo. O arrependimento. A saudade. Eu precisava ser, e só consegui ter. Se me esqueceres, por favor, esquece-me bem devagarinho.

É que ainda agora aqui estavas. E eu só sei ter saudades tuas.

blindness

“There are poisons that blind you, and poisons that open your eyes.”





São sete passos da minha cama à porta do quarto. Quarenta e dois até à sala. Mais nove e uma volta de 180º para me pôr a jeito de desfalecer no puff. Tudo de luz apagada e sem a batota de arrastar os dedos pela parede.

Minto às pessoas quando me dizem que tenho uma letra feia e desalinhada. Digo que sempre foi assim e que não tenho jeito nenhum para a escrita nem tampouco para o desenho. Sei desenhar uma casa com um tecto torto e um "sol" que nem Sol se parece. Se tivesse que dizer a verdade diriam que estaria a mentir, porque, na verdade, escrevo às escuras. Sempre escrevi. E dói-me os olhos e os ossos da mão direita quando o faço na claridade.
Acabei por decorar os trajectos que me são inerentes, inalei-os juntamente com o fumo de tabaco que me rodeia todos os dias e sinto-me mais humano a cada passo que dou nesta casa perdida. Sem retorno. Eu sei retornar se for preciso, é só voltar atrás, usar as técnicas que fui aprendendo e deitar-me novamente na cama. Mas eu preciso disto: preciso saber que ainda consigo percorrer o caminho de olhos fechados, preciso de agarrar na caneta já quase gasta e de rabiscar o que me alivia o intelecto. Sim, sempre fiquei um pouco embaraçado a cada vez que me criticaram a caligrafia, mas e o que sabem eles?
Sou um corpo de pele às escuras. Semi-vestido, semi-destapado, com a ventoinha a arrepiar-me a nuca. Sou corpo de faixas paralelas projectadas pela luz do Sol a queimar os estores. Vincadas nas minhas pernas, fazem jus às tantas calças que visto amarrotadas. O que eles não sabem é que sou corpo algum. Que nenhum corvo ronda um corpo digno de o ser. Serei eu? Sabem lá eles... Viciados em luz, corpos claros.
Perdem o que existe de mais enigmático por teimarem em encontrar a claridade a cada passo dado. Gosto de saber que no escuro só me sabem ver as falácias e as lacunas, que nunca me encontram sem fecharem os olhos. Eu fecho os meus e é aí que me encontro. Talvez seja essa a minha diferença, conheço-me melhor no silêncio da noite, quando agarro num pedaço de papel e rabisco o que há de mais vazio em mim. Se eu fingir por um momento que abro os olhos sou igual a tantos outros que critico. Como podem dizer que é na escuridão que reside o mal se é tão bom viver sem luz?
Onde preencho cada poro, descubro cada aresta do meu corpo utópico. Quem lhes dera ter um pouco da sabedoria que a minha caneta noctívaga me transmite.
A essência de ser não reside em saber ser. Eu sei-lo desta forma porque os lençóis que contornam o meu corpo sonolento assim o permitem. Esta cama nua, vestida de mim e este corpo nu, nu de saber como saber ser. Aqui, encontro-me quando não quero e quando quero, não me encontro. Cansam-se de me encontrar quando não quero ser encontrado e quando quero, estão a borrifar-se. Soubessem eles o quão bem me sinto nu, numa cama nua. Na minha cama, nua de tudo. De mim, de ti, deles, delas e de todas as coisas. Soubessem eles o quão nu me sinto aqui... Soubesse eu despir-me deste bloco de notas como me dispo a mim.
Mas eu não sei. E por isso todos os dias acabo por me afogar mais um bocadinho em cada gota de suor nervoso que me escorre pela testa enquanto tento descobrir o porquê de não me teres encontrado ainda. Seria fácil, penso eu. Ou então não. Porque se só me encontram quando eu não quero ser encontrado, o que farei eu a este desejo desenfreado de que me encontres? Se me dispo de mim, porque não me consegues ver? Fechasses tu os olhos por um segundo e eu encontraria a luz de que tantos falam...
Se conheço todas as paredes que me rodeiam sem a batota de deslizar os meus dedos nelas, poderei eu trocar todos os toques renunciados e percorrer as curvas do teu corpo para te conhecer de olhos fechados?
Escrever pensamentos lascivos no contorno dos teus lábios suaves. Despir-me de mim para me vestir com a tua pele sedosa. Encontrar-me em ti.
Diz-me, o que te falta para fechares os olhos de uma vez por todas?


com a co-autoria de André Santos - http://afmsantos.blogspot.pt/

dá corda

~ even a broken clock is right twice a day ~



Eu jamais teria chegado onde cheguei se só andasse em linha reta. Tive que voltar atrás, andar em círculos, perder dias, perder o rumo, perder a paciência e desaparecer em tentativas aparentemente inúteis para encontrar um quase endereço, uma provável ponte: a entrada do encontro. Acertei o caminho não porque segui as setas, mas porque desrespeitei todas as placas de aviso. Se tivesse seguido o suposto, se caminhasse sempre com as mesmas pessoas a meu lado, se agarrasse sempre na mesma mão eu não conheceria nada para além do que já conhecia quando estava na linha de partida. Não tinha cortado a meta a tempo e teria desistido a meio do caminho porque sim, porque é aborrecido correr atrás de algo que já se tem. Eu costumo voltar atrás porque não tenho compromisso com o erro. Porque ele não me deve nada e eu consigo mandá-lo embora se assim o quiser. Nós só aceitamos aquilo que nos é permitido. E temos que, veementemente, ignorar tudo aquilo que nos atrasa a vida. Mas nunca - nunca mesmo - ter medo de dar um passo atrás. Porque voltar atrás é melhor do que perder-se no caminho.

É impossível mudar aquilo que foi feito, seguir em frente é arriscado mas deixar tudo como está, é uma enorme covardia para quem quer alcançar os louros da própria honra. Às vezes é preciso arriscar-se em algo que seja verdadeiramente importante na nossa vida. Ganhar ou não, é do jogo. Sendo assim, se eu tiver que perder algo por que(m) tenha muito apreço, só por acreditar nos meus sonhos e nas minhas convicções, que eu perca tudo, então. Ainda que eu me sinta intimidada pelo medo de mudar tudo na minha vida, quero vestir-me de coragem e armar-me de ousadia para enfrentar todos os obstáculos perfilados à minha frente. Se eu insistir em exigir mais de mim mesma, é para que um dia eu não me lamente por não ter tido coragem de romper os meus limites e me aventurar por onde eu ainda não estive.

E se tivesses a oportunidade de voltar atrás? Consertar o erro, mudar o destino. O que fazias? Repetias tudo? Deixavas as coisas como estão? Não fazias nada?
E se pudesses parar no tempo, pararias em qual momento?
Eu repetia tudo. Mesmo tendo cometido erros, acertos, sofrimentos, apegos. Mesmo que naquele exato momento eu desejasse não voltar a lembrar-me disso. Digo mais, se eu pudesse voltar no tempo, não só faria tudo de novo, como aproveitaria mais cada momento que tive. Independente de ter sido certo ou não. Tentaria não cometer os mesmos erros que cometi, e tentaria não deixar que cometessem erros comigo. Mas já que não podemos voltar no tempo, resolvi deixar o tempo e o destino dizerem-me o que vai acontecer. Prefiro não me importar.

Armadura ;

À medida que crescemos, somos forçados a experienciar aquilo que nos faz crescer; torna-se uma bola de neve irremediavelmente pesada para nós próprios. Uma situação de reação-ação que acaba por ser uma capicua literal. Vai sempre dar tudo ao mesmo: quer erremos ou acertemos, acabamos por crescer. O problema reside exatamente quando descobrimos que não nos é possível crescer mais. Nem mais um bocadinho. É quando parte de nós quer voltar atrás e a outra parte pede incessantemente que não nos percamos mais no passado. É quando temos que mostrar ao mundo o quão crescidos estamos, que tudo correu como planeado ou então que somos um protótipo falhado, um gasto de energia. Uma perda de tempo. É só nisso que nos fixamos quando não nos pedem nada mais que isso: provas. Testes. São-nos apresentadas situações-limite, casos de vida ou de morte, em que o mais acertado seria morrer; mas queremos tanto ter um bocadinho mais de vida. Nem que seja para provar isso a nós mesmos. Nem que seja para calar alguém. Acabamos tão apagados que uma mínima luz acaba por nos encandear. Tira-nos a visão. Acaba com o futuro perfeitamente planeado porque nem sempre conseguimos controlar tudo o que existe à nossa volta. Tornamo-nos uma espécie de robot automatizado, mais que programado para corresponder às expectativas alheias, porque se os outros nos virem felizes, nós estamos felizes (?). Afinal, crescer é isso. É aprender até que ponto podemos tornar-nos impenetráveis. É saber exatamente quando desmoronar. Com quem desmoronar. Não é qualquer pessoa que terá esse privilégio: ver-nos crescidos. 
Todos os dias vejo adultos que ainda não cresceram. Vejo pessoas chorarem com alma e rancor.. Assisto a separações, admiro beijos. Invejo abraços. Reparo em olhares, pressinto toques. Contemplo sorrisos. Acabo por constatar que afinal, é tão mais vantajoso crescer do que ser crescido... E no meio dessa constatação, vou rezando aos céus para que, quando chegar a minha hora, quando for o momento de me assumir como uma pessoa crescida, que tenha um porto seguro. Onde possa deixar de ser quem sou. Porque ninguém sabe viver consigo mesmo por muito tempo. Eventualmente acabamos por enlouquecer de tanta sobriedade, e é tão difícil mantermo-nos sãos neste mundo de loucos. Porque sei que precisarei de um lugar onde possa ser louca. Preciso de um sítio onde me tirem a roupa e me toquem na alma. Que me cubram de esperança e me envolvam em compreensão. Um cantinho onde eu possa voltar a crescer só mais um bocadinho, que me acrescente, que me evolua. Um quartinho em que eu possa pensar que só preciso de ser crescida da porta para fora, que só os outros precisam de ver que sou impenetrável. Que não choro. Que não sofro. Que não sinto. Amor. Dor. Raiva. Angústia. Eu preciso da minha bolha. 

Eu preciso de uma pessoa que seja esse lugar. 

"Most people don't grow up. Most people age. They find parking spaces, honor their credit cards, get married, have children, and call that maturity. What that is, is aging."


love no less worthy



“...as long as nothing happens between them, the memory is cursed with what hasn't happened.”



Às vezes deito a cabeça na almofada e esboço um sorriso seco e melancólico. Sabe-me bem saber que ainda me lembro de ti quando o mundo está a pesar-me nas costas e que ainda consegues ser o meu porto de abrigo. Mesmo que não o saibas. Não é que seja impossível; convenhamos, nem toda a gente que sai das nossas vidas nos deixa um gosto doce na boca. Aliás, uma grande porção desses seres é bem capaz de nos pesar ainda mais do que o mundo nas costas, e não há cama nem almofada que nos salve. É por isso que a maioria das vezes nos forçamos a sair de casa e deixamos as chaves num poço sem fundo, porque voltar para o sítio que conhecemos nos dói mais do que sair em busca do desconhecido e de um conforto alheio. É exatamente o que se sente quando as pessoas já não nos acrescentam nada, que apenas nos passam os dias e, na sua incompetente consciência, nos sufocam tanto que o ar parece que só lhes pertence: que só elas sabem, que só elas querem, que só elas desejam, que só elas amam. E acabam por ser tão elas que não nos deixam sermos nós. E dói tanto deixarmos de ser nós próprios para deixarmos os outros serem eles mesmos... Mesmo que seja com as melhores intenções do mundo. No entanto, é realmente inevitável deixarmo-nos entrelaçar nesses nós, como se de uma música inebriante se tratasse e não conseguíssemos impedir o nosso pé de trautear a canção.
Felizmente não és um caso desses. A tua saída foi subtil e concedida pelo futuro que nos chegou depressa demais. Ninguém apressou a sua vinda, mas o facto é que com a chegada dele, foi ditada a tua partida. Deixaste um sabor doce na minha boca quando partiste e, às vezes, quando parece que tudo o que me rodeia é negro e triste, ainda te ouço mandar risadas na minha cabeça e parece que sinto as tuas mãos alcançarem as minhas. Sabes-me tão bem.
É quando me lembro de ti que os meus olhos se iluminam, que sinto um alívio no peso da minha consciência, que os meus dias se moldam às horas e que as horas se moldam exactamente ao tempo em que passas a dormir que nem um anjo inocente no meu pensamento. Eu só te acordo quando preciso. Forço-me todos os dias para me lembrar de todos os teus mil sorrisos, de todas as maneiras que me soubeste olhar. De todas as vezes em que soubeste dedicar-me cada estrela no céu e principalmente, de todos os beijos que me ofereceste. No fundo não é difícil; a nossa mente possui um filtro de memórias e, conscientemente, sabemos e conseguimos guardar o que nos faz bem e o que nos acrescenta. Tu, que já me deste tanto e eu só te retribuo cada vez que preciso que me dês um pouco mais. Mesmo que não o saibas. Mesmo que adormecido. Eu acordo-te sempre que preciso dormir e embalas o meu sono como nunca ninguém o soube fazer. Funcionas como uma anestesia, ou melhor ainda, és o meu sedativo pessoal. Tu foste embora da minha vida mas deixaste aquilo que há de mais bonito: as memórias.
Por agora, isso chega-me para aguentar só mais um dia.

E tu?

Ainda te lembras de mim?